




| treinando com os sobrinhos! |



Um dia ele me olhou e disse que há tempos queria nos multiplicar. Aquilo me marcou profundamente. Eu sempre quis ser mãe, mas, mesmo com muita vontade, ia me adiando o desejo: nossa vida tão perfeita a dois, viagens, trabalhos, estudos... sempre há um motivo. Mas o desejo de ser pai já gritava alto nele, e começou a não caber mais dentro do peito. Ali já existia o pai formidável que ele viria a ser.
Eu brinco que ele me deu o "golpe da barriga". Sua expectativa em tornar-se pai era incrível, chegou a contar meus dias férteis. Deu certo. Custamos a perceber, mas foi juntos que suspeitamos que você estava a caminho. Ainda mais juntos choramos e comemoramos a confirmação: agora éramos três. Eu estive para explodir de tanto sentimento: não bastasse a surpresa e a emoção indescritível que senti ao te saber dentro de mim, outra ainda me invadiu de assalto ao ver a profunda emoção que tomou conta de seu pai. Eu nunca tinha imaginado quão intenso esse momento poderia ser para um homem, descobrir-se pai. A emoção da mulher transformada em futura mãe já é batida, quase óbvia, mas a do homem, do futuro pai... Fiquei maravilhada, ele já era o pai que eu sempre quis para você.
Enquanto te esperávamos, em meio ao turbilhão de hormônios e transformações que me dominava e, por vezes, me aturdia, seu pai foi meu porto seguro. À sua maneira, é verdade, que ele tem seu jeito durão e agitado de viver a vida. Mas ele me acompanhou do início ao fim da aventura de te carregar dentro de mim, ainda que, muitas vezes, aos olhos dele, eu parecesse um pouco louca e incompreensível (e que grávida não passa por esses momentos?). Ele aprendeu lindamente a lidar com as instabilidades da gravidez, e, embora para ele tua vinda parecesse mais distante que a mim, que te sentia a todo momento, foi maravilhoso vivenciar o crescente esforço dele para aproximar-se de algo ainda tão abstrato, uma barriga que crescia, oras! Mais surpreendente ainda foi acompanhar a tranformação daquele homem que eu já conhecia há tantos anos: ainda na barriga, você já fazia do seu pai um novo homem, muito mais incrível, muito mais amável, muito mais paciente. Se eu já o amava tanto antes, agora parecia que aquele amor multiplicado seria o auge do sentimento que me unia a ele. Mal sabia eu que, tornado realmente PAI, meu amor por ele se tranformaria ainda mais, um sentimento que eu nem sabia que poderia existir.
Seu pai foi meu grande parceiro nas decisões que tomamos, ao longo da tua espera, sobre a maneira de te trazer a este mundo. O apoio dele, depois de concedido (porque inicialmente ele desconfiava de minhas idéias "humanizadas" sobre seu nascimento), foi incondicional: tantas e tantas vezes ele foi "meu herói", como quando me tirou correndo do hospital, contrariando a indicação da nossa obstetra, às 37 semanas de gravidez e às vésperas de minha defesa de mestrado. Nos empoderamos juntos, e assim começamos a construir nossa história como pais. Um parceiro poderoso, um futuro pai empoderado, que mais eu poderia querer ao meu lado?
Mas isso ainda não era nada perto do que ele faria durante teu nascimento. Seguro, tranquilo, ativo, absolutamente presente e, ao mesmo tempo, quase invisível, tamanha foi a sensibilidade dele em lidar com aquele meu momento-bicho. As palavras certas, os toques precisos, os carinhos necessários, os olhares absurdamente cúmplices, a presença rocha-sólida do começo ao fim, o apoio físico e emocional, a respiração sincronizada, a sintonia barriga-com-barriga. Ele foi, ao meu lado, também protagonista de teu parto (posso dizer, de boca cheia, que te parimos juntos, e isso me enche os olhos de lágrimas, e o peito chega a doer de tanto amor e gratidão): tornado pai por inteireza, entregue de corpo, alma e lágrimas ao novo e mais belo papel que assumiria nesta já longa vida que construímos juntos.
Já nos seus primeiros dias de vida, imbuído do novo sentimento que o dominou por completo - amor de pai - ele parecia ter nascido para aquilo: banhos, fraldas, embalos, acalantos... Certas funções ele chegou mesmo a me ensinar, como a te dar banho! Prestativo, quanto apoio ele me deu na minha fase de adaptação pós parto (a "perda" da barriga, o aprender a ser mãe, o desafio inicial da amamentação, o inevitável cansaço físico, os turbilhões de hormônios...), embora ele também estivesse se adaptando emocionalmente e fisicamente àquela nova realidade...
Aos poucos, vamos nos conhecendo como familinha, nos re-conhecendo como pai e mãe, nos re-encontrando como casal. Vamos descobrindo nossas identificações e nossas diferenças como pais, encarando aspectos ora complementares, ora conflitivos entre maternidade e paternidade. Mãe é bicho tinhoso (pelo menos eu sou...), sabe, filho, toma a cria como sua, tem dificuldade em compartilhar certos aspectos da maternidade. É quase que instintivo: necessidade de ter o controle de tudo, certeza de que o que fazemos é o melhor para vocês, nossos filhotes. Além do mais, queremos que essa nossa certeza seja acatada por todos que lhes cercam, e, mais ainda, pelos pais. E teu pai fica doido com isso, ele, que é tão participativo, quer compartilhar de tudo e reclama que eu centralizo demais as decisões sobre a tua criação... Ele, que é tão cheio de idéias, e detesta que eu fique dizendo a ele o que e como fazer as coisas com você... Ele, que é tão presente, e não consegue entender minhas cobranças por mais e mais presença dele junto a nós... Ele, que é tão cheio de energia, e fica chateado quando corto a onda de um batuque na hora de você dormir, ou de uma acrobacia depois de você comer...

(porque daí, mesmo se eu ficar tão velhinha que não consiga nem ler mais, pelo menos alguém vai poder ler para mim, como no filme do Benjamim Button... e eu vou poder lembrar e lembrar e lembrar quantas vezes eu quiser!)
imagem: www.gettyimages.com.br
conseguia conversar com "a barriga", e você foi aos poucos se comunicando comigo com chutes e socos, e eu comecei a cantar para você no chuveiro. Porque sentir você crescendo dentro de mim foi minha conexão maior e definitiva com o sagrado e o misterioso da vida e do mundo. Porque alimentar seu corpo e sua alma, dentro e fora da barriga, me fez prestar atenção no que eu ponho para dentro de mim, de alimentos a emoções, e me fez aprender que cuidar de mim - e do mundo - é também
cuidar de você. Porque preparar e esperar sua chegada criou um laço ainda mais forte entre seu pai e eu, e nos deu o exato sentido de família e de ninho. Porque fazer escolhas para o seu nascimento - e conseguir concretizá-las - me fez sentir poderosa e fortaleceu imensamente minha auto-estima. Porque nós proporcionamos a você um nascimento digno, feliz e sem traumas e você nos proporcionou a maior - e mehor - experiência de nossas vidas. Porque sentir você nascendo
de mim, te olhar, te tocar, te cheirar e te beijar pela primeira vez foram sensações que jamais esquecerei, e que me enchem os olhos de lágrimas a cada lembrança. Porque vivenciar seu nascimento no aconchego do nosso ninho e presenciar seu pai cortando nosso primeiro elo foi algo mágico e repleto de significados para nós. Porque ter você aninhado em meu colo, sugando o meu peito já nos primeiros minutos de vida criou entre nós uma ligação profunda, intensa e - quero crer - eterna. Porque
amamentar você nos primeiros dias, nos primeiros meses e ao longo de todo este primeiro ano tem sido uma vivência única de amor, carinho, plenitude. Porque este contato corpo a corpo, pele a pele com você me faz reviver diariamente tantas emoções recém-descobertas, mesmo nos dias em que estou mais cansada. Porque ver você crescendo aqui fora e acompanhar suas descobertas e aprendizados cotidianos me enche de alegria e encantamento pela vida. Porque redescobrir o mundo
com você, reconhecê-lo através de seus olhos me proporciona um prazer imensurável. Porque você me faz lembrar que brincar é bom demais, e que todos os dias e todas as coisas podem ser motivos para diversão. Porque você me faz olhar para meus pais de uma maneira que eu jamais tinha feito, passando a entender (mais de trinta anos depois) a intensidade do amor que eles sentem por mim. Porque você me faz ter vontade de me reconectar com minhas raízes, minha família, meus parentes, minha
história. Porque você amplificou o amor que eu sinto por seu pai, e nos faz melhores não apenas como pais, mas também como casal. Porque você me faz chorar ao pensar em tudo isso, por muito mais que faz por mim e por tudo que ainda está por vir: TE AMO.
Mãe não pode ter mau humor. Cara amarrada, nem pensar: 'nossa, como você tá estressada, credo!' Temos que dar conta do recado, sempre lindas, sexies e sorridentes: as verdadeiras mulheres-maravilha. E o pior é que só as mães sabem disso: o resto da humanidade (e aí eu estive incluída até há bem pouco tempo atrás, antes do Caio nascer - desculpa, viu, mãe!), principalmente a maioria dos homens (rá! não podia passar sem essa!), nem se dá conta disso, é como se tudo fosse tão natural, tão simples, tão igual. Alguém aguenta?
Vejamos um sábado na vida desta mulher-maravilha que vos fala: acordei com o filhote resmungando, às 6hs da manhã (depois de uma noite que não foi das melhores, já que ele estava meio doentinho). Dei mamá pro bichinho. Enquanto o pai trocava ele, fui pro mercado perto de casa comprar o café da manhã e alguns itens que faltavam pra fazer a papinha do Caio. Preparei o café, que tomei brincando com o ele. O pai saiu. Tirei a mesa, e o filhote já estava com soninho: mamá novamente. Aproveitando a soneca do pequeno, fui preparar sua comidinha: quando estava no meio processo, ele acordou manhosão (como todo bebê doentinho) e quis colo. Coloquei ele no sling e continuei fazendo a papinha. O pai voltou, e deu a frutinha da manhã, enquanto eu me arrumava para ir ao supermercado (fazer as compras do mês, já que eu não tinha conseguido ir durante a semana e a despensa estava completamente vazia). Lista em punho, fui. Com o carrinho quase completo, minha irmã (querida titia, que veio nos visitar) me ligou, já estava na rodoviária. Deixo o carrinho no super, vou buscá-la e volto para finalizar a compra. No meio do caminho lembro que está na hora da homeopatia do Caio, e ligo para lembrar o pai, já impaciente com minha demora (!). Chego em casa: filho quer colo, pai de bico, compras pra descarregar e guardar, papinha do nenê para dar, louça pra lavar, almoço pra fazer, vontade de tomar cerveja e botar o papo em dia com a Flá, fome. Depois disso tudo, com o almoço pela metade, o filhote com sono, hora do mamá, paro tudo e vou. Ponho ele dormindo no berço, completo o almoço, comemos, o pai tem que sair novamente. Finalizo o convite da festa de aniversário de um ano do filhote (é, tem isso ainda!). Descanso um pouco, e logo o filhote acorda. Brincadeiras, mamá, gotinhas, frutinha... o pai tinha trabalho pra fazer. Mais brincadeiras, hora do papá, vovô e vovó chegam: vamos passear à noite, ainda bem, porque o dia tava feio e não saímos de casa o sábado inteiro. Fazemos o esquema banho-família, me arrumo a jato que já estava ficando tarde, nenê com sono, hora de mamá... Chegamos no barzinho, Caio acordou, tinha uns amiguinhos e ele ficou agitado. Vovó, vovô, titia e papai ajudaram bastante, eu até consegui conversar, comer e me divertir um pouco, mas tem aquelas horas que só a mãe resolve. Colo daqui, tetê de lá, chororô e o pequeno dormiu. E eu já caindo de sono também. Cheguei em casa, pus o bichinho no berço, ainda dei uma geral nos brinquedos espalhados pelo chão, e caí na cama, torcendo para essa noite ser melhor (e foi) e o domingão também (está sendo).
É minha gente, ser mãe é uma delícia, adoro e nasci pra isso, mas mulher-maravilha também quer descansar no sabadão, que ninguém é de ferro...
Imagem daqui.
Dei mamá logo que ele acordou, e lá fui eu. A parte da manhã até que foi tranquila, afinal, há duas semanas já temos ficado separados neste período do dia. O problema começou quando chegou a hora do almoço: meus peitos já estavam bombando, pois era hora do pequeno mamar... Fui ficando meio angustiada, uma sensação estranha que misturava ansiedade e inquietação - eu pretendia voltar logo depois do almoço, mas por prudência profissional resolvi ficar, não sem antes me pendurar no celular para deixar tudo encaminhado com o super papai e a super vovó em casa, já que, além de tudo, tínhamos consulta com a pediatra à tarde.
Nessa altura, comecei a achar que um dos peitones ia dar bandeira e vazar no meio da reunião (maldita inexperiência, eu bem que podia ter levado a bombinha pra tirar um pouco de leite...), e isso foi me deixando ainda mais esquisita. Resolvi ir ao banheiro um pouco antes da reunião se iniciar, para tentar ordenhar um pouco com a mão, e, de fato, foi um grande alívio, que me permitiu ficar mais algumas horas na atividade (mas que foi esquisito, foi, ficar dentro de uma cabininha de banheiro ordenhando o peitão... afe!). Mesmo assim, eu sabia que minha presença ali tinha um prazo de validade, determinado pelos peitões, que me davam a sensação de estarem inflando numa velocidade alucinante, e, pior, eu achava que todos estavam percebendo que eu estava ficando deformada, com um peito maior que o outro... Rá!
Enfim, chegou uma hora que não deu mais pra aguentar: além dos peitones, tinha aquela ansiedade, uma pressa de chegar logo em casa, pegar o filhote e botar pra mamar... Pedi para o Marcelo, que tinha ido comigo, voltar dirigindo, e vim embora rezando pro leite não empedrar. Cheguei em casa e nem guardei o carro na garagem, eu queria logo pegar o Caio, abraçar, beijar, espremer, fazer cosquinha... e, principalmente, "plugar" ele no meu peito (como bem definiu a Flávia)! Só que o bichinho estava dormindo!! Fui até o quarto, peguei ele com cuidado, e em poucos segundos ele estava mamando, sem nem sequer abrir os olhos, tão naturalmente, como seu estivesse ao lado dele o dia todo. E eu me desabando a chorar, pensando sobre que sentimento maluco é esse que temos por nossos filhos, que saudade enlouquecida é essa que sentimos ao ficar algumas horas apenas longe deles...
Sei que, no fim, ele ficou super bem, curtiu o dia ao lado da vovó, enquanto eu passava mal de agonia longe dele. Foi um dia bem estranho, mais pra mim do que pra ele... Mãe é mãe, né...
Ai... acabo de dar de mamar para o meu pequeno, e me dei conta que ele não é mais tão pequeno assim... Olhando para suas pernonas vazando de meu colo enquanto mamava, percebi que meu bebezão já é quase um menininho... Não chorei - sorri -, mas meu coração ficou apertadinho... um misto de alegria e saudade... E isso porque ele só tem nove meses... Quem for mãe que me entenda!
SER MÃE...
"Estou dando a você a liberdade. Antes, rompo o saco d'água. Depois, corto o cordão umbilical. E você está vivo por conta própria."
(Clarice Lispector)