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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RELATO DO PARTO DE CAIO - PARTE 3

[continuando...]

As vésperas

Passei a 38ª semana praticamente toda na rua, dirigindo pra lá e pra cá, andando pra baixo e pra cima atrás de tudo que faltava para completar enxoval, quartinho e cia. Na sexta feira (dia 04/04), estava no trânsito quando senti umas contrações um pouco mais doloridas, mas nada que me chamasse muito a atenção (afinal, eu já vinha sentindo contrações há pelo menos umas 3 ou 4 semanas e, desde o descolamento de membranas, elas eram levemente doloridinhas). Ao longo desse dia tive mais algumas pontadas dessas, mas nem tchuns.

Minha irmã e meu cunhado tinham acabado de voltar de uma viagem para Índia, e estariam em Araraquara no sábado (05/04), para encontrar todos e mostrar as fotos. Eu queria muito ir, mas Dani estava fazendo o maior terrorismo, dizendo que eu não deveria ir, pois, caso eu entrasse em TP, o fato de estar lá melaria nossos planos. Ele inclusive decidiu que não ia de jeito nenhum, pra ver se me fazia mudar de ideia.

Fiquei triste e puta com essa atitude dele, e resolvi ligar para a Vânia antes de decidir o que fazer. Lembro perfeitamente do que ela disse: “Seu parto pode demorar ainda até mais quatro semanas. Prepare-se para isso, pois se você ficar achando que o bebê pode nascer a qualquer momento, você vai ficar muito ansiosa. Vai tranquila!” Na hora liguei para o meu pai e ele topou vir me buscar e me trazer de volta à noite. Na viagem de ida, senti umas contrações bem fortinhas, mas fiquei na minha. Chegando na casa dos meus pais, mais uma contração e fui direto pro banheiro, levar um papo com o bebê: “filhote, pelo amor de Deus, não vai resolver nascer hoje, espera a mamãe voltar pra São Carlos!” Rá!

Parece que ele me ouviu, e o resto do tempo fiquei super bem, sem contrações. Pude curtir a festinha, conversar com pessoas queridas, curtir minhas irmãs, ver as fotos. Uma grande amiga da família, Tia Sandra, me disse algo que nunca esqueci: “Thaís, você vai saber quando chegar o dia, a gente acorda se sentindo tão estranha...”

Na volta para casa, mais algumas contrações daquelas. Mas cheguei em casa sã e salva, e fui direto dormir.            

A chegada - a experiência mais incrível de nossas vidas

No domingo, dia 06 de abril, eu acordei me sentindo estranha... Mas faltavam ainda dez dias para a data prevista para o parto, então nem associei aquilo com o que tinha ouvido da Tia Sandra no dia anterior. Achei que era mais um dos “surtos” emotivos que tive ao longo de toda a gravidez, e não dei muita bola. Na verdade, eu estava com “faniquito” de arrumação, comecei a arrumar a casa inteira, que estava uma zona, resolvi lavar TODAS as roupinhas do Caio de uma vez, e enquanto eu fazia tudo isso, resmungava para o Dani que a nossa casa estava um horror, que dizem que um bebê só vem ao mundo quando o ninho está pronto, e o nosso ninho estava uma bagunça, que o Caio poderia nascer a qualquer momento, e olha só como ia estar a casa, imagina se ele resolvesse nascer hoje, não ia ter condição nenhuma, e bláblábláblá....... E, além de arrumar e reclamar, eu também chorava entre uma coisa e outra!

O Dani não acreditava, ele não estava entendendo nada: no início, tentou me acalmar, aos poucos foi perdendo a paciência e, de repente, explodiu: “mas o que tá acontecendo com você, tá parecendo uma criancinha, não tô te entendendo!” E eu chorava mais ainda, e dizia pra ele que alguns psicólogos diziam que as mulheres se infantilizam no final da gravidez, como uma reação ao medo da transformação em mães, e bláblábláblá..... e mais chororô. Uma coisa.

No fim desse louco dia, minha irmã (a que tinha voltado da Índia) passou aqui na volta de Araraquara para São Paulo, para ver o quartinho do bebê e conversar mais conosco, já que no dia anterior quase não tínhamos conversado. Aí resolvi contar para ela nossa decisão pelo parto domiciliar, senti que ela me apoiaria, e eu precisava muito falar sobre isso com alguém de confiança, foi muito difícil guardar essa decisão só para nós. Ela disse que queria participar do parto, que poderia fotografar, que a gente avisasse ela quando sentíssemos que seria o dia que ela viria de São Paulo para cá. Ficamos de conversar (pois não queríamos muita gente em casa no dia do parto, e já tínhamos conversado sobre a possibilidade da Rosa, prima do Dani, que estava fazendo curso de doula, acompanhar e registrar o parto). Umas 19:30hs ela foi embora, tive mais uma explosão de choro, eu e Dani conversamos profundamente, eu me acalmei e resolvemos fazer nosso plano de parto.

Estávamos sentados no chão da sala, lendo vários planos de parto e identificando aqueles que poderiam nos auxiliar a escrever o nosso, quando comecei a sentir umas contrações diferentes. Eram umas 21:30hs. Naquela intensidade que havia sido o meu dia, eu não havia sentido nenhuma contração. Mas agora que eu tinha parado, relaxado, elas vinham, e vinham fortes, mais fortes que todas que eu já tinha sentido até ali. E vinham com mais frequência, mais perto umas das outras... Nos olhamos, apreensivos e com um sorriso nervoso, mas sem afobação, e decidimos marcar o intervalo das contrações. Eu falava e Dani marcava. Os intervalos não eram muito regulares, o que nos tranquilizou um pouco: ora vinham de 15 em 15, de 7 em 7, de 10 em 10... Ficamos mais um pouco lendo os relatos, mas logo caímos na real: talvez o parto acontecesse logo, não ia adiantar nada fazer um plano de parto àquela altura!!

Dani sugeriu que fôssemos descansar, porque se o trabalho de parto engrenasse, o dia seguinte poderia ser longo (imaginávamos um trabalho de parto de, no mínimo, 12 horas, de acordo com os relatos e experiências que conhecíamos). Ele foi deitar por volta de umas 23hs e eu fiquei na sala lendo, estava meio ansiosa, não ia conseguir dormir... Estava lendo justamente o livro “Nascer Sorrindo”, do Leboyer, e as contrações começaram a ficar mais próximas... Resolvi deitar e descansar, Dani estava certo, eu precisava estar bem disposta caso o parto realmente fosse acontecer no dia seguinte. Me troquei, deitei na cama, de lado, não conseguia ficar, de costas, também não... resolvi ler mais um pouco, na cama mesmo.

As contrações foram se intensificando, comecei a marcar o tempo silenciosamente, pra não acordar o Dani, e percebi que elas já estavam regulares, de 7 em 7 minutos... “Dani, você tá acordado? Eu tô  achando que vai ser hoje mesmo, as contrações estão mais regulares...” E, ele: “então apaga a luz, vamos descansar, deita aqui”... Obedeci e, na primeira virada que dei para me ajeitar na cama, veio uma contração bem intensa, senti um movimento bem forte do bebê, e uma água escorreu nas minhas pernas: “Dani, acho que a bolsa estourou, agora não tem mais volta!” Eram 00:30hs. Rimos, eu me levantei e fui ao banheiro, pingando líquido amniótico pela casa inteira! Lá ainda escorreu mais um pouco de líquido, me limpei, me troquei e decidimos ligar para a doula, Vânia.

Ela atendeu super rápido, parecia que estava esperando nossa ligação. Não tínhamos certeza se já era hora dela vir, mas depois de fazer umas perguntas, ela mesma concluiu que era hora de vir, me lembro exatamente de suas palavras: “se vocês estão tranquilos, daqui uns 40 min no máximo estou aí. E vamos trabalhar!”

Depois disso, minha lembrança é toda feita de flashes, não tenho muita noção do tempo que as coisas levaram para acontecer, nem da sequência exata entre elas... Vou relatar conforme as coisas me vêm à lembrança, e espero contar com a ajuda do maridão para completar esse relato...

Lembro que troquei de roupa umas duas vezes antes da Vânia chegar, por conta do líquido amniótico que não parava de escorrer, e também porque queria encontrar uma roupa na qual me sentisse confortável, e estava um pouco frio. Fiquei andando pela casa, me movimentando, sem pensar em nada, apenas procurando encontrar posições nas quais eu me sentisse confortável. Sentei na bola (que a Vânia já tinha me emprestado há algum tempo), e fiquei rebolando bastante, tentei realizar algumas posições da yoga, mas somente a posição do gato (apoiada de quatro no chão, movimentando o quadril em vários sentidos) me aliviava um pouco: a coisa começava a ficar poderosa, já não havia muito mais o que fazer para amenizar as fortes contrações que ficavam cada vez mais próximas.

A Vânia chegou mais ou menos nessa fase, eu estava na sala, sentada na bola, conversamos um pouco sobre como eu estava, e logo mais uma forte contração na qual saiu grande quantidade de líquido amniótico. Fui novamente me trocar, Dani ficou limpando a sala, e Vânia foi “se instalando” na casa, trouxe um cd bem bacana de músicas instrumentais (que depois eu vim saber que tinham como tema a “Água”) que colocamos para tocar no escritório, começou a me fazer umas massagens na lombar... 

contração
a única foto do início da  fase ativa do TP...
Lembrei da máquina fotográfica, Dani tirou uma foto e a bateria acabou: não acreditei! Essa era apenas mais uma das coisas que estavam despreparadas, já que não tínhamos imaginado que nosso meninão resolveria nascer mais de uma semana antes da data prevista... a máquina descarregada, quase não tínhamos comida em casa (eu ia fazer supermercado no dia seguinte, tinha planejado que queria canja e sorvete para o dia do parto! Acabou ficando para o dia seguinte!), as roupinhas do bebê TODAS molhadas... Mas fomos nos virando: botamos a máquina para carregar, Dani me preparou um chá com torradas e mel para me dar mais energia. Tentei comer entre as contrações, mas as ondas ficavam cada vez mais fortes, e eu mal conseguia mastigar.

Enquanto eu tentava comer, decidimos, com Vânia, que já era hora de ligar para a Jamile. Eu andava pela cozinha, Dani me apoiava e massageava durante as contrações e Vânia ligava para ela. Primeira tentativa, no celular, ninguém atendeu. Nova tentativa no celular, e nada. Decidimos tentar na casa, pois era de madrugada, o celular poderia estar desligado... Nada. Comecei a ficar um pouco aflita, pois as contrações apertavam, mas elas me absorviam tanto, e Vânia me passou tanta segurança, que abstrai. Deixei nas mãos dela e do Dani essa preocupação, e continuei me movimentando pela casa, andando e rebolando nos intervalos, e parando, me apoiando, e por vezes me acocorando durante as contrações. Enfim, depois de uma idéia de gênio da Vânia, conseguimos nos comunicar com Jamile: a Vânia ligou na maternidade cheia de lábia para tentar conseguir o número do celular do marido da Jamile, que é médico, e as atendentes não deram, é claro. Mas pouco depois o telefone de casa tocou, elas tinham ligado para ele e Jamile logo imaginou que éramos nós: ufa, senti um alívio incrível ao saber que Jamile estava a caminho, as contrações já estavam bastante incômodas, e eu queria entrar na água... Não daria tempo da Jamile montar a banheira, mas para mim, naquele momento, o chuveiro estava ótimo!!!

Perguntei para a Vânia se já podia entrar (porque sabia que, entrando na água no momento errado, o TP poderia estacionar) e ela liberou. Lembro também de ter perguntado se ela achava que até a hora do almoço o bebê já teria nascido, e ela disse, confiante: Antes de nascer o dia já vai ter bebê nessa casa! Eu e Dani nos olhamos estarrecidos e felizes, animados com a possibilidade de logo ter nosso bebê nos braços. Foi um estímulo e tanto, dado na hora certa, e totalmente verdadeiro! Por essas e outras a doula foi tão tão tão importante no nosso parto.

Que delícia foi entrar no chuveiro, pedi para o Dani entrar comigo, ele e Vânia prepararam tudo no banheiro, levaram o som, reduziram as luzes, trouxeram a bola, e ele ficou comigo dentro do box, me dando todo o apoio físico e emocional que eu tanto precisava. Relaxei muito no chuveiro, com o apoio do Dani e as massagens da Vânia, embora as contrações só aumentassem de intensidade e reduzissem os intervalos... Mas era exatamente como eu tinha lido em tantos relatos, a natureza é tão sábia que os intervalos tinham a função perfeita de me reestabelecer e me relaxar para a próxima contração, que vinha sempre mais forte que a anterior... Eu relaxava muito, muito mesmo entre uma contração e outra. (Na realidade, intuitivamente acho que eu sabia que teria meu filho debaixo do chuveiro: durante toda a gravidez foi o lugar onde eu mais conseguia relaxar, onde eu mais conversava com o “meninão” - como eu costumava chamar o Caio, já que ele não tinha nome ainda... -, onde mais eu me conectava comigo mesma e com ele, onde mais eu ficava projetando como seria o momento do parto...)

mãos de fada
água e massagem da doula, substitutos da anestesia
A partir de agora, me lembro menos ainda, eu já estava pra lá de Bagdá, acho que estava na Partolândia, como costumavam brincar nas listas de discussão... A Jamile chegou, acho que a Vânia que a recebeu, me lembro dela ter conversado comigo do seu jeito sempre doce, perguntou como eu estava me sentindo, e já foi preparando tudo no banheiro para iniciar sua atuação, e colocou a banqueta de cócoras dentro do box para o caso de eu querer usá-la. Ela logo auscultou o bebê, lembro que nessa hora fiquei um pouco tensa, pois ela ficou um tempo auscultando sem comentar nada, mas estava tudo ótimo. Ela também achou necessário fazer um exame de toque, para sabermos como estava evoluindo a dilatação, e, delicadamente, perguntou se eu me incomodaria de irmos até o quarto, para que ela pudesse me examinar deitada... Mas eu não podia nem pensar em sair do banheiro, muito menos em deitar, e ela, perfeita no seu papel de me apoiar e evitar me incomodar ao máximo, se desdobrou para fazer o toque comigo sentada na banqueta de cócoras (foi o único, em todo o TP). Ela não precisou a dilatação, apenas disse que estava bem perto, que ela havia tocado a cabeça do bebê.

Depois disso, ela manteve-se absolutamente discreta, fazendo seu trabalho nos bastidores: preparando tudo para receber nosso filhote no banheiro, percebendo que todas as roupinhas e touquinhas do caio estavam molhadas e se organizando com a Vânia para secá-las com o ferro, preparando o quarto para nos receber após o parto... A Vânia se dividia entre ajudá-la, me massagear, trazer comida e, sem eu nem perceber, tirar fotos e filmar ao menos a reta final do parto, quando a bateria da máquina já tinha carregado um pouco (se não fosse ela não teríamos nenhuma imagem desse dia tão especial!). Enquanto isso, as contrações vinham como ondas que me inundavam, que me tiravam de órbita, e em seguida um relaxamento absoluto. Lembro de ter me focado muito na minha respiração, como tinha aprendido ao longo das práticas de yoga, o que me ajudou muito a suportar as avalanches de dor e também a relaxar entre elas. Em dois momentos me senti um pouco fraca, e com fome, e Vânia e Dani se revezaram para me atender com sucos e frutas, que eu mal conseguia comer (os líquidos caíam bem melhor). 

doula paciente parteira porreta
doula e parteira se revezando nos cuidados comigo
Uma das coisas de que me lembro bem é de ter gritado bastante! Lembro que eu comecei a gritar, minhas cachorras começaram a uivar, e de repente todos os cachorros do bairro estavam latindo e uivando... foi um momento cômico, nem eu me aguentei e caí na risada. Mas logo voltei pra partolândia, já estava em um ponto em que as dores atingiram um pico incrível, eu me pendurava no pescoço do Dani para me apoiar e aguentar as fortes ondas, as contrações cada vez mais próximas umas das outras. Nesse momento, até a água, que até então tinha sido meu alívio, começou a incomodar: eu sentia as gotas como que pinicando minha lombar, e pedi para desligarem o chuveiro. 

apoio
Dani me apoiou física e emocionalmente, o tempo todo
parir junto

De repente, a vontade incrível de fazer força: lembro que perguntei se eu já podia fazer, e a resposta de Jamile foi: se você está com vontade, pode fazer. Foi muito bom ter autonomia total nessa hora, sem ninguém pra me dizer o que fazer (tipo: “faz força, fica assim, assado”...) - eu perguntava o que tinha dúvida, e a Jamile ia me orientando. Em algum momento, já na reta final do expulsivo, ela sugeriu que eu sentasse na banqueta de cócoras, pois eu já estava bem cansada (e Dani com as costas arrebentadas! Rá!). Foi incrível ver como o meu corpo sabia o que tinha que ser feito, sem pieguice: a vontade de fazer força veio, e já era hora de nascer. Jamile perguntou se eu queria ver a cabeça saindo, preferi não ver (depois me arrependi um pouco), mas toquei e foi uma sensação indescritível, misto de emoção e aflição. A percepção de que em muito pouco tempo meu bebê teria completado a passagem para o lado de cá da barriga me encheu de força pra seguir ajudando-o, apesar daquela sensação de que algo estava me partindo ao meio! 
    
Depois da descida do bebê, essa sensação passou, restou uma queimação (o tal círculo de fogo, imagino, tão comentado nos relatos de parto) e, em algumas contrações meu bebê nasceu: na primeira, a cabeça. Depois de algumas, o corpinho! Eu mal podia acreditar... Jamile o amparou, colocou uma touquinha e uma mantinha aquecida em torno dele e o colocou no meu colo imediatamente. Eu realmente não conseguia acreditar que ele já estava ali... fiquei meio embasbacada... mas, ao contrário do que imaginava, eu não chorei: fiquei ali, grudadinha com ele, sentindo aquele cheiro delicioso que jamais esquecerei. Dani nos olhava completamente emocionado, rindo e chorando ao mesmo tempo.  

sem palavras...
nossos primeiros instantes juntos
Tentei colocar ele no seio, mas ele não quis; Jamile e Vânia disseram que era normal, que no tempo dele ele iria mamar. Elas me ajudaram a levantar da banqueta, me enrolaram numa toalha, e eu segui com ele no colo, ainda ligados pelo cordão umbilical, até meu quarto. Jamile e Vânia já tinham preparado tudo, forrado a cama, separado a roupinha, organizado o material que iriam precisar. Deitei na cama com ele sobre meu peito e logo ele começou a mamar, como se sempre tivesse feito aquilo, sem brincadeira. Dani cortou o cordão umbilical depois que parou de pulsar. Mamou um pouco, depois parou, nos olhamos e eu disse: “Filho, você acredita que você já nasceu? A mamãe não tá acreditando ainda!”. Ficamos ali deitadinhos, Dani a nos olhar, Jamile e Vânia saíram um pouco para nos deixar curtir sozinhos aquele momento tão especial. Nos emocionamos demais!

Até esse momento, ainda não tínhamos decidido o nome, estávamos entre Téo e Caio (a história da decisão, aqui). Quando Jamile voltou, para acompanhar a expulsão da placenta e verificar a laceração no períneo, Dani pegou o bebê para que eu pudesse me concentrar na finalização do processo. A expulsão da placenta foi uma parte bem desagradável, já que eu não tinha me preparado para aquilo, não sabia que eu continuaria a sentir contrações, que teria que fazer força para expulsá-la... Eu relaxei tanto depois do parto, que a placenta simplesmente não saía... Ficamos cerca de 1 hora nessa etapa, Dani ia e vinha com o bebê, eu tentava fazer força, Jamile me massageava, fez acupuntura, até que pedi um apoio para os pés (eu estava deitada, talvez, se estivesse de pé, fosse mais fácil), fiz força e ela saiu inteira, ainda bem! Não pensamos em fazer nada com ela, e foi descartada. Em seguida, Jamile suturou a laceração, o que também foi bem chatinho, e novamente ficamos só eu, Dani e Caio, agora já com nome.

pai babão
papai apaixonado
amamentação já! 1
amamentação na primeira meia hora, com ajuda da doula e da parteira


parir em casa 2
primeiros cuidados em nossa cama...
 Enquanto ficamos nós três curtindo, Jamile e Vânia foram para a cozinha e prepararam um delicioso caldinho de feijão (a única coisa que conseguiram fazer com o que tinha em casa, pois estávamos desprovidos, o supermercado seria feito no dia seguinte...), que comi na cama mesmo, como se não houvesse amanhã! Foi perfeito. Enquanto eu comia, Dani e Vânia ajudavam Jamile a pesar e medir o bebê, e o vestiram. Apenas quando tudo estava feito, limpo e tranquilo, é que elas foram embora, às 7 da manhã!!! Nessa hora, nossa ajudante estava chegando, e quase caiu para trás ao saber que nosso bebê já tinha nascido, e em casa. Deitamos os três na nossa cama, e dormimos deliciosamente até quase 11 da manhã, quando levantamos e começamos a ligar para avisar familiares e amigos do nascimento de Caio. Nada como parir em nossa própria casa, do nosso jeito, com nossas coisas, e receber as visitas nesse clima delicioso! 

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Caio nasceu às 4:18 do dia 07 de abril de 2008, pesando 2.820kg, medindo 49cm e recebeu apgar 10/10. Não recebeu nenhuma medicação e não sofreu nenhum procedimento invasivo. Esteve junto a mim ou ao pai durante todo o tempo desde o primeiro minuto de sua vida. Nasceu "sorrindo", como acredito que todo nascimento deveria acontecer.

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Agradeço a todos os envolvidos direta ou indiretamente para que nosso parto, o nascimento do Caio, nosso nascimento enquanto pais pudessem ocorrer da forma como acreditamos e desejamos! Muito obrigada, mesmo! E, especialmente ao Caio, por ter nos proporcionado a maior experiência de nossas vidas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

RELATO DO PARTO DE CAIO - PARTE I


[Valeu meninas, pelo estímulo no post anterior. A ideia não era fazer um suspense, mas apenas introduzir uma sequência de posts que talvez não sejam dos mais atraentes... Aproveitando a deixa, esclareço que esse relato foi escrito ao longo desses anos, boa parte no primeiro ano do nascimento do Caio, e outra boa parte agora. Pode conter visões contraditórias, por isso, mas tá valendo. Mas chega de preâmbulos, vamos à primeira parte do relato: ] 

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Não me lembro bem quando “descobri” o parto normal. Cesáreas sempre fizeram parte da minha vida. Desde pequena via, a cada verão na praia, minha mãe se preocupando em esconder a cicatriz de meu nascimento e de minhas duas irmãs. Quando minhas primeiras amigas engravidaram, o tema do parto normal tornou-se recorrente para mim, pois era a maneira que quase todas pretendiam ter seus filhos. Todas, sem exceção, tiveram seus filhos através de cesáreas. Alguns anos depois, pouco antes de eu engravidar, duas amigas mais próximas tiveram seus filhos por parto normal: era a primeira vez que acompanhava mais de perto nascimentos que não fossem por cesáreas, e um deles havia sido na França... Então engravidei: e desde o início eu sabia que queria e teria um parto normal. Mas não sabia o caminho que teria que percorrer para conquistá-lo da forma como desejava...

A descoberta da gravidez e do vasto universo do parto humanizado

2007 foi um ano especial. Ano em que completei 30 anos, em que eu e Dani passamos a conversar mais seriamente sobre ter um filho. Eu prorroguei a ideia por um tempo, pois estava fazendo mestrado e meu prazo se esgotava em março de 2008. Fizemos uma linda viagem pela América Latina em maio, e a vontade começou a se tornar mais concreta: este ano engravidaríamos, mas não poderia nascer antes do mestrado... Tempo vai, tempo vem, e tudo acontece no seu devido tempo: em setembro me descubro grávida... e eu achando que estava com problemas no fígado, pois havia tomado uma cervejinha e passado mal... Poucos dias antes de descobrir eu havia ido ao ginecologista, porque estava com dores nas mamas, e ele me pediu uma mamografia... não deu nem tempo de fazer, logo descobri que as tais dores eram um bebê a caminho!!! (belo médico esse...)

Pois bem, descoberta a gravidez, alegria total, fomos, eu e Dani, nos consultar com o tal médico, afinal, ele era meu médico há tantos anos... A única coisa que combinamos de conversar com ele: dizer que pretendíamos ter parto normal, pois eu já sabia que ele não era dos mais “adeptos”. Na consulta, além da objetividade médica que impõe uma cortina de gelo entre o médico e seu paciente, algumas gracinhas pra dar um tom de bacana e uma resposta: “o tipo de parto só dá pra decidir no final da gravidez, na hora h, não adianta você ficar se preocupando com isso agora”... Dani olhou para mim e não precisamos falar mais nada. Estava decidido, procuraríamos outros médicos.

Através de Rosa, uma grande amiga (prima de Dani) que não estava grávida, mas envolvida com círculos de mulheres, “tendas vermelhas” e coisa e tal, eu já havia tomado contato com o site amigasdoparto.org e através dele fui rapidamente descobrindo o universo do “parto humanizado”, as doulas e etc, que até então eu só tinha ouvido falar através de uma ou duas amigas que haviam pretendido um parto humanizado e acabaram tendo cesáreas.  Mas esse universo me parecia tão distante, concentrado em capitais como São Paulo, Rio e BH... Se já me parecia quase impossível que eu tivesse um parto normal em São Carlos (dado o histórico de cesáreas de amigas e conhecidas), que dirá humanizado... Doulas por aqui? Nunca tinha ouvido falar.

Mas como o “universo conspira a nosso favor”, através daquele primeiro site cheguei ao amigasdoparto.com.br e de lá para os sites do Gama, do Doulas do Brasil e da Parto do Princípio foi um pulo. E então, uma surpresa incrível: este site indicava um grupo de apoio em São Carlos, coordenado pela psicóloga Vânia Bezerra (que na época ainda não tinha esse blog que eu adoro)!! Nem acreditei...

Em setembro mesmo comecei a fazer contato com ela e, paralelamente, “mergulhei” no mundo virtual do parto humanizado, entrando nas listas partonosso e abcdoparto. Descobri termos como tricotomia, enema, episiotomia, ocitocina, cardiotoco, seus significados e o que representavam em um parto. Descobri os relatos de parto, planos de parto e as inúmeras variações do parto normal, do mais medicalizado ao mais natural. Descobri que era possível ter um parto em casa, algo que eu nem sonhava. Essa ideia me tocou desde o início, mas me parecia loucura demais para um primeiro parto. Além disso, Dani, filho e irmão de médicos, de cara achou bastante estranha a ideia.

[Aqui, uma pausa. Nesse momento, cerca de um mês após ter descoberto a gravidez, enviei à lista partonosso um email intitulado “os maridos e o pd” que gerou um bom debate, e me cutucou para não desistir de cara da ideia. Reproduzo abaixo o email e a resposta da Ana Cris – que foi uma das que mais me cutucou. Quem estiver sem saco, pula essa parte! Rá!]

Vendo essa mensagem [mensagem enviada por outra mulher sobre parto domiciliar] percebi que não é só o meu marido que encana com o parto domiciliar... parece que acontece com mais frequência que eu pensava... Eu estou apenas na 14 semana de gestação, quero MUITO ter um parto normal, encontrei uma médica muito boa na minha cidade (São carlos), a maternidade da Santa Casa parece que vai ser reformada em novembro com instalação de banheiras para parto na água, mas eu também tenho pensado bastante no PD, ainda mais depois de descobrir um caso aqui na minha cidade, algo bem raro, eu acho... Mas ao mesmo tempo a maioria dos relatos de parto domiciliar que li sempre são no segundo ou terceiro parto, ou ainda depois de uma cesária... Me sinto também um pouco insegura de investir em parto domiciliar na primeira gravidez...
Podemos trocar umas idéias sobre isso??
bjocas
thaís

Thais, porque é que você imagina que tem tantos casos de parto normal depois de cesárea no domicílio? Afinal essas mulheres são ainda mais "perigosas" do que uma primigesta. Elas não só não pariram anteriormente, como tiveram uma cesariana e portanto têm o risco de ruptura uterina.
Porque será que justamente essas mulheres são as que acabam fugindo do hospital e indo parir em casa?
Bjs
Ana Cris

[Despausa]

Enquanto isso, eu também buscava informações sobre os obstetras da cidade, para iniciar o acompanhamento. Através da Vânia descobri a Dra. Carla, que segundo ela era uma das que mais faziam partos normais em São Carlos. Marcamos uma consulta com ela e com mais dois outros médicos da cidade, também conhecidos por realizarem alguns partos normais. Logo na primeira consulta com ela, o centro da conversa foi o parto normal, as perspectivas na cidade, as opiniões dela sobre o assunto. De cara ela nos falou sobre seu projeto de implantar um quarto PPP na maternidade, que provavelmente estaria pronto na época do meu parto! Saí maravilhada e convencida que tinha encontrado a médica que eu tanto procurava. Acabei cancelando as consultas que tinha marcado com outros médicos, pois preferia ser acompanhada por uma mulher, e isso se repetiu ao longo de toda a gravidez, quando fui cada vez mais me cercando de cuidados femininos...

Como meu ciclo menstrual estava bem desregulado antes de engravidar, e não fazíamos ideia de quando nosso filhote havia sido concebido, Dra. Carla pediu um primeiro ultrassom, para calcular melhor a idade gestacional. Pela data da última menstruação, eu estaria grávida de cerca de 7 semanas, não veríamos nada na ultra, apenas os batimentos do coração. Entretanto, ao começar o exame, um susto, e uma grande emoção: já podíamos ver o bebê!!! Nossa, que incrível foi esse momento, eu e Dani parecíamos duas crianças, tamanha nossa alegria, nosso abestalhamento... Foi inesquecível. Na verdade eu estava mais grávida do que pensava, com cerca de 11 semanas... Demoramos a descobrir a gravidez porque eu cheguei a menstruar já grávida, e tudo o que eu sentia nesse início eram dores no seio, sono, emotividade aflorada e muita vontade de fazer xixi, “sintomas” que, como marinheiros de primeira viagem, não tinham para nós ligação entre si e, muito menos, com gravidez...

Na verdade, fomos percebendo cada uma dessas características aos poucos, e foi o Dani que intuiu minha gravidez: “você está tão manhosa, tão chorona... tô achando que você está grávida... vamos fazer o teste?” E eu: “não, tem que esperar atrasar a menstruação pelo menos uma semana para fazer o teste, e como meu ciclo está todo desregulado, temos que esperar mais um pouco”. Mas, nesse momento, eu já sabia que estava grávida. Ele tinha matado a charada. Era uma sexta-feira. À noite, ele foi para a capoeira e eu fiquei sozinha em casa, e não aguentei: “acho que tem algum teste que dá pra fazer antes de uma semana de atraso...” Fui pra farmácia, e comprei o teste mais baratinho, que teoricamente já daria resultado com apenas um dia de atraso da menstruação. Voltei pra casa, fiquei em dúvida se fazia o teste antes do Dani chegar, mas resolvi fazer: duas listrinhas cor de rosa, não acredito, é verdade!!! Tô grávida mesmo, será que dá pra confiar nesses testes?? Mal eu acabei de fazer o teste, e Dani chegou, olhou minha cara que misturava dúvida, espanto e felicidade, já ficou desconfiado, e não conteve a emoção quando eu mostrei o teste positivo... Me abraçava, e eu ainda não estava acreditando, fomos à farmácia e compramos outro, do mais caro (rá!) - foi uma sensação tão engraçada, chegamos até a comentar no dia, nós dois indo juntos, de mãos dadas, até a farmácia, comprar um teste para confirmar o que os dois já tinham certeza, cheios de uma alegria tão leve... - e, batata, positivo!!!! Comemoramos, embasbacados, mas nesse dia não contamos a ninguém: queríamos a confirmação definitiva. No dia seguinte, logo cedo, fomos fazer o exame de sangue, e aí sim nos “liberamos” para gritar, chorar, pular, e contar pra todo mundo: estamos grávidos!!!!!!!!!!!!!

A gravidez: uma espera muito ativa e bem acompanhada

Trabalhei muuuuuito durante a gravidez, já que, além do mestrado, estava envolvida em vários projetos profissionais. No último trimestre, desacelerei o ritmo dos projetos para me concentrar em finalizar o mestrado a tempo (meu prazo era março, e o bebê estava previsto para abril, imaginem a tensão!). Fiz uma bela viagem para Salvador com Dani e mais um casal de amigos no início de janeiro, aproveitei pra relaxar muito, pois sabia que em seguida seriam dias e dias de bunda na cadeira pra terminar de escrever a dissertação. Lá percebi o quanto a água me fazia bem, e na volta entrei na hidroginástica. As aulas de hidro, as práticas de yoga e os banhos eram meu momento maior de conexão com o bebê. No resto do tempo, a corrida pra dar conta de tudo, já que, entregue a dissertação, teríamos cerca de um mês e meio (se o bebê nascesse na DPP) pra transformar o escritório em quarto de bebê e acabar todos os preparativos para recebê-lo. Sinceramente, olhando hoje não sei como dei conta!

Apesar dessa loucura toda, minha gravidez correu muito tranquila do início ao fim, meu corpo correspondendo às minhas expectativas e eu me dedicando muito para mantê-lo ativo, para que as transformações nele fossem sendo vivenciadas etapa a etapa, tentando controlar a ansiedade, as inseguranças e os medos que permeiam o imaginário das grávidas. A prática da yoga foi fundamental nesse sentido, bem como a leitura do livro Parto Ativo, recomendado pela minha doula, o acompanhamento quase diário no livro A Bíblia da Gravidez, que ganhei de minha cunhada e a participação (mais como ouvinte) nas listas de discussão.

A única coisa que não correspondia em nada às minhas expectativas eram minhas emoções. Afe! Ao longo de toda a gestação meu grande desafio era conciliar todas as transformações e descobertas da gravidez com meu trabalho, meu mestrado, minha vida conjugal. Por inúmeras vezes me via perdida entre tudo isso, sem foco, com vontade de parar tudo e só curtir a gravidez, mas era impossível. Dani quase surtava com minhas alterações de humor, crises de choro e pitis inesperados. Mas o fato de termos uma doula ajudou muito nesse sentido: com ela eu conversava, desabafava, tirava minhas dúvidas.

Durante a gravidez eu e Dani nos encontrávamos com ela para conversar e, na maioria das vezes, assistir a filmes sobre parto, fundamentais para que pudéssemos formar nossa ideia de parto, pensar sobre o que queríamos para o nascimento do nosso filho, questionar o padrão que já conhecíamos tão bem. Assistimos com ela os filmes Nascendo no Brasil, BirthDay, O Sagrado, Birth as we know it, entre outros... Uma enxurrada de novas informações e realidades de parto que foram fundamentais em nossas escolhas. Hoje sei que foi a Vânia, através da apresentação do filme Birthday, que fez brotar em mim a semente do parto domiciliar, quase como uma picada da mosca azul. Mas marido ainda era muito reticente. Fui deixando a história pra lá.

As conversas com nossa médica também eram ótimas para nos tranquilizar e, ao contrário do que faz a maioria dos médicos, ela nos acolhia muito bem em nossos questionamentos sobre parto, sempre franca e objetiva. Entretanto, apesar de já estar com um pezinho na humanização, Dra. Carla ainda não tinha mergulhado de cabeça, e nossos desejos começaram a se chocar com seus limites, como ela mesma nos disse em uma consulta. Em nossos questionamentos sobre as intervenções, ela sempre deixou muito claro que dispensava o enema e a tricotomia, mas fazia episio, considerava o cardiotoco um equipamento indispensável – o que eliminava a possibilidade de parirmos na casa de saúde, um ambiente mais acolhedor - e só fazia partos na posição deitada, várias limitações para o parto ocorrer como eu gostaria. Além disso, com o passar dos meses ficou evidente que o projeto de implantação do quarto PPP na maternidade não aconteceria a tempo para o meu parto, o que me desanimou bastante.

Vale dizer que, apesar de ter tido um atendimento que considero diferenciado pro que havia na cidade naquele período, dois episódios poderiam ter posto à prova minha vontade de ter o parto normal. Um deles ocorreu logo nas primeiras consultas, quando, ao medir minha pressão, Dra. Carla constatou que ela estava alta e, somando isso à informação que eu já havia passado a ela de que minha mãe tinha pressão alta, e que tinha descoberto durante o período em que esteve grávida de mim (a indicação da primeira cesárea dela foi essa), ela ficou bastante apreensiva, e me deixou também. Registrou na minha carteira de pré-natal: “hipertensão crônica”, me pediu que passasse uma semana indo uma ou duas vezes por dia, em horários variados, medir minha pressão na maternidade ou na unimed e me receitou um remédio para pressão. Imaginem meu pânico. Mas fiz a medição direitinho (um saco) e agendei uma consulta com minha homeopata, pois não iria tomar nenhum remédio sem antes falar com ela, que me tranquilizou dizendo que eu não tinha histórico de pressão alta (ela já me acompanhava há quase três anos), que poderia ter sido um episódio isolado. Descobri também que muitas grávidas tinham a “síndrome do jaleco branco” e achei que poderia ter sido o meu caso naquele dia. Enfim, todas as medições indicaram pressão normal, não tomei o remédio e, após mais algumas consultas, Dra. Carla riscou o diagnóstico de minha carteira. Ufa.


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

RELATOS DE PARTO: SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA!

A blogosfera materna é cíclica: em alguns momentos um assunto está em alta, depois some, depois reaparece. Alguém faz um post instigante, outras resolvem abordar o mesmo tema, e as experiências vão se somando, se multiplicando, engrandecendo os pontos de vista. Eu adoro isso.

Recentemente, o tema "parto" esteve em pauta em vários blogs: a Nine fez um super revival do seu processo, a Mari postou o relato de parto do Lucas e alguns adendos, a Anne resolveu cutucar suas feridas, a outra Mari decidiu expôr suas experiências, a Lia realizou seu PD e fez um post super explicativo sobre este tipo de parto, a Dani fez um bem bolado de suas opiniões sobre parto, e por aí vai.

Nesse meio tempo, eu resolvi retomar o relato inacabado do parto do Caio, seja porque o movimento cíclico me pegou; seja porque a Lia me deu um puxão de orelha; seja porque a Nine me disse que gostaria de lê-lo antes de parir o segundinho; seja porque eu comecei a fazer o relato do parto do Nuno, mas a culpa me impedia de avançar por não ter finalizado o do Caio; seja porque eu me prometi váááárias vezes que iria terminar, e sempre procrastinei; seja porque perdi o timing de escrevê-lo antes de minha irmã parir, mas agora tenho algumas pessoas queridas grávidas no entorno... enfim, meti a cara e terminei o bendito.

O bichinho ficou enooorme. Vocês já sabem, quando pego pra escrever, a coisa vai, sou prolixa. Mas não é só isso. Meu primeiro parto não foi algo trivial, que aconteceu porque tinha que acontecer, ou que eu já sabia como seria desde o início. Foi um longo processo, uma dura caminhada (dura mesmo, foram várias batalhas, internas e externas!), e o relato registrou bem isso. Não foi fácil ter o parto que eu desejava (infelizmente, pois assim deveria ser). Mas valeu a pena.

De modos que o relato acaba sendo, em primeiro lugar, um registro para nós mesmos, os envolvidos, nos lembrarmos sempre dessa experiência tão incrível que vivenciamos. Em segundo lugar, um retorno daquilo tudo que recebi lendo tantos e tantos relatos net afora: eu sentia que tinha essa dívida, de compartilhar com outras pessoas a minha experiência, pois talvez ela possa ser decisiva na escolha de alguém, como tantos relatos foram na minha. Por fim, vão se transformar em posts desse blog: por isso, talvez fiquem longos demais, estranhos, chatos de ler. Mas espero que encontrem uma ou outra leitora com paciência para acompanhar a jornada até o fim.

Então, senta, que lá vem história. Amanhã ou depois posto a primeira parte da saga.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

1 MÊS DE NUNO! (DA SÉRIE: NOSSA NOVA REALIDADE)

Pois é, Nuno já completou um mês!! Quase um mês e meio, pra ser mais precisa. Um período intenso, de muitas novidades, transformações... ao mesmo tempo em que parece que foi uma eternidade, devido à quantidade de emoções e situações vivenciadas, também passou tãoooo rápido.....


Foi um mês de adaptação total de todos nós, afinal, nossa familinha está tomando uma nova configuração! A transformação mais intensa certamente foi vivida por Caio, que deixou de ser filho único pra virar irmão mais velho, mas eu e Dani também passamos a ser pais de dois e, novamente, de um recém-nascido! Todas as rotinas, os esquemas, os acordos, os horários, as prioridades  construídas arduamente ao longo desses 3 anos como pais precisaram ser revistas (ainda estão sendo!) para nos ajustarmos a essa nova (deliciosa e trabalhosa) realidade familiar.

Nos primeiros quinze dias contamos (novamente) com a ajuda inestimável da minha mãe, a super vovó. Só que dessa vez foi bem diferente de quando ela veio nos ajudar após o nascimento do Caio. Se daquela vez a prioridade era nos apoiar com a casa, a comida, as roupinhas (e cuidar de mim!!), dessa vez a prioridade foi o Caio, nos ajudar a dar atenção a ele, a fazer sua adaptação ser mais suave. Claro que ela também deu uma super força com a comida e a louça (e dá-lhe louça), além de ajudar a dar um trato na casa quando a ajudante não vinha, mas essa não era a prioridade. Outra diferença é que, da primeira vez, ela ficou um mês ou até mais conosco (inclusive porque eu estava em processo de troca de ajudante em casa) e, dessa vez, por já ter uma ajudante "pau-pereira" e por já sermos pais de segunda, quinze dias foram suficientes pra ajudar a reequilibrar a rotina. 

Além da minha mãe, então, contei com nossa ajudante que vem 2 vezes por semana e que também teve que se reorganizar pra nos ajudar na nova rotina, agora com muito mais roupas sujas... No começo, não deu pra ela continuar preparando a comida (e aí entrou a super vovó), mas agora a faxina está um pouco mais geralzona, priorizamos sempre a lavagem das roupas do Nuno e do Caio, e ela vai dando conta do recado. A ideia é nos estruturarmos pra ter a ajuda dela 3 vezes por semana em breve, o que seria bem bom.

Dani ficou uns 10 dias de licença (apesar de ser autônomo), curtindo a chegada do filhote, cozinhando e lavando muita louça, montando seu novo aquário, bebemorando bastante, e se injuriando porque quase ninguém vem visitar nas primeiras semanas (concordo com ele, já até fiz um post mental sobre isso, e se der qualquer hora o transformo em um post real! #blogueiradoida). Dani é pai pra toda obra: primeiros banhos, fraldas com mecônio-graxa-plus, fraldas da madrugada... é tudo com ele. Dessa vez ele se liberou rapidinho das fraldas da madruga (com o Caio a funça foi, em geral, TODA dele) porque Caio tem acordado de madrugada (pois é), e ele vai atender o pequeno. Além disso, ele assumiu o Caio pela manhã, levar e buscar na escola e tals (agora já tenho ido algumas vezes novamente, é uma boa desculpa pra sair de casa um poquito, rá!), além de tooodas as compras pra casa. Mas a gente sempre quer mais, né? Tô sempre no pé dele: faz isso, faz aquilo, você esqueceu isso, você não me dá atenção, vai brincar com seu filho..... (calo de mãe, conhece? chaaaaaaaata...).

 

Caio viveu esse período tão intensamente como nós, ou até mais. Além de ter assistido ao final do parto, ajudado a dar o primeiro banho, enfim, curtido os primeiros momentos do Nuno bem de perto, ele passou todos os primeiros quinze dias após o parto em casa, sem ir pra escolinha. Na verdade,  no meio desse período, foi apenas um dia, pra matar a saudade dos amigos e contar a novidade, mas depois não quis ir e aproveitamos pra curtir muito todos juntos (até porque a vovó estava aqui pra ajudar). Assim que ela foi embora, fomos retomando a rotina do pequeno, que voltou pra escola sem crises (ele estava até com saudade). Antes de ir ele sempre quer ver o irmão, dar beijo, e quando volta, a primeira coisa que ele pergunta é: cadê o Nuninho? Meu menininho se transformou MUITO nesse período, e quero registrar um pouco dessa transformação toda num próximo post.

Depois que minha mãe foi embora, Dani voltou à rotina de trabalho aos poucos, e Caio voltou pra escolinha, eu, muitas vezes, me senti muito sozinha durante o dia, ficando em casa só com o Nuno, na maior friaca (não dava nem pra dar uma saidinha no quintal). A Dani e a Carol falaram disso, e realmente é um período muito solitário (apesar de estarmos com o bebê). Conversamos e Dani se organizou pra trabalhar pelo menos 2 tardes por semana em casa. Foi ótimo. Além disso, com o Nuno um pouco maiorzinho, começamos a sair uns dias pra almoçar, fomos jantar fora um dia, enfim, pude espairecer um pouquinho (conto mais de mim também num próximo post). 

E o Nuno? Ele é bem sossegado. Quem conheceu o Caio pequenininho não acreditava que isso pudesse acontecer (e, pra falar a verdade, nem eu), mas parece que ele vai ser um bebê ainda mais tranquilo que o irmão! Mama super bem e só chora se estiver com fome ou com gases (marditos!). Dorme picadinho de dia, é verdade, mas de madrugada acorda só  uma vez pra mamar (fico cansadona, claro, mas me policio pra não ficar reclamando: mil vezes um bebê acordado de dia que de noite...). Adora dormir numa festinha (eba!), e já fomos a três eventos sociais (rá!): um casamento no campo, uma festa junina numa chácara e o chá de bebê da minha irmã (logo mais serei titia!).  Também  já fomos passear numas pracinhas e até num teatrinho no Sesc acompanhando o irmão. E semana passada fomos pela primeira vez na roda de mães organizada pela nossa parteira. Tá baladeiro esse bebê!!


Essa é uma grande diferença que eu tenho percebido do segundo filho: a vida continua, a rotina com o filho mais velho não pode ser simplesmente congelada, não dá pra entrar de cabeça na "fusão emocional" (Laura Gutman podia escrever mais sobre isso, seria lindo). Mas isso é assunto pra outro post. 

E viva o sling que me permite blogar com o Nuno nanando no aconchego do meu colo!!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

POR UMA INFÂNCIA SEM RACISMO



Pois bem. Eu tô sempre meio atrasada nessa intensa blogosfera materna. A blogagem coletiva sobre infância e racismo, proposta pela Ceila, do Desabafo de Mãe acabou dia 28, e eu quase passei batido. Não porque o assunto não me toque: pelo contrário, como vai ficar claro nesse post. Mas por pura falta de tempo pra parar, refletir, escrever. Mas, como nada nessa vida é só acaso, foi justamente o Caio que me conectou tardiamente a essa blogagem. E aqui estou, escrevendo enquanto reflito, e refletindo enquanto escrevo, dedicando minutos que seriam do meu sono precioso pra entrar nessa roda também.

O fato é que ontem, enquanto nos preparávamos para dormir, Caio fala, do nada: Mamãe, minha cor não é branca, minha cor é preta! E eu, intrigada com aquilo, e achando graça, dou corda: ah, é filho, e porquê? Ele: Porque é bonito. Concordei com ele, e deixei a conversa fluir, sem querer muito extrair "ensinamentos" daquela espontaneidade bonita: se o assunto continuasse, eu embarcava na dele, senão, aproveitaria a pureza do olhar da criança de 3 anos, me sentindo feliz por ele perceber as coisas dessa forma e reafirmando internamente o necessário e cotidiano esforço por não transmitir a ele qualquer ranço de preconceito que em mim possa existir. E assim foi, ele terminou a conversa com: e a cor da mamãe também é preta. Eu gosto. E foi mudando de assunto, falando de super heróis e flautas, os assuntos do momento.

Existem muitas formas de se ensinar a diversidade a uma criança. Acredito nisso pessoal e profissionalmente. Mas, em se tratando de uma criança de quase 3 anos, como o Caio, creio que a vivência cotidiana, as práticas familiares e escolares são os principais elementos: não há como racionalizar ou verbalizar demais o assunto nessa idade. 

Caio convive com crianças e adultos diferentes dele e de nós desde sempre. Temos parentes e amigos índios, negros, descendentes de japoneses, loiros, de olhos azuis, verdes, castanhos, pretos, deficientes físicos. Em sua escolinha, há muitos filhos de imigrantes, em especial latinoamericanos e africanos. A avó de Dani é índia, e ele tem traços inconfundíveis dessa herança.

Recentemente, Caio começou a perceber certas diferenças entre as pessoas, de uma forma bem natural: começou pela cor dos olhos, percebendo que as tias (minhas irmãs) tinham olhos de cor diferente da do dele ou do meu. Falou nisso por muito tempo, sempre perguntando para reafirmar a diferença. Depois veio a percepção das diferentes cores de pele, mas ainda de forma sutil, através de um momento de pintura com lápis de cor em casa, e depois a constatação de que seu boneco preferido (o João, primo do Júlio, do Cocoricó) tinha uma cor diferente da dele.  Ele também já havia detectado a diferença física em um amigo nosso que tem uma deficiência em um dos braços, e em alguns livros em braile que minha irmã (ela trabalha na Fundação Dorina Nowill) deu pra ele e que tratam lindamente de temas como diversidade e diferença junto às crianças.

O interessante é notar como, para ele, o estranhamento da diferença não é acompanhado de juízo de valor: ele já tinha convivido com inúmeros negros quando se deu conta dessa diferença, brincando com cores e bonecos. Ele tem uma grande amiguinha e uma tia que são japonesas perfeitas (embora sejam já de uma segunda ou terceira geração de mestiçagem), mas essa diferença ainda não lhe chamou a atenção. Mas, ao perceber a diferença, seja da cor dos olhos, da cor da pele ou da deficiência física, ele expressou seu estranhamento, e eu procurei não reprimir, ou condenar. Deixei-o expressar essa estranheza, e tentei ajudá-lo a entender, apreender a novidade de percepção. E aí aquela descoberta passou a fazer parte do seu universo lúdico, e não causa mais estranhamento. Principalmente se, ao seu redor, elas estiverem de fato presentes, seja em brinquedos, livros, filmes e, principalmente, nas pessoas de seu convívio cotidiano.

Porque se a criança não convive com negros, para citar um exemplo, o estranhamento vai ser maior, certamente. Lembro que, há um tempo atrás, uma amiga comentou comigo que estava pensando em fazer algum trabalho social, para que as crianças dela convivessem mais com negros, pois estavam tendo um grande estranhamento cada vez que encontravam com um. Aquilo me cutucou: é fato que em nosso meio, de classe média, convivemos  com poucos negros, e a reação das crianças foi um escancaramento disso para aquela família.

Mas, aqui em casa isso é diferente, em especial por conta do meu marido. Embora eu sempre tenha convivido e tido amigos de diversas etnias e nacionalidades, posso contar nos dedos aqueles com os quais convivi em profundidade. Na infância, então, tive apenas uma única amiga negra. Nunca tive um amigo de origem indígena e, mesmo meu marido sendo descendente de índios, pouco conhecemos das suas raízes.

Dani, entretanto, se interessa pela cultura africana ou de matriz africana desde a adolescência, quando passou a praticar capoeira. Hoje, além de arquiteto e militante da cultura digital, ele é também professor de capoeira angola, praticante e produtor de cultura popular. Está envolvido em diversos projetos focados em educação para a diversidade, ligados à lei 10.639. Em nossa casa, desde sempre, temos tambores, berimbaus, imagens de capoeiristas negros, discos de samba, livros sobre escravidão e práticas culturais de origem africana, etc etc etc. Práticas e apresentações de capoeira, samba, jongo, coco, cacuriá, congada, maracatu são presentes na vida de Caio desde muito cedo e, por conta disso tudo, ele está crescendo em meio a referências culturais que carregam em si a diversidade, a diferença, o questionamento do preconceito, a luta por afirmação, coisa que nem eu, nem Dani tivemos em nossa infância (só para ter uma ideia, minha avó ficou horrorizada porque em minha festa de casamento tinham 2 negros... isso me entristece, mas é inevitável constatar que esse racismo está, de alguma forma, na pré-história de minha criação - mesmo que meus pais tenham me criado de forma bem diferente, eles foram criados sob essa perspectiva preconceituosa e discriminatória, e admiti-la, ainda que doa, é o primeiro passo para transformá-la, penso eu). 

Além disso, a escolinha dele também incorporou as diretrizes da Lei 10639 e, entre outras coisas, os alunos praticam capoeira na escola, o que claramente tem despertado o interesse do Caio pela cultura negra (africana, afro-brasileira, afrodescentente.... são tantas variáveis...), e, talvez por isso, aquela manifestação de ontem sobre ter a cor preta...

Enfim, eu poderia escrever muito ainda sobre o assunto, sei que não cheguei à conclusão nenhuma, mas o que vejo da nossa prática cotidiana e o que, de forma meio espontânea - já que nunca paramos efetivamente pra conversar: como vamos construir uma infância sem racismo para nossos filhos? - acredito de verdade que já estamos nesse caminho, e me alegro em poder dizer isso, pois vejo também em mim a tranformação.

[Esse post faz parte da Blogagem Coletiva iniciada a partir da Campanha da Unicef Por uma Infância sem Racismo]


domingo, 30 de janeiro de 2011

DESFRALDE DO CAIO (direto do túnel do tempo)


Esses dias tenho lido vários posts de mães que estão desfraldando meninos (e meninas também - a Carol fez uma divertida compliação aqui). Estive meio sem tempo de comentar, mas queria tentar ajudar contando a experiência do Caio, porque na época foi fundamental ler sobre as experiências de outras mães. Então, como eu não tinha feito nenhum post sobre isso aqui no blog (e tinha dois começados no rascunho), resolvi tentar recuperar esse processo (com a ajuda do super papai, porque não registrei direito e não me recordava de tudo), para trocar experiências com vocês (e também pra me ajudar quando chegar a hora do próximo, rá!).

Caio tem 2 anos e 9 meses, e desfraldou completamente de dia em abril do ano passado (logo que completou 2 anos), e de noite uns seis meses depois, se não me engano. Devo dizer que foi um processo bem particular (e todos são, né não?), e que não pretendo dar "dicas" ou dizer que o que funcionou pra ele funciona pra qualquer um. A idéia é mesmo registrar e compartilhar nossa experiência.

Vamos aos fatos (quem já me conhece sabe que, quando pego pra escrever, a coisa sai looonga... quem se interessar pelo post, please, paciência comigo! Respira fundo e vai):

# o início do processo:

Caio começou a dar alguns dos famosos "sinais" de que estaria perto do desfralde já por volta de novembro de 2009, quando tinha 1 ano e 7 meses, mais ou menos. Começamos a perceber que a fralda já estava incomodando, ele começou a avisar depois que fazia xixi e cocô, e começou a se isolar quando ia fazer o número 2.

Conversamos com a pediatra, e ela nos tranquilizou MUITO: disse que cada criança tinha um tempo, e que entre 18 e 48 meses é o período considerado "normal" para uma criança desfraldar (existem alguns estudos que indicam o limite de 36 meses). Ou seja, tínhamos muuuuito tempo, não era preciso pressa. Boa notícia.

Outra coisa que eu achei bem legal da parte dela, e que foi MUITO ÚTIL no desfralde do Caio, foi desmistificar aquela idéia bastante difundida de que "uma vez começado o desfralde, os pais não deveriam retroceder". Ela nos disse que a criança dessa idade passa por muitos altos e baixos, saltos de desenvolvimento e fases de retrocesso, e que o desfralde deveria acompanhar esses momentos: sentiu que dá pra avançar, avança; a criança resistiu ao processo, retrocedeu em relação ao que já tinha conquistado, NÃO TENHA MEDO DE VOLTAR ATRÁS. Foi bem aliviador não ter essa pressão.

Ela sugeriu que começássemos a deixar ele mais peladinho em casa, para ir tendo mais contato com o próprio corpo e com o xixi, e indicou que comprássemos um peniquinho pra ele ir se familiarizando com o "objeto estranho". E, nesse ponto, foi categórica: na opinião dela, os pequenos (meninas e meninos) devem ser introduzidos ao penico mesmo, SENTADOS, para garantir o apoio dos pés, que era muito importante no processo de controle da evacuação. Se a opção fosse pela privada, ela indicou que arrumássemos algo para fazer esse apoio, principalmente quando chegasse a hora do cocô.

Munidos de toda essa "segurança", resolvemos dar os primeiros passos, bem devagar, em direção ao desfralde. Compramos um peniquinho colorido, explicamos pra ele o que era aquilo, pra que servia, que era dele e coisa e tal. O penico passou a ficar ao lado da nossa privada no banheiro, sempre à vista, mesmo que ainda não fosse utilizado: no começo, era apenas uma brincadeira sentar no penico quando o papai ou a mamãe estavam lá. De todo modo, já era um começo, e ajudava bastante ele ter um amiguinho mais velho que já estava usando o peniquinho.

Aproveitamos as férias de dezembro pra deixar ele bem à vontade em casa, procurando ao máximo ficar no quintal (não preciso nem falar porquê, né?), perguntando sempre se ele queria fazer xixi, o estimulando a nos avisar quando estivesse com vontade de fazer xixi/cocô, sem muita crise se rolasse um xixi em cada cômodo da casa (nesse momento eu só procurava evitar deixar ele sem fralda no sofá ou na cama, porque era certeza que seria "carimbado"). NUNCA DEMOS BRONCA SE FIZESSE XIXI OU COCÔ PELA CASA, apenas reforçávamos que ali não era o lugar, que agora ele tinha o peniquinho dele e tals.

Mesmo a gente perguntando e estimulando, inicialmente ele NÃO FAZIA XIXI NO PENICO: até sentava de vez em quando, mas não fazia ali. E, na maioria das vezes, avisava quando já tinha feito, ou enquanto produzia "a obra". Mas a gente sempre levava ele ao banheiro pra limpar depois que fazia pelas pernas em algum lugar da casa, e passamos a chamá-lo também para jogar o cocô na privada e "falar tchau" e, aos poucos, ele foi associando o xixi e o cocô ao banheiro, a ponto de várias vezes fazer dentro do box, por exemplo. E, sem medo de ser feliz, a gente também levava o penico pra tudo quanto é canto da casa, pra tentar estimular: quer fazer xixi vendo o Júlio? quer fazer xixi no quintal? quer fazer xixi no escritório? E lá ia o penico pela casa afora. Mas, ainda assim, não rolava.

Nessa época apelei para golpes baixos truques interessantes que tinha visto blogs afora ou com outras amigas, como oferecer adesivos pra cada xixi/cocô no trono, levar uns livrinhos pra ler no banheiro, recortar figuras e colocar no fundo do penico pra estimular (tipo colocar uma imagem de uma flor e falar: "vamos regar a florzinha", ou "vamos dar banho no elefantinho", e por aí afora), MAS NADA FUNCIONOU. A família resolveu apoiar nossa causa e, no Natal, de surpresa, Caio ganhou da vovó paterna um super penico, que tocava música, virava redutor de assento e até banquinho de apoio. No início, pensamos até em trocar o presente, pois já tínhamos um penico e achamos que era um pouco "over" demais. Depois, o super penico nos ganhou, pois percebemos que ele seria 1001 utilidades. Mas nem esse truque funcionou de primeira, Caio curtia saber que o penico tocava musiquinha, mas nem pensar em fazê-la tocar com seu xixi ou cocô.

Ok, ok, tínhamos janeiro todo pela frente, nada de desanimar. Afinal, tinha sido apenas o primeiro mês.

# as primeiras conquistas:

Em janeiro, as coisas começaram a melhorar. Os dois posts que comecei e deixei no rascunho são desse período, em que ele começou a se orgulhar dos xixis e cocôs que fazia (na fralda, na cueca, no chão do banheiro ou do box, em geral...), passou a ter cada vez mais vontade de ficar sem fralda, nos pedindo para tirá-las, e descobriu maravilhado que o xixi saía pela frente e o cocô pelo bumbum. Começou a ter algum controle do momento de fazer xixi, e começamos brincadeiras como "regar a plantinha no quintal" e coisas assim. Não dá pra negar que eram avanços. Mas, até então, continuava a recusa em usar os penicos, apesar do orgulho que ele tinha dos ditos cujos, que viraram meio que "brinquedinhos".

Eis que, na segunda semana de janeiro, ele vai passar suas primeiras "mini-férias" na casa da vovó materna, e o penico mais mequetrefe vai junto, em definitivo. E não é que o danado resolve fazer O PRIMEIRO XIXI NO PENICO LONGE DE MIM!!! Rá! Paciência de vó não têm preço, e dá resultado. Uns quatro dias depois, já em casa, fez o primeiro xixi no penico comigo (esse eu registrei no rascunho do blog, exatamente no dia 11/01/2010). Quase morri de emoção, mãe é bicho besta, né!

E durante todo o mês de janeiro fomos deixando a coisa rolar, naquele esquema pra-cada-xixi-no-penico-vários-no-chão. Mas o penico passou a ter sua utilidade, e o fato de tocar musiquinha ao final da obra funcionou bem. Mas, ainda assim não fomos rígidos: em casa ficava sem fralda, íamos sair de carro, viajar, ir a um restaurante, fralda nele.

Nessa época minha sogra e minha mãe vieram passar alguns dias em casa para que pudéssemos trabalhar, e mantiveram o mesmo ritmo vai-não-vai do desfralde. Mas, no tempo dele, ele começou a conseguir avisar algumas vezes antes de fazer as obras, o penico começou a ter seu uso, e começamos a economizar algumas fraldas, thanks god.

Mas eis que janeiro acabou, e Caio iniciaria numa nova escolinha - provisória, até sair a vaga dele na creche da faculdade. E eu sabia que essa mudança toda não combinava com desfralde... Mas fui na fé dos conselhos da pediatra, e funcionou.

# avanços, retrocessos e os finalmentes

Na nova escolinha, a indicação foi esperar um pouco para mandar ele sem fralda, já que seria todo um processo de adaptação, que não combinava muito com desfralde. Assim, ele ia de fralda pra escola, e logo que chegava em casa tirávamos. Eu realmente ignorei a também famosa regrinha "se tirou em casa, tem que tirar na escola também, pra não confundir": expliquei pra ele a situação, e fomos levando assim, até sentirmos, junto com as professoras, que daria pra tentar deixar ele um pouco sem fralda na escola também. E assim foi. Lá, ele ficava bastante no parquinho, e tinha um banheiro acoplado à sala de aula, o que facilitou as coisas. Mas não foi uma coisa super disciplinada, a gente sentia o clima em casa e elas toparam fazer o mesmo na escola. Se não rolava muito bem, fralda nele.

Aqui, cabe um parênteses: Caio, desde que foi introduzido ao maravilhoso mundo dos alimentos, nunca foi um exímio produtor de cocô. Isso, de certa forma, facilitou um pouco o processo. Inclusive porque, como ele foi ficando incomodado com a fralda, começamos a perceber que ele fazia mais cocô quando estava sem a dita, o que foi um estímulo a mais no processo, um indicativo de que estávamos no caminho certo.

Nesse momento, finalmente o penico musical passou a fazer muito sucesso, pra compensar o alto investimento da vovó!!

Tudo muito bom, tudo muito bem, desfralde gradativo funcionando (sou adepta dos processos "gradativos", como foi também o desmame) mas aí tivemos mudança de casa e nova mudança de escola no início de abril (quando consegui a vaga na escolinha da universidade): e o desfralde no meio disso tudo?

A nova escolinha tinha algumas regras e teorias para o desfralde, com foco em uma proposta de desfralde mais coletivo - só que, como ele entrou numa turma mais nova que ele, isso só começaroa no segundo semestre... Fiquei um pouco agoniada, falei com a diretora que não daria pra esperar até lá, e ela se demonstrou bem aberta ao diálogo, mas combinamos que inicialmente o Caio iria de fralda para lá, até que ele se acostumasse ao novo ambiente, às novas professoras e elas a ele. Assim, de certa forma RETROCEDEMOS, já que Caio já estava passando a maior parte do tempo sem fralda, e voltou a ficar quase dois períodos do dia de fralda, ficando sem ela apenas no relativamente pouco tempo que passava em casa durante a semana, e full time nos finais de semana.

Minha estratégia foi conversar muuuuito com o filhote, explicar tudinho que estava acontecendo, valorizar bastante o período que ele ficava em casa sem fraldas, e incentivá-lo a avisar quando estivesse com vontade de fazer xixi ou cocô, mesmo que estivesse de fralda na escola.

Levamos um tempo assim até que, na primeira oportunidade, em um feriado prolongado, RESOLVEMOS DESFRALDAR DE VEZ, arriscando deixar todo o tempo sem fraldas, não importava onde estivéssemos e o que fôssemos fazer. Foi sucesso total, o moleque já estava mais que pronto (já estava quase caindo de maduro) e resolvi conversar na escolinha.

No primeiro dia útil pós-desfralde-instituído, levei Caio para a escola ainda de fralda, e fui conversar novamente com a diretora e com uma das professoras: disse como o processo vinha acontecendo, contei toda essa história de forma resumidinha, disse que no feriado ele tinha desfraldado completamente e que eu gostaria que ele ficasse sem fraldas na escola também. Apesar delas desconfiarem um pouco que aquilo daria certo, conversamos bastante e, como uma das "regrinhas" era "uma vez desfraldado, sempre desfraldado" e "tem que ser o mesmo processo em casa e na escola", a partir de agora ele ficaria sem fraldas lá também: e eu deveria enviar 9 MUDAS DE ROUPAS POR DIA (tive que correr pra uma loja, rá!). Caio nunca usou nem 3 lá, pois o desfralde tinha sido realmente um processo: tudo ocorreu às mil maravilhas, as educadoras foram super bacanas e, no fim da história, na escola, Caio virou o "desfralde mais rápido do oeste". Rá!

Desfraldando também na escola, ele parou de fazer a soneca da tarde de fralda lá, e eu tirei em casa também. Foi a última fralda do dia a sair. E foi o começo do estímulo pro desfralde noturno, mas isso já é uma outra história, que ninguém me aguenta mais, né? Vale dizer apenas que, mesmo desfraldado e usando o peniquinho super bem, vários xixis ainda escaparam perna afora, sem maiores traumas.

Espero que nossa experiência ajude vocês de alguma forma... e força na peruca pra quem está nessa fase!!!