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terça-feira, 19 de junho de 2012

EU PARI EM CASA: COM CONSCIÊNCIA E MUITA SEGURANÇA

Já está mais que difundida na net a mais nova (e grave) polêmica referente ao parto domiciliar, desencadeada a partir da reportagem no Fantástico e da absurda denúncia feita pelo CREMERJ contra o obstetra Jorge Kuhn. Mas não posso deixar de registrar aqui minha indignação e, também, reforçar minha opinião e minha experiência.

Como quem acompanha este blog sabe, tive dois partos domiciliares: ao primeiro, posso dizer que cheguei quase que por falta de escolha - as "opções" oferecidas então, onde vivo, pela medicina, eram um parto cheio de intervenções (e olhe lá) ou uma cesária, e ponto. Digo isso pois, na época, se houvesse a possibilidade de parir da forma como eu desejava em um hospital, talvez essa tivesse sido a nossa escolha, talvez eu nem descobrisse o parto domiciliar... Nunca saberei. Ao segundo, porque, depois de experimentar (toda a beleza e intensidade de) um parto domiciliar, apenas um risco verdadeiro - ou algum sentimento insondável e inconsciente - me levaria a parir em outro lugar. Mas isso não aconteceu, e meus dois filhos nasceram em casa, cercados não apenas de amor, aconchego e familiaridade mas, também, de muita segurança.

Porque, ao contrário do que muita gente pensa (e é nisso em que o CREMERJ se apoia, lastimavelmente), o parto domiciliar não é nenhuma aventura inconsequente, muito pelo contrário: o casal, ao invés de delegar a terceiros tudo o que diria respeito ao nascimento de seus filhos, tem de se informar, tem de buscar profissionais capacitados, tem de guardar dinheiro, tem de preparar todo o necessário para que o bebê seja recebido com todo o cuidado e segurança que merece (e, ainda que não sejam necessárias grandes adaptações à vida cotidiana de um lar, há que se pensar em coisas práticas como lençóis, toalhas, aquecimento, comidinhas, etc), para falar apenas de alguns aspectos mais "logísticos" que envolvem os preparativos concretos sob responsabilidade dos pais. E os profissionais que dão assistência ao parto domiciliar, além de serem extremamente capacitados em suas áreas (parteiras, doulas, médicas e médicos), são equipados com todo o necessário para acompanhar o trabalho de parto, avaliar continuamente seu andamento, monitorar as condições (físicas e, também emocionais - aí uma grande diferença) da gestante, do casal, do bebê e têm, de acordo com sua formação, com o histórico de acompanhamento das gestações e com as condicionantes dos locais onde atendem, seus limites de segurança, a partir dos quais as técnicas e tecnologias médico-hospitalares poderão se fazer necessárias. 

foto tirada por meu marido, após o parto do Nuno, para mostrar para o pai dele, que é médico...
(o equipamento não foi usado, mas estava lá)

Enfim, não é coisa de "bicho grilo" ou de pessoas "alternativas": é uma escolha extremamente consciente feita antes de mais nada pela mulher, preferencialmente em diálogo com seu companheiro e envolve decisões e balanços por vezes muito difíceis, doloridos até (como no meu caso, no primeiro parto, a decisão de não contar para as pessoas mais queridas que teríamos nosso filho em casa), justamente em função dos mitos e inverdades que cercam o tema do parto domiciliar no senso comum.

Nesse ponto, uma pausa pra indicar um dos posts mais explicativos e esclarecedores que já li sobre o tema, um "informe técnico" produzido pela querida Lia, que trata justamente de desmistificar o parto domiciliar, permitindo às pessoas se informarem sobre o assunto (lembrando que informação de qualidade é essencial para uma escolha efetivamente consciente). Recomendo também os artigos desmistificadores e cientificamente embasados da Dra Melania Amorim, disponíveis em diversos locais na net, mas alguns bem didáticos estão aqui e aqui.

Mas, como "técnico" é o termo que menos define um parto domiciliar, há muitos (muitos!!) outros fatores ligados à escolha do lar como local de parto, e aí sim, acima de tudo, trata-se de uma escolha: eu tenho amigas que desejam fortemente um parto natural, humanizado e digno, mas não gostariam de parir em casa, muitas vezes pelo simples motivo de que não se sentiriam confortáveis com a situação. Simples assim, como deveria ser se efetivamente houvesse o direito dessa escolha. 

Só que, infelizmente, o que deveria ser um direito continua sendo tratado como privilégio de algumas, como eu. E é a naturalização dessa falta de escolha, em meio à sociedade, que forma o solo sobre o qual posturas autoritárias como a do CREMERJ podem brotar. Mas, felizmente, existem muitas mulheres nadando contra essa corrente, e essa arbitrariedade acabou tendo o papel de "gota d´água": foi empolgante acompanhar, mesmo que tardiamente (já que estou meio "desconectada") a ágil mobilização de mães e mulheres de todo o Brasil, que culminou na que foi denominada "Marcha do Parto em Casa". A Marcha ganhou esse nome a partir do contexto que originou a mobilização, mas o que estava em jogo nas manifestações é muito mais do que o nome pode expressar: é o direito à escolha consciente, o que pressupõe informação (como bem disse a gravidíssima Dani: liberdade de escolha consciente e cientificamente fundamentada) e, acima de tudo, a viabilização concreta dessa escolha, que pressupõe uma transformação radical em termos de saúde pública, em última instância.

Bom, eu tô desconectada, mas não podia deixar de me manifestar aqui no meu espaço. Tô com pouco tempo pra grandes elaborações, mas fica registrada minha opinião e minha presença na Marcha aqui em São  Carlos, organizada por grupos e pessoas que vêm mudando a realidade dessa escolha por aqui:





Nós fomos! 
Fotos da Marcha em São Carlos, por João Moura
(extraídas do portal K3)

Recomendo, pra quem quiser saber mais sobre a Marcha, os dois belos posts da Ligia Sena, a Cientista que virou Mãe  e um post com alguns dados gerais sobre a Marcha e sua repercussão no país, no blog interiorano Mater - maternidade responsável e consciente. E ainda o belo vídeo, postado pela CáEntreNós produções:


E, para apoiar ainda mais a causa: PETIÇÃO PÚBLICA POR UM DEBATE CIENTIFICAMENTE FUNDAMENTADO SOBRE LOCAL DE PARTO - assine!!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RELATO DO PARTO DE CAIO - PARTE 3

[continuando...]

As vésperas

Passei a 38ª semana praticamente toda na rua, dirigindo pra lá e pra cá, andando pra baixo e pra cima atrás de tudo que faltava para completar enxoval, quartinho e cia. Na sexta feira (dia 04/04), estava no trânsito quando senti umas contrações um pouco mais doloridas, mas nada que me chamasse muito a atenção (afinal, eu já vinha sentindo contrações há pelo menos umas 3 ou 4 semanas e, desde o descolamento de membranas, elas eram levemente doloridinhas). Ao longo desse dia tive mais algumas pontadas dessas, mas nem tchuns.

Minha irmã e meu cunhado tinham acabado de voltar de uma viagem para Índia, e estariam em Araraquara no sábado (05/04), para encontrar todos e mostrar as fotos. Eu queria muito ir, mas Dani estava fazendo o maior terrorismo, dizendo que eu não deveria ir, pois, caso eu entrasse em TP, o fato de estar lá melaria nossos planos. Ele inclusive decidiu que não ia de jeito nenhum, pra ver se me fazia mudar de ideia.

Fiquei triste e puta com essa atitude dele, e resolvi ligar para a Vânia antes de decidir o que fazer. Lembro perfeitamente do que ela disse: “Seu parto pode demorar ainda até mais quatro semanas. Prepare-se para isso, pois se você ficar achando que o bebê pode nascer a qualquer momento, você vai ficar muito ansiosa. Vai tranquila!” Na hora liguei para o meu pai e ele topou vir me buscar e me trazer de volta à noite. Na viagem de ida, senti umas contrações bem fortinhas, mas fiquei na minha. Chegando na casa dos meus pais, mais uma contração e fui direto pro banheiro, levar um papo com o bebê: “filhote, pelo amor de Deus, não vai resolver nascer hoje, espera a mamãe voltar pra São Carlos!” Rá!

Parece que ele me ouviu, e o resto do tempo fiquei super bem, sem contrações. Pude curtir a festinha, conversar com pessoas queridas, curtir minhas irmãs, ver as fotos. Uma grande amiga da família, Tia Sandra, me disse algo que nunca esqueci: “Thaís, você vai saber quando chegar o dia, a gente acorda se sentindo tão estranha...”

Na volta para casa, mais algumas contrações daquelas. Mas cheguei em casa sã e salva, e fui direto dormir.            

A chegada - a experiência mais incrível de nossas vidas

No domingo, dia 06 de abril, eu acordei me sentindo estranha... Mas faltavam ainda dez dias para a data prevista para o parto, então nem associei aquilo com o que tinha ouvido da Tia Sandra no dia anterior. Achei que era mais um dos “surtos” emotivos que tive ao longo de toda a gravidez, e não dei muita bola. Na verdade, eu estava com “faniquito” de arrumação, comecei a arrumar a casa inteira, que estava uma zona, resolvi lavar TODAS as roupinhas do Caio de uma vez, e enquanto eu fazia tudo isso, resmungava para o Dani que a nossa casa estava um horror, que dizem que um bebê só vem ao mundo quando o ninho está pronto, e o nosso ninho estava uma bagunça, que o Caio poderia nascer a qualquer momento, e olha só como ia estar a casa, imagina se ele resolvesse nascer hoje, não ia ter condição nenhuma, e bláblábláblá....... E, além de arrumar e reclamar, eu também chorava entre uma coisa e outra!

O Dani não acreditava, ele não estava entendendo nada: no início, tentou me acalmar, aos poucos foi perdendo a paciência e, de repente, explodiu: “mas o que tá acontecendo com você, tá parecendo uma criancinha, não tô te entendendo!” E eu chorava mais ainda, e dizia pra ele que alguns psicólogos diziam que as mulheres se infantilizam no final da gravidez, como uma reação ao medo da transformação em mães, e bláblábláblá..... e mais chororô. Uma coisa.

No fim desse louco dia, minha irmã (a que tinha voltado da Índia) passou aqui na volta de Araraquara para São Paulo, para ver o quartinho do bebê e conversar mais conosco, já que no dia anterior quase não tínhamos conversado. Aí resolvi contar para ela nossa decisão pelo parto domiciliar, senti que ela me apoiaria, e eu precisava muito falar sobre isso com alguém de confiança, foi muito difícil guardar essa decisão só para nós. Ela disse que queria participar do parto, que poderia fotografar, que a gente avisasse ela quando sentíssemos que seria o dia que ela viria de São Paulo para cá. Ficamos de conversar (pois não queríamos muita gente em casa no dia do parto, e já tínhamos conversado sobre a possibilidade da Rosa, prima do Dani, que estava fazendo curso de doula, acompanhar e registrar o parto). Umas 19:30hs ela foi embora, tive mais uma explosão de choro, eu e Dani conversamos profundamente, eu me acalmei e resolvemos fazer nosso plano de parto.

Estávamos sentados no chão da sala, lendo vários planos de parto e identificando aqueles que poderiam nos auxiliar a escrever o nosso, quando comecei a sentir umas contrações diferentes. Eram umas 21:30hs. Naquela intensidade que havia sido o meu dia, eu não havia sentido nenhuma contração. Mas agora que eu tinha parado, relaxado, elas vinham, e vinham fortes, mais fortes que todas que eu já tinha sentido até ali. E vinham com mais frequência, mais perto umas das outras... Nos olhamos, apreensivos e com um sorriso nervoso, mas sem afobação, e decidimos marcar o intervalo das contrações. Eu falava e Dani marcava. Os intervalos não eram muito regulares, o que nos tranquilizou um pouco: ora vinham de 15 em 15, de 7 em 7, de 10 em 10... Ficamos mais um pouco lendo os relatos, mas logo caímos na real: talvez o parto acontecesse logo, não ia adiantar nada fazer um plano de parto àquela altura!!

Dani sugeriu que fôssemos descansar, porque se o trabalho de parto engrenasse, o dia seguinte poderia ser longo (imaginávamos um trabalho de parto de, no mínimo, 12 horas, de acordo com os relatos e experiências que conhecíamos). Ele foi deitar por volta de umas 23hs e eu fiquei na sala lendo, estava meio ansiosa, não ia conseguir dormir... Estava lendo justamente o livro “Nascer Sorrindo”, do Leboyer, e as contrações começaram a ficar mais próximas... Resolvi deitar e descansar, Dani estava certo, eu precisava estar bem disposta caso o parto realmente fosse acontecer no dia seguinte. Me troquei, deitei na cama, de lado, não conseguia ficar, de costas, também não... resolvi ler mais um pouco, na cama mesmo.

As contrações foram se intensificando, comecei a marcar o tempo silenciosamente, pra não acordar o Dani, e percebi que elas já estavam regulares, de 7 em 7 minutos... “Dani, você tá acordado? Eu tô  achando que vai ser hoje mesmo, as contrações estão mais regulares...” E, ele: “então apaga a luz, vamos descansar, deita aqui”... Obedeci e, na primeira virada que dei para me ajeitar na cama, veio uma contração bem intensa, senti um movimento bem forte do bebê, e uma água escorreu nas minhas pernas: “Dani, acho que a bolsa estourou, agora não tem mais volta!” Eram 00:30hs. Rimos, eu me levantei e fui ao banheiro, pingando líquido amniótico pela casa inteira! Lá ainda escorreu mais um pouco de líquido, me limpei, me troquei e decidimos ligar para a doula, Vânia.

Ela atendeu super rápido, parecia que estava esperando nossa ligação. Não tínhamos certeza se já era hora dela vir, mas depois de fazer umas perguntas, ela mesma concluiu que era hora de vir, me lembro exatamente de suas palavras: “se vocês estão tranquilos, daqui uns 40 min no máximo estou aí. E vamos trabalhar!”

Depois disso, minha lembrança é toda feita de flashes, não tenho muita noção do tempo que as coisas levaram para acontecer, nem da sequência exata entre elas... Vou relatar conforme as coisas me vêm à lembrança, e espero contar com a ajuda do maridão para completar esse relato...

Lembro que troquei de roupa umas duas vezes antes da Vânia chegar, por conta do líquido amniótico que não parava de escorrer, e também porque queria encontrar uma roupa na qual me sentisse confortável, e estava um pouco frio. Fiquei andando pela casa, me movimentando, sem pensar em nada, apenas procurando encontrar posições nas quais eu me sentisse confortável. Sentei na bola (que a Vânia já tinha me emprestado há algum tempo), e fiquei rebolando bastante, tentei realizar algumas posições da yoga, mas somente a posição do gato (apoiada de quatro no chão, movimentando o quadril em vários sentidos) me aliviava um pouco: a coisa começava a ficar poderosa, já não havia muito mais o que fazer para amenizar as fortes contrações que ficavam cada vez mais próximas.

A Vânia chegou mais ou menos nessa fase, eu estava na sala, sentada na bola, conversamos um pouco sobre como eu estava, e logo mais uma forte contração na qual saiu grande quantidade de líquido amniótico. Fui novamente me trocar, Dani ficou limpando a sala, e Vânia foi “se instalando” na casa, trouxe um cd bem bacana de músicas instrumentais (que depois eu vim saber que tinham como tema a “Água”) que colocamos para tocar no escritório, começou a me fazer umas massagens na lombar... 

contração
a única foto do início da  fase ativa do TP...
Lembrei da máquina fotográfica, Dani tirou uma foto e a bateria acabou: não acreditei! Essa era apenas mais uma das coisas que estavam despreparadas, já que não tínhamos imaginado que nosso meninão resolveria nascer mais de uma semana antes da data prevista... a máquina descarregada, quase não tínhamos comida em casa (eu ia fazer supermercado no dia seguinte, tinha planejado que queria canja e sorvete para o dia do parto! Acabou ficando para o dia seguinte!), as roupinhas do bebê TODAS molhadas... Mas fomos nos virando: botamos a máquina para carregar, Dani me preparou um chá com torradas e mel para me dar mais energia. Tentei comer entre as contrações, mas as ondas ficavam cada vez mais fortes, e eu mal conseguia mastigar.

Enquanto eu tentava comer, decidimos, com Vânia, que já era hora de ligar para a Jamile. Eu andava pela cozinha, Dani me apoiava e massageava durante as contrações e Vânia ligava para ela. Primeira tentativa, no celular, ninguém atendeu. Nova tentativa no celular, e nada. Decidimos tentar na casa, pois era de madrugada, o celular poderia estar desligado... Nada. Comecei a ficar um pouco aflita, pois as contrações apertavam, mas elas me absorviam tanto, e Vânia me passou tanta segurança, que abstrai. Deixei nas mãos dela e do Dani essa preocupação, e continuei me movimentando pela casa, andando e rebolando nos intervalos, e parando, me apoiando, e por vezes me acocorando durante as contrações. Enfim, depois de uma idéia de gênio da Vânia, conseguimos nos comunicar com Jamile: a Vânia ligou na maternidade cheia de lábia para tentar conseguir o número do celular do marido da Jamile, que é médico, e as atendentes não deram, é claro. Mas pouco depois o telefone de casa tocou, elas tinham ligado para ele e Jamile logo imaginou que éramos nós: ufa, senti um alívio incrível ao saber que Jamile estava a caminho, as contrações já estavam bastante incômodas, e eu queria entrar na água... Não daria tempo da Jamile montar a banheira, mas para mim, naquele momento, o chuveiro estava ótimo!!!

Perguntei para a Vânia se já podia entrar (porque sabia que, entrando na água no momento errado, o TP poderia estacionar) e ela liberou. Lembro também de ter perguntado se ela achava que até a hora do almoço o bebê já teria nascido, e ela disse, confiante: Antes de nascer o dia já vai ter bebê nessa casa! Eu e Dani nos olhamos estarrecidos e felizes, animados com a possibilidade de logo ter nosso bebê nos braços. Foi um estímulo e tanto, dado na hora certa, e totalmente verdadeiro! Por essas e outras a doula foi tão tão tão importante no nosso parto.

Que delícia foi entrar no chuveiro, pedi para o Dani entrar comigo, ele e Vânia prepararam tudo no banheiro, levaram o som, reduziram as luzes, trouxeram a bola, e ele ficou comigo dentro do box, me dando todo o apoio físico e emocional que eu tanto precisava. Relaxei muito no chuveiro, com o apoio do Dani e as massagens da Vânia, embora as contrações só aumentassem de intensidade e reduzissem os intervalos... Mas era exatamente como eu tinha lido em tantos relatos, a natureza é tão sábia que os intervalos tinham a função perfeita de me reestabelecer e me relaxar para a próxima contração, que vinha sempre mais forte que a anterior... Eu relaxava muito, muito mesmo entre uma contração e outra. (Na realidade, intuitivamente acho que eu sabia que teria meu filho debaixo do chuveiro: durante toda a gravidez foi o lugar onde eu mais conseguia relaxar, onde eu mais conversava com o “meninão” - como eu costumava chamar o Caio, já que ele não tinha nome ainda... -, onde mais eu me conectava comigo mesma e com ele, onde mais eu ficava projetando como seria o momento do parto...)

mãos de fada
água e massagem da doula, substitutos da anestesia
A partir de agora, me lembro menos ainda, eu já estava pra lá de Bagdá, acho que estava na Partolândia, como costumavam brincar nas listas de discussão... A Jamile chegou, acho que a Vânia que a recebeu, me lembro dela ter conversado comigo do seu jeito sempre doce, perguntou como eu estava me sentindo, e já foi preparando tudo no banheiro para iniciar sua atuação, e colocou a banqueta de cócoras dentro do box para o caso de eu querer usá-la. Ela logo auscultou o bebê, lembro que nessa hora fiquei um pouco tensa, pois ela ficou um tempo auscultando sem comentar nada, mas estava tudo ótimo. Ela também achou necessário fazer um exame de toque, para sabermos como estava evoluindo a dilatação, e, delicadamente, perguntou se eu me incomodaria de irmos até o quarto, para que ela pudesse me examinar deitada... Mas eu não podia nem pensar em sair do banheiro, muito menos em deitar, e ela, perfeita no seu papel de me apoiar e evitar me incomodar ao máximo, se desdobrou para fazer o toque comigo sentada na banqueta de cócoras (foi o único, em todo o TP). Ela não precisou a dilatação, apenas disse que estava bem perto, que ela havia tocado a cabeça do bebê.

Depois disso, ela manteve-se absolutamente discreta, fazendo seu trabalho nos bastidores: preparando tudo para receber nosso filhote no banheiro, percebendo que todas as roupinhas e touquinhas do caio estavam molhadas e se organizando com a Vânia para secá-las com o ferro, preparando o quarto para nos receber após o parto... A Vânia se dividia entre ajudá-la, me massagear, trazer comida e, sem eu nem perceber, tirar fotos e filmar ao menos a reta final do parto, quando a bateria da máquina já tinha carregado um pouco (se não fosse ela não teríamos nenhuma imagem desse dia tão especial!). Enquanto isso, as contrações vinham como ondas que me inundavam, que me tiravam de órbita, e em seguida um relaxamento absoluto. Lembro de ter me focado muito na minha respiração, como tinha aprendido ao longo das práticas de yoga, o que me ajudou muito a suportar as avalanches de dor e também a relaxar entre elas. Em dois momentos me senti um pouco fraca, e com fome, e Vânia e Dani se revezaram para me atender com sucos e frutas, que eu mal conseguia comer (os líquidos caíam bem melhor). 

doula paciente parteira porreta
doula e parteira se revezando nos cuidados comigo
Uma das coisas de que me lembro bem é de ter gritado bastante! Lembro que eu comecei a gritar, minhas cachorras começaram a uivar, e de repente todos os cachorros do bairro estavam latindo e uivando... foi um momento cômico, nem eu me aguentei e caí na risada. Mas logo voltei pra partolândia, já estava em um ponto em que as dores atingiram um pico incrível, eu me pendurava no pescoço do Dani para me apoiar e aguentar as fortes ondas, as contrações cada vez mais próximas umas das outras. Nesse momento, até a água, que até então tinha sido meu alívio, começou a incomodar: eu sentia as gotas como que pinicando minha lombar, e pedi para desligarem o chuveiro. 

apoio
Dani me apoiou física e emocionalmente, o tempo todo
parir junto

De repente, a vontade incrível de fazer força: lembro que perguntei se eu já podia fazer, e a resposta de Jamile foi: se você está com vontade, pode fazer. Foi muito bom ter autonomia total nessa hora, sem ninguém pra me dizer o que fazer (tipo: “faz força, fica assim, assado”...) - eu perguntava o que tinha dúvida, e a Jamile ia me orientando. Em algum momento, já na reta final do expulsivo, ela sugeriu que eu sentasse na banqueta de cócoras, pois eu já estava bem cansada (e Dani com as costas arrebentadas! Rá!). Foi incrível ver como o meu corpo sabia o que tinha que ser feito, sem pieguice: a vontade de fazer força veio, e já era hora de nascer. Jamile perguntou se eu queria ver a cabeça saindo, preferi não ver (depois me arrependi um pouco), mas toquei e foi uma sensação indescritível, misto de emoção e aflição. A percepção de que em muito pouco tempo meu bebê teria completado a passagem para o lado de cá da barriga me encheu de força pra seguir ajudando-o, apesar daquela sensação de que algo estava me partindo ao meio! 
    
Depois da descida do bebê, essa sensação passou, restou uma queimação (o tal círculo de fogo, imagino, tão comentado nos relatos de parto) e, em algumas contrações meu bebê nasceu: na primeira, a cabeça. Depois de algumas, o corpinho! Eu mal podia acreditar... Jamile o amparou, colocou uma touquinha e uma mantinha aquecida em torno dele e o colocou no meu colo imediatamente. Eu realmente não conseguia acreditar que ele já estava ali... fiquei meio embasbacada... mas, ao contrário do que imaginava, eu não chorei: fiquei ali, grudadinha com ele, sentindo aquele cheiro delicioso que jamais esquecerei. Dani nos olhava completamente emocionado, rindo e chorando ao mesmo tempo.  

sem palavras...
nossos primeiros instantes juntos
Tentei colocar ele no seio, mas ele não quis; Jamile e Vânia disseram que era normal, que no tempo dele ele iria mamar. Elas me ajudaram a levantar da banqueta, me enrolaram numa toalha, e eu segui com ele no colo, ainda ligados pelo cordão umbilical, até meu quarto. Jamile e Vânia já tinham preparado tudo, forrado a cama, separado a roupinha, organizado o material que iriam precisar. Deitei na cama com ele sobre meu peito e logo ele começou a mamar, como se sempre tivesse feito aquilo, sem brincadeira. Dani cortou o cordão umbilical depois que parou de pulsar. Mamou um pouco, depois parou, nos olhamos e eu disse: “Filho, você acredita que você já nasceu? A mamãe não tá acreditando ainda!”. Ficamos ali deitadinhos, Dani a nos olhar, Jamile e Vânia saíram um pouco para nos deixar curtir sozinhos aquele momento tão especial. Nos emocionamos demais!

Até esse momento, ainda não tínhamos decidido o nome, estávamos entre Téo e Caio (a história da decisão, aqui). Quando Jamile voltou, para acompanhar a expulsão da placenta e verificar a laceração no períneo, Dani pegou o bebê para que eu pudesse me concentrar na finalização do processo. A expulsão da placenta foi uma parte bem desagradável, já que eu não tinha me preparado para aquilo, não sabia que eu continuaria a sentir contrações, que teria que fazer força para expulsá-la... Eu relaxei tanto depois do parto, que a placenta simplesmente não saía... Ficamos cerca de 1 hora nessa etapa, Dani ia e vinha com o bebê, eu tentava fazer força, Jamile me massageava, fez acupuntura, até que pedi um apoio para os pés (eu estava deitada, talvez, se estivesse de pé, fosse mais fácil), fiz força e ela saiu inteira, ainda bem! Não pensamos em fazer nada com ela, e foi descartada. Em seguida, Jamile suturou a laceração, o que também foi bem chatinho, e novamente ficamos só eu, Dani e Caio, agora já com nome.

pai babão
papai apaixonado
amamentação já! 1
amamentação na primeira meia hora, com ajuda da doula e da parteira


parir em casa 2
primeiros cuidados em nossa cama...
 Enquanto ficamos nós três curtindo, Jamile e Vânia foram para a cozinha e prepararam um delicioso caldinho de feijão (a única coisa que conseguiram fazer com o que tinha em casa, pois estávamos desprovidos, o supermercado seria feito no dia seguinte...), que comi na cama mesmo, como se não houvesse amanhã! Foi perfeito. Enquanto eu comia, Dani e Vânia ajudavam Jamile a pesar e medir o bebê, e o vestiram. Apenas quando tudo estava feito, limpo e tranquilo, é que elas foram embora, às 7 da manhã!!! Nessa hora, nossa ajudante estava chegando, e quase caiu para trás ao saber que nosso bebê já tinha nascido, e em casa. Deitamos os três na nossa cama, e dormimos deliciosamente até quase 11 da manhã, quando levantamos e começamos a ligar para avisar familiares e amigos do nascimento de Caio. Nada como parir em nossa própria casa, do nosso jeito, com nossas coisas, e receber as visitas nesse clima delicioso! 

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Caio nasceu às 4:18 do dia 07 de abril de 2008, pesando 2.820kg, medindo 49cm e recebeu apgar 10/10. Não recebeu nenhuma medicação e não sofreu nenhum procedimento invasivo. Esteve junto a mim ou ao pai durante todo o tempo desde o primeiro minuto de sua vida. Nasceu "sorrindo", como acredito que todo nascimento deveria acontecer.

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Agradeço a todos os envolvidos direta ou indiretamente para que nosso parto, o nascimento do Caio, nosso nascimento enquanto pais pudessem ocorrer da forma como acreditamos e desejamos! Muito obrigada, mesmo! E, especialmente ao Caio, por ter nos proporcionado a maior experiência de nossas vidas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

RELATO DO PARTO DE CAIO - PARTE 2

[continuando...]

A reta final e a decisão pelo parto domiciliar

Na volta da viagem a Salvador, já entrando no terceiro trimestre, começamos a pensar com mais detalhes sobre como queríamos - e poderíamos - fazer o parto. Apesar do parto domiciliar já me passar pela cabeça, como disse, o parto hospitalar ainda era a primeira opção, tanto por medo do marido, quanto pela questão financeira e, principalmente, pelo fato de todos os profissionais que eu sabia que atendiam esse tipo de parto no Estado serem da cidade de São Paulo (ou seja, teriam que viajar cerca de 3hs até aqui).

Resolvemos fazer uma visita à maternidade e à casa de saúde, os dois locais onde se realizam partos na cidade. A visita à maternidade foi um pesadelo: o ambiente hospitalar branco e frio, uma enfermeira despreparada e um discurso pronto de apresentação do local para quem já está com a cesárea agendada. A todo tempo precisávamos interromper e perguntar: “mas, e se for parto normal? Nós queremos fazer parto normal!!” Muitas vezes ficamos sem resposta, ou apenas com um vago: “se você conseguir normal, é um pouco diferente, mas não muito”. E só. Saímos de lá emputecidos, chocados diante daquela apresentação de uma verdadeira “linha de produção” de cesáreas eletivas.

A visita à casa de saúde foi um pouco melhor (ou menos pior), já que o local era pouco procurado, por não ter alguns equipamentos (como o cardiotoco) e não ter a UTI neonatal, e o ambiente era um pouco mais acolhedor, com menos cara de hospital (porque, além do pavor que sinto de hospital, por associá-lo diretamente a doença, falta de saúde, procedimentos invasivos, funcionários burocratizados, em geral o ambiente hospitalar é extremamente inóspito, e eu, inclusive por ser arquiteta, acho que os espaços interferem diretamente nas práticas e relações sociais: assim, se o espaço era melhor, se eu pudesse escolher entre os dois ambientes, ficaria com a casa de saúde).

Só que, como mencionei antes, a Dra. Carla daquela época (porque hoje ela é outra médica, muito mais incrível: que o diga seu lindo blog, Parir é Natural) não dispensava o cardiotoco, e a casa de saúde não tinha o equipamento. Buscamos nos informar também sobre hospitais da região – Araraquara, Rio Claro e mesmo Ribeirão. Sobre esta última cidade, ficamos sabendo que a situação era pior que aqui; em Araraquara, a Gota de Leite, maternidade que desenvolvia um projeto minimamente “humanizado”, havia sido fechada. Mas, através de uma amiga grávida soubemos que o hospital da Unimed em Rio Claro tinha um quarto próximo a um PPP, inclusive com uma cama que permitia partos na vertical. Sondamos a possibilidade de termos nosso filho lá, atendidos pela Dra. Carla, mas isso não era possível devido a burocracias da Unimed. Ou seja, o cerco estava se fechando, o terceiro trimestre avançava e eu ainda não sabia onde parir.

Nesse meio tempo, um casal de amigos teve um parto domiciliar em Campinas e o maravilhamento deles quando fomos visitá-los, o desejo de falar do parto, de compartilhar o que tinham vivenciado conosco nos tocou profundamente. Era muito diferente de tudo que havíamos acompanhado nos partos de amigos até então, nunca ninguém tinha nos falado da experiência do parto daquela forma. Depois, tivemos a oportunidade de assistir ao vídeo do parto desse casal, e ficamos encantados. Era daquela forma que queríamos que nosso filho nascesse, com certeza, e aquilo já não parecia tão distante e absurdo, não era coisa de filme gringo, tinha acontecido com “gente como a gente”.

Além disso, eu, viciada que estava em relatos de parto, comecei a buscar mais e mais relatos de partos domiciliares (sempre eram os que mais me emocionavam!), até que encontrei um que foi decisivo na nossa escolha: o relato da médica GO Cátia Chuba, de seu VBAC domiciliar. Nesse relato ela enfatizava muito o processo de tomada de decisão dela e, principalmente, do marido: foi a gota d´água para que Dani embarcasse na ideia comigo, e começássemos a pensar mais seriamente na possibilidade de ter nosso bebê em casa.

Assim, a reta final foi se aproximando e o desejo de ter nosso filho em casa foi crescendo. Mas ainda tínhamos dois problemas para resolver: com quem fazer o parto, já que havíamos sondado a Dra Carla e ela disse que não toparia fazer em casa (hoje em dia ela faz!), e como viabilizar recursos para isso, já que nossa grana estava bem curta e as notícias dos custos do parto domiciliar daquele casal de amigos estava totalmente fora do nosso alcance (eles fizeram com GO e neonato, além da doula). A Vânia foi fundamental nesse momento: ela nos encorajou, dizendo que com uma parteira o custo seria menor e que certamente seria possível negociar valores e condições de pagamento, nos passando contatos e nos informando também sobre a Jamile, enfermeira obstetra da cidade que, ao que tudo indicava, começaria a fazer partos domiciliares na região.

Fiz um primeiro contato com a Dra. Betina, médica que tinha realizado o parto daquele casal de amigos, e ela foi super receptiva, mas teríamos que fazer algumas consultas em SP e, com a barriga que eu estava, me desanimei um pouco. Também fiz contato com a pediatra Ana Paula Caldas, pra saber sobre o parto domiciliar dela e obter o contato da parteira Vilma Nishi, e ela também me encorajou muito. Por fim, entrei em contato com Vilma, que também foi muito atenciosa, mas disse que estava com muitos partos no mesmo período do meu, e não gostaria de arriscar. Mas aí ela me disse que estava sabendo de uma parteira daqui, que estava decidida a fazer partos domiciliares, a Jamile! Falamos com Vânia, que confirmou a notícia, dizendo inclusive que Jamile já estava com um PD programado em Ribeirão Preto. Foi a melhor notícia do dia!

Assim, nossos contatos com Jamile começaram na segunda quinzena de fevereiro. Apesar dela ainda não ter realizado nenhum parto domiciliar até então (o primeiro estava previsto para pouco antes do meu), ela tinha uma vasta experiência em acompanhamento de partos normais (tinha sido enfermeira-chefe da maternidade), nós tivemos muita empatia com ela logo de cara, os valores cabiam no nosso bolso (e ela foi super maleável conosco) e, o melhor, ela era de São Carlos, poderíamos nos encontrar com tranquilidade até a data do parto. Alguns encontros depois e estávamos definitivamente decididos pelo Parto Domiciliar.

Essa decisão só se reforçou quando ocorreu o segundo episódio que poderia ter me tirado do caminho do parto que eu desejava. Eu estava com a defesa do mestrado marcada para 26 de março (quando eu completaria 37 semanas!), e teria uma consulta com Dra. Carla no dia 28. Entretanto, uma paciente havia parido e, com isso, um horário havia liberado no dia 25 de manhã, e minha consulta foi reagendada. Mal sabia eu o que me esperava para aquele dia!

Durante o exame de rotina, Dra. Carla fez um exame de toque e, sem me consultar, realizou um descolamento de membranas, para “incentivar” o trabalho de parto, dando início à dilatação. Na hora fiquei meio passada, não entendi o que tinha acontecido, mas depois, conversando com Dani e com Vânia, fiquei muito brava, pois, além de ser uma intervenção desnecessária, comecei a sentir contrações diferentes das que vinha tendo até então, um pouco mais doloridas, e eu estava às vésperas da minha defesa de mestrado! Além disso, achei um absurdo ela ter feito isso sem me consultar, sem nem sequer perguntar se eu queria, sem nem sequer me informar que ia fazer. Simplesmente foi lá, e fez.

Em seguida, ao auscultar os batimentos do bebê, ela percebeu alguma alteração e ficou um pouco apreensiva. Como eu estava às voltas com a apresentação para a defesa, e fui para a consulta com o estômago um pouco vazio (era perto da hora do almoço), ela me pediu para comer algo e ir até a maternidade para realizar uma cardiotocografia, para termos certeza de que tudo estava bem. Fiquei muito angustiada, em primeiro lugar pelo bebê e, em segundo, pois diversas amigas que pretendiam ter parto normal acabaram em cesáreas justamente após esse bendito exame. “Sofrimento fetal”, o diagnóstico fatal.

Eu e Dani saímos tensos do consultório, passamos numa lanchonete pra comer algo e seguimos pra maternidade. Fui encaminhada para um quarto, e uma enfermeira me conectou ao cardiotoco. Três pessoas diferentes (2 enfermeiras e um médico) vieram monitorar o aparelho, e cada uma delas falava uma coisa sobre os resultados. Após um tempo, uma das enfermeiras veio e deu aquela terrível buzinada na minha barriga. Depois de um tempo, o médico veio e, não confiando no exame da enfermeira, deu mais uma buzinada e, depois, outra ainda. Meu bebê, coitado, imagine o susto que não levou... 3 buzinadas de uma vez!!!

Mas o pior ainda estava por vir: o médico olhou o exame, disse que o bebê tinha tido uma leve alteração nos batimentos, mas nada significativo. Fiquei bem aliviada. Só que a enfermeira que veio me liberar e entrar em contato com a Dra. Carla, já tinha uma opinião diferente, de que as coisas não estavam tão bem. Ela me disse que tinha falado com a Dra., e que era pra eu ficar internada pra fazer um ultrassom. Entrei em pânico: me internar naquele hospital, sem falar diretamente com minha médica, com 37 semanas de gravidez, às vésperas da minha defesa? Olhei para o Dani, e nem precisei dizer nada: ele, até que elegantemente para os seus padrões (rá!), disse à enfermeira que não iríamos internar, que iríamos sair, almoçar, falar com nossa médica e, se fosse o caso, voltaríamos após o almoço (até porque ninguém merece almoço de hospital!!).

Dani foi fundamental nesse momento, me acalmou demais. Eu liguei para a doula, que também foi perfeita, ao me dizer: “Thaís, o que você está sentindo? O bebê está mexendo? Você está se sentindo bem? Você sente que o bebê está bem? Vai almoçar, se acalme, e tente falar com a Jamile, ela sim pode fazer uma avaliação profissional da situação”. Foi exatamente o que fiz. Almoçamos num lugar legal, me acalmei, liguei pra Jamile, que foi incrível: se dispôs a ir até minha casa olhar o resultado do exame, para me dar um parecer mais concreto. A essa altura a preparação da apresentação para a defesa do mestrado já tinha ido pro saco, e eu já começava a ter a dimensão da transformação que a maternidade traria para minha vida. Primeiro o bem estar do meu filho, depois todo o resto.

Logo depois do almoço Jamile foi até minha casa, me examinou, analisou o resultado do exame e me tranquilizou, dizendo que o cardiotoco é um equipamento muito controverso, que dá muito falso positivo. E, mais: feito da forma que foi, com 3 buzinadas consecutivas, o resultado se tornava menos confiável ainda. Ela interpretou o pedido de internação da Dra. Carla como uma tentativa de averiguar rapidamente a situação, através de um ultrassom, já que, se eu fosse realizar fora da maternidade, dificilmente conseguiria agendar para o mesmo dia, a menos que a Dra Carla conversasse em alguma clínica.

Ela estava certa: quando finalmente consegui falar com a Dra. Carla, ela confirmou que a ideia era essa, que sem o pedido de internação eu não conseguiria realizar a ultra. Perguntei se ela não poderia interceder em alguma clínica e ela disse que não, mas que ela considerava imprescindível que eu realizasse um ultrassom naquele dia, fosse na clínica ou na maternidade. Liguei na maternidade pra saber se eu ainda conseguiria fazer lá, caso me internasse, e soube que eu teria que passar a noite lá, para fazer a ultra no dia seguinte. Nas clínicas, nenhum horário.

E mais uma vez Jamile entrou em cena: disse que, apesar de considerar que estava tudo bem, eu deveria fazer o ultrassom para poder ir tranquila para a defesa. Ela ligou pessoalmente numa clínica, intercedendo por mim, e acabou conseguindo a consulta para o fim daquele dia. Bom, pra encurtar a história, já que esse relato tá parecendo um livro, desencanei da apresentação pra defesa (decidi fazer na cara e na coragem, sem powerpoint e o escambau), fiz a ultra quase nove horas da noite e, CLARO, estava tudo ÓTIMO comigo e com o bebê. Tudo na mais santa paz. UFA, de novo.

Mestrado defendido com louvor, contrações e piadinhas da banca (que, thanks god, era toda composta de mulheres e todas mães!), e no fim da semana fizemos aquela que seria a última consulta com a Dra. Carla. Logo de cara coloquei minhas questões quanto àquela intervenção e ela, super atenciosa como sempre, me ouviu atentamente, disse que nunca havia ocorrido a ela perguntar à paciente antes, já que ela considerava aquilo uma “intervenção de rotina” para a parturiente que desejava parto normal, pois “aceleraria” o TP, e se desculpou ao final. Além disso, nessa consulta ela me perguntou se eu queria que fizesse um novo toque, para verificar a dilatação, eu disse que não, e ela respeitou.

Também conversamos sobre a confusão do cardiotoco e, ao ver o exame (que até então ela não tinha visto, só ouvido falar pela enfermeira da maternidade) ela chegou à mesma conclusão que a Jamile, com um adendo de que eu tinha “dado azar” de pegar uma equipe ruim na maternidade, porque existiriam outros profissionais melhores lá, e ela tinha ficado desconfiada do resultado também por conta disso (já pensou parir lá e dar esse “azar”? Nem morta). Mas, novamente, me fazendo rever todos os meus conceitos sobre a suposta onipotência médica, ela me pediu desculpas, disse que estava numa semana atribulada, e que tinha havido uma falha em nossa comunicação, que ela poderia ter deixado as coisas mais claras para mim, de modo que eu não me assustasse com o pedido de internação, e mesmo pudesse optar por ir fazer a ultra em outro lugar. Achei essa atitude dela fantástica.        
                                                                                                         
Nessa mesma consulta, ela ainda ponderou, dizendo que nossas expectativas em relação ao parto eram altas, e que ela sabia das limitações da maternidade daqui (e que todo esse ocorrido era apenas uma amostra da situação). Disse também que ela, como médica, nessas condições, não conseguiria nos dar o parto que tanto desejávamos, e sugeriu que devíamos fazer mesmo com a Jamile, que ela confiava nela de olhos fechados, que certamente não teríamos problema. Mas, pra fechar com chave de ouro, ainda se colocou à disposição para ficar na retaguarda, caso precisássemos ir para a maternidade. Fiquei muito feliz com esse desfecho, e tive certeza de que tinha escolhido a médica certa, apesar dos percalços que tivemos no caminho.

Depois dessa história toda, eu já estava entrando na 38ª semana, me encontrando e/ou conversando por telefone frequentemente com Jamile e com Vânia, continuando minhas práticas de yoga e hidroginástica, e finalizando todos os preparativos para a chegada do bebê. Nessa reta final, fizemos - eu, Dani e Vânia - uma oficina com Katrina, minha professora de yoga, para conhecer e experimentar posições de alívio para o TP, e isso foi bem legal para irmos “entrando no clima” (em especial para Dani sacar a importância do seu papel na hora do TP) e também para nos sintonizarmos ainda mais com a doula.

Desde que havíamos tomado a decisão, vínhamos tentando conversar sobre parto domiciliar com pessoas de nossas famílias e com amigos, mas a receptividade sempre era muito ruim, e acabamos decidindo não contar a ninguém sobre nossa escolha: somente quem sabia, além dos envolvidos diretamente, eram nossa GO, minha homeopata (que já havia me receitado gotinhas PPP – rá! -  que foram fundamentais!!), a Rosa (minha amiga e prima do Dani) e a Ana, a amiga que tinha tido o PD em Campinas. Se, por um lado, isso era um pouco angustiante, por outro, não queríamos interferências indesejadas, palpites e energia negativa sobre nossa decisão.

A partir de então, passei a ter aquela sensação de que o trabalho de parto poderia se iniciar a qualquer momento, mas nem tive tempo de ficar ansiosa com isso...

domingo, 18 de outubro de 2009

EMPODERAMENTO INDIVIDUAL E COLETIVO


A Flávia falou aqui sobre o poder que nossa rede materna na net tem. A Roberta mandou uma Carta ao Prefeito do Rio que está circulando na blogosfera materna e ganhando força pra fazer algo acontecer. As Mamíferas estão sempre contando histórias de empoderamento de gestantes e mães, e das transformações promovidas por elas mundo afora. E eu queria compartilhar com vocês um pedacinho da minha própria história de empoderamento, e das consequências mais amplas que ela tem tido, copiando aqui um email que recebi esta semana da obstetra que acompanhou toda minha gravidez, e que, ao final das contas (como eu conto no meu relato de parto que está quase pronto, mas não acaba nunca) não realizou o parto do Caio, que foi feito em casa com uma enfermeira parteira muito querida, inclusive amiga dela (quem quiser saber um pouquinho do meu parto, minha doula fez um relato AQUI).

A decisão de parir em casa foi tomada quase de última hora, mas de forma bem tranquila e, de certa forma, compartilhada com a obstetra, que concluiu, em uma das últimas consultas antes do nascimento do Caio, que os limites dela, como médica, e do que ela podia fazer na estrutura da maternidade em São Carlos, estavam muito aquém das minhas expectativas em relação ao parto, e que ela não queria me frustrar. Mas se colocou à minha total disposição caso fosse necessário irmos para o hospital, o que me deu ainda mais segurança na minha decisão.

Estou contando tudo isso porque, há uma semana, minha doula, minha parteira, minha obstetra e uma outra doula iniciaram o Grupo de Apoio ao Parto Natural de São Carlos. Dá para imaginar como fiquei radiante, né? Minha doula havia comentado comigo que estava trabalhando bastante em conjunto com minha obstetra, que ela estava bem mudada, e que ela dizia que tinha mudado depois de acompanhar uma gestante que havia questionado alguns procedimentos considerados "padrão" (no caso, euzinha aqui!!). Fiquei super feliz com a notícia, claro, mas nada comparado ao que senti quando recebi esse email dela, que compartilho aqui por dois motivos: para registrá-lo nesse meu cantinho de memórias da gravidez, do parto e dos aprendizados como mãe, e, principalmente, para atestar que nosso poder de transformação do mundo que nos cerca é enorme, e às vezes não nos damos conta. E que se, sozinhos, eu e Dani pudemos mexer alguma coisa dentro dela que a estimulou a mobilizar-se pela humanização do parto numa cidade em que o índice de cesárias chega a 98% na rede privada, imagine nós, mais todos os outros casais que têm buscado essa mudança por aqui, somados a esse Grupo que acaba de se iniciar... A transformação será certeira, não tenho dúvidas. E isso me empodera ainda mais.

Thais

Bom ouvir notícias suas!
Vc talvez não saiba, mas o acompanhamento da sua gestação foi um "turning point" para mim. Todas as coisas desagradáveis que aconteceram com vc (desencontro de informações, atendimento inadequado na maternidade, procedimentos desnecessários...) foram responsáveis pela minha reflexão sobre a prática profissional e minha entrada no mundo da humanização.
Sua gestação foi, para mim, um grande aprendizado.

Nossos encontros serão quinzenais, já vou colocar vc na minha lista de email para encaminhar as datas. Sua experiência com certeza motivará outras mulheres.

Um beijo grande


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O RELATO DA DOULA


Estou em dívida comigo mesma... Até hoje não acabei de parir meu relato do parto do Caio... Comecei há um tempão, e depois deixei ele lá... nem voltei a ler! Parece que estou me sabotando, que não quero "congelar" aquela memória em palavras, é estranho! Ao mesmo tempo, sempre penso nisso, é uma coisa que quero e sinto que tenho que fazer... Ambíguo, eu sei. Mas, quem não é?

Toda essa divagação é porque minha doula querida publicou esses dias no blog dela o relato que ela fez há mais de um ano atrás da nossa 'doulagem', e nos deu de presente no dia em que fizemos a comemoração dos 3 meses do Caio com uma festança deliciosa, seguindo a tradição de alguns povos que consideram essa passagem dos 3 primeiros meses como um marco para o bebê, a completude de sua gestação, o momento real de sua conexão com o mundo de cá...

Ai, lá vou eu me perdendo nas histórias... Não é da festa que quero falar, mas do relato que ela fez: ficou tão bacana, tão detalhado, que, ao reler agora, um ano e quatro meses depois do nosso parto, cheguei a lembrar até dos cheiros daquele dia... E chorei à beça, claro. E fiquei absolutamente motivada a finalizar meu relato, (mas não vou colocar prazo, que da outra vez eu coloquei e não cumpri). E fiquei com vontade de engravidar e parir de novo. Rá!

Então, quem quiser conhecer um pouquinho a história do parto do Caio, contada do ponto de vista de uma doula porreta, dá um pulinho LÁ NO BLOG DELA, e depois me conta o que achou...

[E, aproveitando a deixa, um toque para as grávidas, tentantes e simpatizantes que me lêem: ter uma doula ao nosso lado ao longo da gestação, do parto e do pós parto é tudo de bom, meio caminho andado para que as coisas aconteçam da forma como desejamos e sonhamos, tanto no parto quanto na amamentação! Recomendo totalmente. Não sei nem dizer se minha doula, que virou amiga, foi mais importante durante a gravidez - quando nos apoiou e nos muniu de mais informação e confiança para conquistarmos o parto que queríamos; o parto - quando, serena, fez de um tudo para tornar aquele momento ainda mais especial e tranquilo; ou o pós parto - quando me deu conforto afetivo e me ensinou várias coisas sobre amamentação... Interessou? Para saber mais sobre doulas aqui no Brasil, e onde encontrar uma perto de você, passe AQUI , AQUI e AQUI.]


a fofa me massageando durante o trabalho de parto...


curtindo serenamente a primeira mamada do Caio...


e lavando a louça depois de tudo!!!
Precisa falar mais alguma coisa??

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

MEU PRIMEIRO RELATO DE AMAMENTAÇÃO


Para fechar essa semana tão intensa de postagens sobre o tema da amamentação, participando de uma tripla blogagem coletiva (a super campanha do Astronauta e as blogagens do Mamys Blogs e do Síndrome de Estocolmo), vou postar aqui o relato que fiz para o Astronauta (e que foi publicado também no Pelos Cotovelos e Cotovelinhos), de forma que eu possa guardar essas reflexões também aqui no meu cantinho. Coloquei no título da postagem o "primeiro", pois esse relato foca em apenas alguns aspectos da minha história de amamentação com o Caio, e eu espero ainda poder falar mais da minha experiência de amamentação, tanto com o Caio, quanto com um próximo filhote (ou filhota) que virá daqui uns anos...


AMAMENTAÇÃO COMO UM PROCESSO COLETIVO

Relato parcial de uma história feliz de amamentação
Thaís e Caio



Antes de engravidar, eu nunca tinha prestado muita atenção em mulheres amamentando. Os dois contatos mais próximos que tive foram com minha cunhada e uma amiga querida, ambas com dificuldades iniciais com a amamentação: problemas com a pega do bebê, bico rachado, demora do leite para descer, introdução de complementos. Mas ambas deram a volta por cima (cada uma a sua maneira), insistiram na amamentação, e prosseguiram até perto de um ano ou mais. Minha impressão era que amamentar era dolorido e difícil. Mas, quando engravidei, fiquei tão focada no assunto “parto”, buscando informações e me preparando para garantir um parto natural, que quase não pensei na amamentação (e nem nos primeiros banhos, nas trocas de fralda, em quase nenhum assunto prático relativo ao pós-parto!). Nas últimas semanas da gravidez é que começou a cair minha ficha e eu fui ficando um tanto ansiosa, e despejando tudo em cima do maridão: “nós não fizemos cursinho de pais, não lemos livros sobre bebês, não sabemos fazer nada, não vamos dar conta!!!!!” E ele me aturando, dizendo que mais do que tudo isso, só nossa experiência é que ia nos trazer esse “saber-fazer”...

Nesse finzinho de gestação, tudo o que eu sabia sobre amamentação era que eu devia tomar sol nos mamilos para prepará-los; que existia uma pomada natural sensacional para rachaduras (Lancinoh, importada, que eu me virei para conseguir); que um parto natural favorecia uma descida mais rápida do leite; que amamentar meu filho na sua primeira hora de vida era um grande passo para minimizar problemas com a amamentação; que a liberação de ocitocina no corpo durante o parto, o nascimento e a primeira mamada do bebê era a grande responsável pelo sucesso da primeira interação mãe-bebê e, consequentemente, da amamentação; que o contato pele-a-pele era tudo o que eu precisava para estimular as primeiras mamadas e a formação de vínculos com meu filhote.... Embora não fossem muitas, possuíssem caráter pouco prático e estivessem focadas apenas na primeira mamada do bebê, hoje eu sei o quanto essas informações (adquiridas em conversas com outras mães, em listas de discussão sobre o parto, em alguns livros e revistas sobre gravidez e em conversas com minha doula, minha obstetra, minha parteira e a pediatra que escolhi para o Caio) foram determinantes para que minha história de amamentação fosse bem sucedida. Mas apenas elas não bastariam. Outros fatores – que eu não planejei durante a gravidez – também foram fundamentais nesse sentido, e falarei deles logo mais.

Antes, vamos aos fatos: conquistei o parto natural pelo qual tanto batalhei e, assim que nasceu, meu filho veio para meus braços. Eu não sabia nem como segurá-lo (nunca tinha tido contato com um bebê tão pequeno!), mas minha primeira reação foi colocá-lo junto ao meu peito. Ele apenas se aconchegou ali, sem nem sequer abrir a boca. Olhei para a parteira: eu devia fazê-lo pegar meu bico? Ela me respondeu que ele mamaria em breve, não era preciso pressa. Com ele aconchegado em meu peito, ainda com o cordão umbilical nos unindo, caminhei do banheiro (onde ele nasceu, dentro do box) para meu quarto, me deitei na cama com ele sobre mim e, com a ajuda da minha querida parteira, ele abocanhou meu peito e começou a sugar. Jamais esquecerei esse momento. O cordão umbilical foi cortado pelo super-papai (que participou ativamente de todo o parto, e não está sendo mencionado a todo tempo neste relato em razão do foco ser a amamentação) enquanto o pequeno ainda mamava, e foi outro momento inesquecível. Caio não mamou avidamente, apenas o suficiente para me bombear de ocitocina, para me fazer apaixonar perdida e eternamente por ele e para fazê-lo adormecer agarradinho em meu bico.


Horas depois, a segunda mamada foi o momento em que percebi que não sabia NADA sobre amamentar... Mas eu estava sendo maravilhosamente assistida por minha doula e minha parteira, e aqui está um dos fatores que não programei durante a gravidez (por falta de tempo para os ajustes finais, já que Caio nasceu dez dias antes do previsto): minha parteira me daria um super acompanhamento pós-parto, ensinando desde as pegas do bebê e posições para amamentar, até todos os outros detalhes práticos (e tão amedrontadores para uma mãe de primeira viagem) como os primeiros banhos, os cuidados com o cordão umbilical e etc. Sentada no sofá no quartinho do Caio, com ele em meus braços, instintivamente fui colocá-lo em meu peito, mas me faltava coordenação e informação. Minha primeira reação foi segurar o bico com os dedos em tesoura, como as mães de antigamente faziam (não sei nem de onde tirei isso, é o poder do subconsciente!!). Carinhosamente, Jamile, a parteira, me orientou sobre a melhor forma de auxiliar meu bebê a pegar o seio, e após alguns momentos mais desajeitados, eu e Caio fomos nos acertando (mas durante semanas eu penava para dar de mamar do lado esquerdo, a descoordenação era total!! Rá!). Também havia a afobação de mãe de primeira viagem: a cada paradinha que o Caio dava, eu ficava cutucando ele para voltar a mamar... até que Vânia, minha doula querida, que assistia tudo com uma risadinha marota, me alertou que ele precisava engolir o leite e respirar, por isso dava aquelas paradinhas... (dá-lhe falta de noção da aprendiz de mãe aqui!!! afe!).


A verdade é que, tão focada no parto como eu estava até então, eu não tinha me dado conta do suporte (prático e emocional) que essas duas figuras – doula e parteira – me dariam no pós-parto, em relação à amamentação especialmente, e, sem elas, eu provavelmente não teria sobrevivido tão bem a esse momento inicial da amamentação. Eu não podia imaginar, por exemplo, o que aconteceria com meus peitos quando o leite descesse... se elas não tivessem me prevenido sobre a tal da “apojadura”, que meus seios ficariam muuuuito doloridos, que o leite poderia empedrar e coisa e tal, eu certamente teria surtado. Caio dormia super bem nesses primeiros dias, e, quando o leite desceu, eu é que não conseguia dormir de tanta dor nos seios! As mamas enchendo, e o pequeno não dava conta de mamar tudo aquilo, inclusive porque – eu vim a saber depois – com o peito tão cheio ele tinha mais dificuldade para sugar, e o risco de machucar as mamas era ainda maior! O que fazer então??? Eu não tinha a menor idéia, mas elas estavam ali para me apoiar. Jamile me ensinou a ordenhar o peito, e me emprestou uma bombinha para retirar o excesso de leite (que, no próximo filho, com as informações que tenho hoje, procurarei doar para um banco de leite, coisa que não fiz dessa vez...). Foi o que me salvou, e garantiu a continuidade da amamentação sem maiores traumas.

A partir daí, eu e Caio engrenamos uma primeira, e a amamentação só melhorou. Durante um bom tempo elas me “supervisionaram”, eu fui aprendendo novas posições (o famoso “mama sutra”... rá!) e a pega do Caio ficou perfeita. Quando batia alguma crise, “será que meu leite está sendo suficiente?” ou “será que meu peito está produzindo leite?”, quando parecia que meu peito estava murchinho ou coisa assim, eu gritava por socorro e elas me acalmavam: aprendi que quanto mais o bebê mama, mais leite é produzido; que a produção iria se adequar completamente à demanda (aliás, não me lembro em que momento, se antes ou depois do parto, tomei consciência sobre a amamentação em livre demanda, a qual adotei de corpo e alma); que, enquanto o bebê sugasse, jamais meu leite secaria, entre outras tantas coisas valiosas que me deram muita segurança.


Mas informação e apoio profissional, apenas, não garantem o sucesso da amamentação. Pelo menos é o que eu penso, e deduzo da minha experiência. É preciso todo um apoio afetivo no cotidiano, seja do marido, de familiares, de amigos... Eu recebi um suporte inestimável nesse sentido (o qual, quando estava grávida, eu nem imaginava o quanto iria precisar!): meu marido “comprou” a idéia da amamentação e me apoiava ao máximo (querem um exemplo prático? Como eu tinha que acordar, inevitavelmente, algumas vezes para dar de mamar na madrugada, ele se responsabilizava por todas as trocas de fraldas nesse período! Não é incrível? Eu troquei pouquíssimas fraldas do Caio nas madrugadas dos primeiros meses!!!), tanto aliviando algumas funções para que eu descansasse, como também valorizando e incentivando a amamentação em livre demanda; meus pais e meus sogros sempre acharam o máximo ver o Caio se desenvolvendo “apenas” com o leite materno (como eles diziam), propagavam isso aos quatro cantos e valorizavam muito minha atitude em relação à amamentação; meus amigos, colegas de trabalho e afins se acostumaram comigo dando de mamar para o Caio a todo momento e em qualquer lugar (até mesmo em reuniões), e faziam com que eu me sentisse confortável e sem constrangimentos quanto a minhas opções (como a livre demanda, por exemplo). É claro que todo esse apoio se deve, em parte, pelo fato de eu estar muito segura das minhas escolhas em relação à amamentação, de eu demonstrar muito conhecimento acerca da sua importância e benefícios e compartilhar as informações que possuía com todos eles... Ou seja, até mesmo para que esse apoio acontecesse, foi fundamental eu me colocar em uma postura ativa, construindo esse apoio ao meu redor, e não apenas esperando que ele acontecesse.


Foi assim também quando me vi angustiada por ter que voltar a trabalhar, ainda que meio período, sem saber como conciliar esse momento com minhas convicções de amamentar exclusivamente até o sexto mês de vida do Caio; quando meu filho não ganhou peso adequadamente em algum dos meses de amamentação exclusiva; quando se aproximava a hora de introduzir os alimentos ou quando começaram a nascer os dentes e eu temia pela continuidade da amamentação: continuamente buscando informações e trocando experiências com profissionais, grupos de apoio, amigas-mães mais experientes, mães internautas, etc. e construindo e contando com essa rede de apoio afetivo de familiares e amigos em torno de minhas escolhas, venho amamentando meu filho há um ano e três meses, desfrutando do prazer inigualável que isso me dá.


Obviamente, conforme Caio vai crescendo, essa rede de apoio afetivo começa a diminuir: nem todos compartilham ou compreendem a opção por uma amamentação mais prolongada, ou o desmame como um processo gradativo e natural que deverá acontecer no tempo da mãe e do bebê, sem maiores traumas, sem datas marcadas ou prazos pré-estabelecidos. Mas, como este relato já se estendeu mais do que devia (só para variar), deixemos este assunto para outras conversas...