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terça-feira, 19 de junho de 2012

EU PARI EM CASA: COM CONSCIÊNCIA E MUITA SEGURANÇA

Já está mais que difundida na net a mais nova (e grave) polêmica referente ao parto domiciliar, desencadeada a partir da reportagem no Fantástico e da absurda denúncia feita pelo CREMERJ contra o obstetra Jorge Kuhn. Mas não posso deixar de registrar aqui minha indignação e, também, reforçar minha opinião e minha experiência.

Como quem acompanha este blog sabe, tive dois partos domiciliares: ao primeiro, posso dizer que cheguei quase que por falta de escolha - as "opções" oferecidas então, onde vivo, pela medicina, eram um parto cheio de intervenções (e olhe lá) ou uma cesária, e ponto. Digo isso pois, na época, se houvesse a possibilidade de parir da forma como eu desejava em um hospital, talvez essa tivesse sido a nossa escolha, talvez eu nem descobrisse o parto domiciliar... Nunca saberei. Ao segundo, porque, depois de experimentar (toda a beleza e intensidade de) um parto domiciliar, apenas um risco verdadeiro - ou algum sentimento insondável e inconsciente - me levaria a parir em outro lugar. Mas isso não aconteceu, e meus dois filhos nasceram em casa, cercados não apenas de amor, aconchego e familiaridade mas, também, de muita segurança.

Porque, ao contrário do que muita gente pensa (e é nisso em que o CREMERJ se apoia, lastimavelmente), o parto domiciliar não é nenhuma aventura inconsequente, muito pelo contrário: o casal, ao invés de delegar a terceiros tudo o que diria respeito ao nascimento de seus filhos, tem de se informar, tem de buscar profissionais capacitados, tem de guardar dinheiro, tem de preparar todo o necessário para que o bebê seja recebido com todo o cuidado e segurança que merece (e, ainda que não sejam necessárias grandes adaptações à vida cotidiana de um lar, há que se pensar em coisas práticas como lençóis, toalhas, aquecimento, comidinhas, etc), para falar apenas de alguns aspectos mais "logísticos" que envolvem os preparativos concretos sob responsabilidade dos pais. E os profissionais que dão assistência ao parto domiciliar, além de serem extremamente capacitados em suas áreas (parteiras, doulas, médicas e médicos), são equipados com todo o necessário para acompanhar o trabalho de parto, avaliar continuamente seu andamento, monitorar as condições (físicas e, também emocionais - aí uma grande diferença) da gestante, do casal, do bebê e têm, de acordo com sua formação, com o histórico de acompanhamento das gestações e com as condicionantes dos locais onde atendem, seus limites de segurança, a partir dos quais as técnicas e tecnologias médico-hospitalares poderão se fazer necessárias. 

foto tirada por meu marido, após o parto do Nuno, para mostrar para o pai dele, que é médico...
(o equipamento não foi usado, mas estava lá)

Enfim, não é coisa de "bicho grilo" ou de pessoas "alternativas": é uma escolha extremamente consciente feita antes de mais nada pela mulher, preferencialmente em diálogo com seu companheiro e envolve decisões e balanços por vezes muito difíceis, doloridos até (como no meu caso, no primeiro parto, a decisão de não contar para as pessoas mais queridas que teríamos nosso filho em casa), justamente em função dos mitos e inverdades que cercam o tema do parto domiciliar no senso comum.

Nesse ponto, uma pausa pra indicar um dos posts mais explicativos e esclarecedores que já li sobre o tema, um "informe técnico" produzido pela querida Lia, que trata justamente de desmistificar o parto domiciliar, permitindo às pessoas se informarem sobre o assunto (lembrando que informação de qualidade é essencial para uma escolha efetivamente consciente). Recomendo também os artigos desmistificadores e cientificamente embasados da Dra Melania Amorim, disponíveis em diversos locais na net, mas alguns bem didáticos estão aqui e aqui.

Mas, como "técnico" é o termo que menos define um parto domiciliar, há muitos (muitos!!) outros fatores ligados à escolha do lar como local de parto, e aí sim, acima de tudo, trata-se de uma escolha: eu tenho amigas que desejam fortemente um parto natural, humanizado e digno, mas não gostariam de parir em casa, muitas vezes pelo simples motivo de que não se sentiriam confortáveis com a situação. Simples assim, como deveria ser se efetivamente houvesse o direito dessa escolha. 

Só que, infelizmente, o que deveria ser um direito continua sendo tratado como privilégio de algumas, como eu. E é a naturalização dessa falta de escolha, em meio à sociedade, que forma o solo sobre o qual posturas autoritárias como a do CREMERJ podem brotar. Mas, felizmente, existem muitas mulheres nadando contra essa corrente, e essa arbitrariedade acabou tendo o papel de "gota d´água": foi empolgante acompanhar, mesmo que tardiamente (já que estou meio "desconectada") a ágil mobilização de mães e mulheres de todo o Brasil, que culminou na que foi denominada "Marcha do Parto em Casa". A Marcha ganhou esse nome a partir do contexto que originou a mobilização, mas o que estava em jogo nas manifestações é muito mais do que o nome pode expressar: é o direito à escolha consciente, o que pressupõe informação (como bem disse a gravidíssima Dani: liberdade de escolha consciente e cientificamente fundamentada) e, acima de tudo, a viabilização concreta dessa escolha, que pressupõe uma transformação radical em termos de saúde pública, em última instância.

Bom, eu tô desconectada, mas não podia deixar de me manifestar aqui no meu espaço. Tô com pouco tempo pra grandes elaborações, mas fica registrada minha opinião e minha presença na Marcha aqui em São  Carlos, organizada por grupos e pessoas que vêm mudando a realidade dessa escolha por aqui:





Nós fomos! 
Fotos da Marcha em São Carlos, por João Moura
(extraídas do portal K3)

Recomendo, pra quem quiser saber mais sobre a Marcha, os dois belos posts da Ligia Sena, a Cientista que virou Mãe  e um post com alguns dados gerais sobre a Marcha e sua repercussão no país, no blog interiorano Mater - maternidade responsável e consciente. E ainda o belo vídeo, postado pela CáEntreNós produções:


E, para apoiar ainda mais a causa: PETIÇÃO PÚBLICA POR UM DEBATE CIENTIFICAMENTE FUNDAMENTADO SOBRE LOCAL DE PARTO - assine!!

sábado, 22 de outubro de 2011

O CORPO FALA

Caio raramente fica doente. Ele tem um pouco de alergia (meu gene ruim) e já teve uma ou outra gripezinha, mas nada sério. Um dos meus orgulhinhos bestas de mãe (alguns dirão que "é sorte", né Dani?) é ele nunca ter tomado nada além de homeopatia e algumas poucas doses de paracetamol. Nossas escolhas (controversas, por certo) em termos de parto, vacinas, medicamentos e cia sempre foram no sentido de fortalecer sua imunidade, e parece que vem dando certo.

Mas, na semana passada, mal eu estava me curando de uma 'virose' (no meu tempo era gripe, mesmo), Caio ficou ruinzinho. Uma molezinha, um corpinho mais quente que o costume, uma vontade a mais de chamego indicaram que algo não estava normal. Depois vieram catarro, tossinhas, falta de apetite, indisposição geral. E uma necessidade/vontade incansável de colinho da mamãe.

E a mamãe, saindo da doença, com várias noites maldormidas em sequência, com papai viajando, estava na casa da vovó, que tentava loucamente se dividir entre duas filhas sem marido com três netos pra ajudar a cuidar... Ou seja, foi o caos. No sábado, despenquei. Não aguentei, chorei, surtei, me senti a pior mãe (e a pior filha) do mundo. Ainda bem que o Dani já tinha voltado de viagem, e voltamos pra nossa casa. Domingo, tudo estava bem melhor, mas Caio ainda ficou em casa, sem ir pra escolinha, na segunda e na terça. E dividimos pais e filhos em dois quartos (eu e Nuno em um, Dani e Caio no outro), pra facilitar as acordanças noturnas.

Foram dias difíceis. Pra falar a verdade, ainda não me recuperei: estou cansada, estafada, com um humor oscilante que está me matando. Mas na segunda, quando fomos na consulta com a pediatra-homeopata dos meninos (de rotina, por sorte agendada nesse momento), tive uma injeção de ânimo: além dela elogiar muito nossas condutas com os meninos, ela ficou perguntando tudo sobre o Caio (fazia um bom tempo que ela não o via). E, ao saber que, além de toda a transformação que ele passou após o nascimento do Nuno, ele também "perdeu" o melhor amigo da escola, que mudou repentinamente de cidade (o post sobre isso ficou no rascunho), ela olhou para mim, satisfeita: "Nossa, Thaís, tendo em vista tudo isso, ele está ótimo. Ele poderia ter tido uma gripe bem mais forte, pois nosso corpo reflete nosso estado emocional. Ele demonstrou que tem uma capacidade de superação incrível, isso que ele teve não foi nada perto do que poderia ter vindo em decorrência dessas mudanças todas." 

Fiquei pensando muito nisso. Em como nosso corpo dialoga com nossa alma, nossas emoções. Em como as crianças podem ser mais ou menos suscetíveis a isso, dependendo da forma como conduzimos (nós, adultos) as situações. Em como podemos nos surpreender com a fortaleza de seres tão pequenos. Ele já está todo faceiro. E eu estou aqui, um verdadeiro bagaço de mãe-mulher-profissional. Mas vamos que vamos. Tenho certeza que ele e Nuno serão capazes de me ajudar a reenergizar nesse final de semana... E que venham dias melhores.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

MÃE X PROFISSIONAL: SERÁ?


Hoje cedo, ouvi de uma pessoa muito querida algo assim:

"Você precisa decidir se quer ser uma boa mãe, ou quer ser uma boa profissional. As duas coisas não tem jeito. Você pode até optar pelas duas, mas vai ser tudo meia boca: mãe meia boca e profissional meia boca."

Será? Eu acho que não é bem assim, mas não vou falar disso agora. Quero ouvir opiniões, o que pensam disso? 



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

RELATO DO PARTO DE CAIO - PARTE 3

[continuando...]

As vésperas

Passei a 38ª semana praticamente toda na rua, dirigindo pra lá e pra cá, andando pra baixo e pra cima atrás de tudo que faltava para completar enxoval, quartinho e cia. Na sexta feira (dia 04/04), estava no trânsito quando senti umas contrações um pouco mais doloridas, mas nada que me chamasse muito a atenção (afinal, eu já vinha sentindo contrações há pelo menos umas 3 ou 4 semanas e, desde o descolamento de membranas, elas eram levemente doloridinhas). Ao longo desse dia tive mais algumas pontadas dessas, mas nem tchuns.

Minha irmã e meu cunhado tinham acabado de voltar de uma viagem para Índia, e estariam em Araraquara no sábado (05/04), para encontrar todos e mostrar as fotos. Eu queria muito ir, mas Dani estava fazendo o maior terrorismo, dizendo que eu não deveria ir, pois, caso eu entrasse em TP, o fato de estar lá melaria nossos planos. Ele inclusive decidiu que não ia de jeito nenhum, pra ver se me fazia mudar de ideia.

Fiquei triste e puta com essa atitude dele, e resolvi ligar para a Vânia antes de decidir o que fazer. Lembro perfeitamente do que ela disse: “Seu parto pode demorar ainda até mais quatro semanas. Prepare-se para isso, pois se você ficar achando que o bebê pode nascer a qualquer momento, você vai ficar muito ansiosa. Vai tranquila!” Na hora liguei para o meu pai e ele topou vir me buscar e me trazer de volta à noite. Na viagem de ida, senti umas contrações bem fortinhas, mas fiquei na minha. Chegando na casa dos meus pais, mais uma contração e fui direto pro banheiro, levar um papo com o bebê: “filhote, pelo amor de Deus, não vai resolver nascer hoje, espera a mamãe voltar pra São Carlos!” Rá!

Parece que ele me ouviu, e o resto do tempo fiquei super bem, sem contrações. Pude curtir a festinha, conversar com pessoas queridas, curtir minhas irmãs, ver as fotos. Uma grande amiga da família, Tia Sandra, me disse algo que nunca esqueci: “Thaís, você vai saber quando chegar o dia, a gente acorda se sentindo tão estranha...”

Na volta para casa, mais algumas contrações daquelas. Mas cheguei em casa sã e salva, e fui direto dormir.            

A chegada - a experiência mais incrível de nossas vidas

No domingo, dia 06 de abril, eu acordei me sentindo estranha... Mas faltavam ainda dez dias para a data prevista para o parto, então nem associei aquilo com o que tinha ouvido da Tia Sandra no dia anterior. Achei que era mais um dos “surtos” emotivos que tive ao longo de toda a gravidez, e não dei muita bola. Na verdade, eu estava com “faniquito” de arrumação, comecei a arrumar a casa inteira, que estava uma zona, resolvi lavar TODAS as roupinhas do Caio de uma vez, e enquanto eu fazia tudo isso, resmungava para o Dani que a nossa casa estava um horror, que dizem que um bebê só vem ao mundo quando o ninho está pronto, e o nosso ninho estava uma bagunça, que o Caio poderia nascer a qualquer momento, e olha só como ia estar a casa, imagina se ele resolvesse nascer hoje, não ia ter condição nenhuma, e bláblábláblá....... E, além de arrumar e reclamar, eu também chorava entre uma coisa e outra!

O Dani não acreditava, ele não estava entendendo nada: no início, tentou me acalmar, aos poucos foi perdendo a paciência e, de repente, explodiu: “mas o que tá acontecendo com você, tá parecendo uma criancinha, não tô te entendendo!” E eu chorava mais ainda, e dizia pra ele que alguns psicólogos diziam que as mulheres se infantilizam no final da gravidez, como uma reação ao medo da transformação em mães, e bláblábláblá..... e mais chororô. Uma coisa.

No fim desse louco dia, minha irmã (a que tinha voltado da Índia) passou aqui na volta de Araraquara para São Paulo, para ver o quartinho do bebê e conversar mais conosco, já que no dia anterior quase não tínhamos conversado. Aí resolvi contar para ela nossa decisão pelo parto domiciliar, senti que ela me apoiaria, e eu precisava muito falar sobre isso com alguém de confiança, foi muito difícil guardar essa decisão só para nós. Ela disse que queria participar do parto, que poderia fotografar, que a gente avisasse ela quando sentíssemos que seria o dia que ela viria de São Paulo para cá. Ficamos de conversar (pois não queríamos muita gente em casa no dia do parto, e já tínhamos conversado sobre a possibilidade da Rosa, prima do Dani, que estava fazendo curso de doula, acompanhar e registrar o parto). Umas 19:30hs ela foi embora, tive mais uma explosão de choro, eu e Dani conversamos profundamente, eu me acalmei e resolvemos fazer nosso plano de parto.

Estávamos sentados no chão da sala, lendo vários planos de parto e identificando aqueles que poderiam nos auxiliar a escrever o nosso, quando comecei a sentir umas contrações diferentes. Eram umas 21:30hs. Naquela intensidade que havia sido o meu dia, eu não havia sentido nenhuma contração. Mas agora que eu tinha parado, relaxado, elas vinham, e vinham fortes, mais fortes que todas que eu já tinha sentido até ali. E vinham com mais frequência, mais perto umas das outras... Nos olhamos, apreensivos e com um sorriso nervoso, mas sem afobação, e decidimos marcar o intervalo das contrações. Eu falava e Dani marcava. Os intervalos não eram muito regulares, o que nos tranquilizou um pouco: ora vinham de 15 em 15, de 7 em 7, de 10 em 10... Ficamos mais um pouco lendo os relatos, mas logo caímos na real: talvez o parto acontecesse logo, não ia adiantar nada fazer um plano de parto àquela altura!!

Dani sugeriu que fôssemos descansar, porque se o trabalho de parto engrenasse, o dia seguinte poderia ser longo (imaginávamos um trabalho de parto de, no mínimo, 12 horas, de acordo com os relatos e experiências que conhecíamos). Ele foi deitar por volta de umas 23hs e eu fiquei na sala lendo, estava meio ansiosa, não ia conseguir dormir... Estava lendo justamente o livro “Nascer Sorrindo”, do Leboyer, e as contrações começaram a ficar mais próximas... Resolvi deitar e descansar, Dani estava certo, eu precisava estar bem disposta caso o parto realmente fosse acontecer no dia seguinte. Me troquei, deitei na cama, de lado, não conseguia ficar, de costas, também não... resolvi ler mais um pouco, na cama mesmo.

As contrações foram se intensificando, comecei a marcar o tempo silenciosamente, pra não acordar o Dani, e percebi que elas já estavam regulares, de 7 em 7 minutos... “Dani, você tá acordado? Eu tô  achando que vai ser hoje mesmo, as contrações estão mais regulares...” E, ele: “então apaga a luz, vamos descansar, deita aqui”... Obedeci e, na primeira virada que dei para me ajeitar na cama, veio uma contração bem intensa, senti um movimento bem forte do bebê, e uma água escorreu nas minhas pernas: “Dani, acho que a bolsa estourou, agora não tem mais volta!” Eram 00:30hs. Rimos, eu me levantei e fui ao banheiro, pingando líquido amniótico pela casa inteira! Lá ainda escorreu mais um pouco de líquido, me limpei, me troquei e decidimos ligar para a doula, Vânia.

Ela atendeu super rápido, parecia que estava esperando nossa ligação. Não tínhamos certeza se já era hora dela vir, mas depois de fazer umas perguntas, ela mesma concluiu que era hora de vir, me lembro exatamente de suas palavras: “se vocês estão tranquilos, daqui uns 40 min no máximo estou aí. E vamos trabalhar!”

Depois disso, minha lembrança é toda feita de flashes, não tenho muita noção do tempo que as coisas levaram para acontecer, nem da sequência exata entre elas... Vou relatar conforme as coisas me vêm à lembrança, e espero contar com a ajuda do maridão para completar esse relato...

Lembro que troquei de roupa umas duas vezes antes da Vânia chegar, por conta do líquido amniótico que não parava de escorrer, e também porque queria encontrar uma roupa na qual me sentisse confortável, e estava um pouco frio. Fiquei andando pela casa, me movimentando, sem pensar em nada, apenas procurando encontrar posições nas quais eu me sentisse confortável. Sentei na bola (que a Vânia já tinha me emprestado há algum tempo), e fiquei rebolando bastante, tentei realizar algumas posições da yoga, mas somente a posição do gato (apoiada de quatro no chão, movimentando o quadril em vários sentidos) me aliviava um pouco: a coisa começava a ficar poderosa, já não havia muito mais o que fazer para amenizar as fortes contrações que ficavam cada vez mais próximas.

A Vânia chegou mais ou menos nessa fase, eu estava na sala, sentada na bola, conversamos um pouco sobre como eu estava, e logo mais uma forte contração na qual saiu grande quantidade de líquido amniótico. Fui novamente me trocar, Dani ficou limpando a sala, e Vânia foi “se instalando” na casa, trouxe um cd bem bacana de músicas instrumentais (que depois eu vim saber que tinham como tema a “Água”) que colocamos para tocar no escritório, começou a me fazer umas massagens na lombar... 

contração
a única foto do início da  fase ativa do TP...
Lembrei da máquina fotográfica, Dani tirou uma foto e a bateria acabou: não acreditei! Essa era apenas mais uma das coisas que estavam despreparadas, já que não tínhamos imaginado que nosso meninão resolveria nascer mais de uma semana antes da data prevista... a máquina descarregada, quase não tínhamos comida em casa (eu ia fazer supermercado no dia seguinte, tinha planejado que queria canja e sorvete para o dia do parto! Acabou ficando para o dia seguinte!), as roupinhas do bebê TODAS molhadas... Mas fomos nos virando: botamos a máquina para carregar, Dani me preparou um chá com torradas e mel para me dar mais energia. Tentei comer entre as contrações, mas as ondas ficavam cada vez mais fortes, e eu mal conseguia mastigar.

Enquanto eu tentava comer, decidimos, com Vânia, que já era hora de ligar para a Jamile. Eu andava pela cozinha, Dani me apoiava e massageava durante as contrações e Vânia ligava para ela. Primeira tentativa, no celular, ninguém atendeu. Nova tentativa no celular, e nada. Decidimos tentar na casa, pois era de madrugada, o celular poderia estar desligado... Nada. Comecei a ficar um pouco aflita, pois as contrações apertavam, mas elas me absorviam tanto, e Vânia me passou tanta segurança, que abstrai. Deixei nas mãos dela e do Dani essa preocupação, e continuei me movimentando pela casa, andando e rebolando nos intervalos, e parando, me apoiando, e por vezes me acocorando durante as contrações. Enfim, depois de uma idéia de gênio da Vânia, conseguimos nos comunicar com Jamile: a Vânia ligou na maternidade cheia de lábia para tentar conseguir o número do celular do marido da Jamile, que é médico, e as atendentes não deram, é claro. Mas pouco depois o telefone de casa tocou, elas tinham ligado para ele e Jamile logo imaginou que éramos nós: ufa, senti um alívio incrível ao saber que Jamile estava a caminho, as contrações já estavam bastante incômodas, e eu queria entrar na água... Não daria tempo da Jamile montar a banheira, mas para mim, naquele momento, o chuveiro estava ótimo!!!

Perguntei para a Vânia se já podia entrar (porque sabia que, entrando na água no momento errado, o TP poderia estacionar) e ela liberou. Lembro também de ter perguntado se ela achava que até a hora do almoço o bebê já teria nascido, e ela disse, confiante: Antes de nascer o dia já vai ter bebê nessa casa! Eu e Dani nos olhamos estarrecidos e felizes, animados com a possibilidade de logo ter nosso bebê nos braços. Foi um estímulo e tanto, dado na hora certa, e totalmente verdadeiro! Por essas e outras a doula foi tão tão tão importante no nosso parto.

Que delícia foi entrar no chuveiro, pedi para o Dani entrar comigo, ele e Vânia prepararam tudo no banheiro, levaram o som, reduziram as luzes, trouxeram a bola, e ele ficou comigo dentro do box, me dando todo o apoio físico e emocional que eu tanto precisava. Relaxei muito no chuveiro, com o apoio do Dani e as massagens da Vânia, embora as contrações só aumentassem de intensidade e reduzissem os intervalos... Mas era exatamente como eu tinha lido em tantos relatos, a natureza é tão sábia que os intervalos tinham a função perfeita de me reestabelecer e me relaxar para a próxima contração, que vinha sempre mais forte que a anterior... Eu relaxava muito, muito mesmo entre uma contração e outra. (Na realidade, intuitivamente acho que eu sabia que teria meu filho debaixo do chuveiro: durante toda a gravidez foi o lugar onde eu mais conseguia relaxar, onde eu mais conversava com o “meninão” - como eu costumava chamar o Caio, já que ele não tinha nome ainda... -, onde mais eu me conectava comigo mesma e com ele, onde mais eu ficava projetando como seria o momento do parto...)

mãos de fada
água e massagem da doula, substitutos da anestesia
A partir de agora, me lembro menos ainda, eu já estava pra lá de Bagdá, acho que estava na Partolândia, como costumavam brincar nas listas de discussão... A Jamile chegou, acho que a Vânia que a recebeu, me lembro dela ter conversado comigo do seu jeito sempre doce, perguntou como eu estava me sentindo, e já foi preparando tudo no banheiro para iniciar sua atuação, e colocou a banqueta de cócoras dentro do box para o caso de eu querer usá-la. Ela logo auscultou o bebê, lembro que nessa hora fiquei um pouco tensa, pois ela ficou um tempo auscultando sem comentar nada, mas estava tudo ótimo. Ela também achou necessário fazer um exame de toque, para sabermos como estava evoluindo a dilatação, e, delicadamente, perguntou se eu me incomodaria de irmos até o quarto, para que ela pudesse me examinar deitada... Mas eu não podia nem pensar em sair do banheiro, muito menos em deitar, e ela, perfeita no seu papel de me apoiar e evitar me incomodar ao máximo, se desdobrou para fazer o toque comigo sentada na banqueta de cócoras (foi o único, em todo o TP). Ela não precisou a dilatação, apenas disse que estava bem perto, que ela havia tocado a cabeça do bebê.

Depois disso, ela manteve-se absolutamente discreta, fazendo seu trabalho nos bastidores: preparando tudo para receber nosso filhote no banheiro, percebendo que todas as roupinhas e touquinhas do caio estavam molhadas e se organizando com a Vânia para secá-las com o ferro, preparando o quarto para nos receber após o parto... A Vânia se dividia entre ajudá-la, me massagear, trazer comida e, sem eu nem perceber, tirar fotos e filmar ao menos a reta final do parto, quando a bateria da máquina já tinha carregado um pouco (se não fosse ela não teríamos nenhuma imagem desse dia tão especial!). Enquanto isso, as contrações vinham como ondas que me inundavam, que me tiravam de órbita, e em seguida um relaxamento absoluto. Lembro de ter me focado muito na minha respiração, como tinha aprendido ao longo das práticas de yoga, o que me ajudou muito a suportar as avalanches de dor e também a relaxar entre elas. Em dois momentos me senti um pouco fraca, e com fome, e Vânia e Dani se revezaram para me atender com sucos e frutas, que eu mal conseguia comer (os líquidos caíam bem melhor). 

doula paciente parteira porreta
doula e parteira se revezando nos cuidados comigo
Uma das coisas de que me lembro bem é de ter gritado bastante! Lembro que eu comecei a gritar, minhas cachorras começaram a uivar, e de repente todos os cachorros do bairro estavam latindo e uivando... foi um momento cômico, nem eu me aguentei e caí na risada. Mas logo voltei pra partolândia, já estava em um ponto em que as dores atingiram um pico incrível, eu me pendurava no pescoço do Dani para me apoiar e aguentar as fortes ondas, as contrações cada vez mais próximas umas das outras. Nesse momento, até a água, que até então tinha sido meu alívio, começou a incomodar: eu sentia as gotas como que pinicando minha lombar, e pedi para desligarem o chuveiro. 

apoio
Dani me apoiou física e emocionalmente, o tempo todo
parir junto

De repente, a vontade incrível de fazer força: lembro que perguntei se eu já podia fazer, e a resposta de Jamile foi: se você está com vontade, pode fazer. Foi muito bom ter autonomia total nessa hora, sem ninguém pra me dizer o que fazer (tipo: “faz força, fica assim, assado”...) - eu perguntava o que tinha dúvida, e a Jamile ia me orientando. Em algum momento, já na reta final do expulsivo, ela sugeriu que eu sentasse na banqueta de cócoras, pois eu já estava bem cansada (e Dani com as costas arrebentadas! Rá!). Foi incrível ver como o meu corpo sabia o que tinha que ser feito, sem pieguice: a vontade de fazer força veio, e já era hora de nascer. Jamile perguntou se eu queria ver a cabeça saindo, preferi não ver (depois me arrependi um pouco), mas toquei e foi uma sensação indescritível, misto de emoção e aflição. A percepção de que em muito pouco tempo meu bebê teria completado a passagem para o lado de cá da barriga me encheu de força pra seguir ajudando-o, apesar daquela sensação de que algo estava me partindo ao meio! 
    
Depois da descida do bebê, essa sensação passou, restou uma queimação (o tal círculo de fogo, imagino, tão comentado nos relatos de parto) e, em algumas contrações meu bebê nasceu: na primeira, a cabeça. Depois de algumas, o corpinho! Eu mal podia acreditar... Jamile o amparou, colocou uma touquinha e uma mantinha aquecida em torno dele e o colocou no meu colo imediatamente. Eu realmente não conseguia acreditar que ele já estava ali... fiquei meio embasbacada... mas, ao contrário do que imaginava, eu não chorei: fiquei ali, grudadinha com ele, sentindo aquele cheiro delicioso que jamais esquecerei. Dani nos olhava completamente emocionado, rindo e chorando ao mesmo tempo.  

sem palavras...
nossos primeiros instantes juntos
Tentei colocar ele no seio, mas ele não quis; Jamile e Vânia disseram que era normal, que no tempo dele ele iria mamar. Elas me ajudaram a levantar da banqueta, me enrolaram numa toalha, e eu segui com ele no colo, ainda ligados pelo cordão umbilical, até meu quarto. Jamile e Vânia já tinham preparado tudo, forrado a cama, separado a roupinha, organizado o material que iriam precisar. Deitei na cama com ele sobre meu peito e logo ele começou a mamar, como se sempre tivesse feito aquilo, sem brincadeira. Dani cortou o cordão umbilical depois que parou de pulsar. Mamou um pouco, depois parou, nos olhamos e eu disse: “Filho, você acredita que você já nasceu? A mamãe não tá acreditando ainda!”. Ficamos ali deitadinhos, Dani a nos olhar, Jamile e Vânia saíram um pouco para nos deixar curtir sozinhos aquele momento tão especial. Nos emocionamos demais!

Até esse momento, ainda não tínhamos decidido o nome, estávamos entre Téo e Caio (a história da decisão, aqui). Quando Jamile voltou, para acompanhar a expulsão da placenta e verificar a laceração no períneo, Dani pegou o bebê para que eu pudesse me concentrar na finalização do processo. A expulsão da placenta foi uma parte bem desagradável, já que eu não tinha me preparado para aquilo, não sabia que eu continuaria a sentir contrações, que teria que fazer força para expulsá-la... Eu relaxei tanto depois do parto, que a placenta simplesmente não saía... Ficamos cerca de 1 hora nessa etapa, Dani ia e vinha com o bebê, eu tentava fazer força, Jamile me massageava, fez acupuntura, até que pedi um apoio para os pés (eu estava deitada, talvez, se estivesse de pé, fosse mais fácil), fiz força e ela saiu inteira, ainda bem! Não pensamos em fazer nada com ela, e foi descartada. Em seguida, Jamile suturou a laceração, o que também foi bem chatinho, e novamente ficamos só eu, Dani e Caio, agora já com nome.

pai babão
papai apaixonado
amamentação já! 1
amamentação na primeira meia hora, com ajuda da doula e da parteira


parir em casa 2
primeiros cuidados em nossa cama...
 Enquanto ficamos nós três curtindo, Jamile e Vânia foram para a cozinha e prepararam um delicioso caldinho de feijão (a única coisa que conseguiram fazer com o que tinha em casa, pois estávamos desprovidos, o supermercado seria feito no dia seguinte...), que comi na cama mesmo, como se não houvesse amanhã! Foi perfeito. Enquanto eu comia, Dani e Vânia ajudavam Jamile a pesar e medir o bebê, e o vestiram. Apenas quando tudo estava feito, limpo e tranquilo, é que elas foram embora, às 7 da manhã!!! Nessa hora, nossa ajudante estava chegando, e quase caiu para trás ao saber que nosso bebê já tinha nascido, e em casa. Deitamos os três na nossa cama, e dormimos deliciosamente até quase 11 da manhã, quando levantamos e começamos a ligar para avisar familiares e amigos do nascimento de Caio. Nada como parir em nossa própria casa, do nosso jeito, com nossas coisas, e receber as visitas nesse clima delicioso! 

 ****************** 

Caio nasceu às 4:18 do dia 07 de abril de 2008, pesando 2.820kg, medindo 49cm e recebeu apgar 10/10. Não recebeu nenhuma medicação e não sofreu nenhum procedimento invasivo. Esteve junto a mim ou ao pai durante todo o tempo desde o primeiro minuto de sua vida. Nasceu "sorrindo", como acredito que todo nascimento deveria acontecer.

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Agradeço a todos os envolvidos direta ou indiretamente para que nosso parto, o nascimento do Caio, nosso nascimento enquanto pais pudessem ocorrer da forma como acreditamos e desejamos! Muito obrigada, mesmo! E, especialmente ao Caio, por ter nos proporcionado a maior experiência de nossas vidas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

RELATO DO PARTO DE CAIO - PARTE 2

[continuando...]

A reta final e a decisão pelo parto domiciliar

Na volta da viagem a Salvador, já entrando no terceiro trimestre, começamos a pensar com mais detalhes sobre como queríamos - e poderíamos - fazer o parto. Apesar do parto domiciliar já me passar pela cabeça, como disse, o parto hospitalar ainda era a primeira opção, tanto por medo do marido, quanto pela questão financeira e, principalmente, pelo fato de todos os profissionais que eu sabia que atendiam esse tipo de parto no Estado serem da cidade de São Paulo (ou seja, teriam que viajar cerca de 3hs até aqui).

Resolvemos fazer uma visita à maternidade e à casa de saúde, os dois locais onde se realizam partos na cidade. A visita à maternidade foi um pesadelo: o ambiente hospitalar branco e frio, uma enfermeira despreparada e um discurso pronto de apresentação do local para quem já está com a cesárea agendada. A todo tempo precisávamos interromper e perguntar: “mas, e se for parto normal? Nós queremos fazer parto normal!!” Muitas vezes ficamos sem resposta, ou apenas com um vago: “se você conseguir normal, é um pouco diferente, mas não muito”. E só. Saímos de lá emputecidos, chocados diante daquela apresentação de uma verdadeira “linha de produção” de cesáreas eletivas.

A visita à casa de saúde foi um pouco melhor (ou menos pior), já que o local era pouco procurado, por não ter alguns equipamentos (como o cardiotoco) e não ter a UTI neonatal, e o ambiente era um pouco mais acolhedor, com menos cara de hospital (porque, além do pavor que sinto de hospital, por associá-lo diretamente a doença, falta de saúde, procedimentos invasivos, funcionários burocratizados, em geral o ambiente hospitalar é extremamente inóspito, e eu, inclusive por ser arquiteta, acho que os espaços interferem diretamente nas práticas e relações sociais: assim, se o espaço era melhor, se eu pudesse escolher entre os dois ambientes, ficaria com a casa de saúde).

Só que, como mencionei antes, a Dra. Carla daquela época (porque hoje ela é outra médica, muito mais incrível: que o diga seu lindo blog, Parir é Natural) não dispensava o cardiotoco, e a casa de saúde não tinha o equipamento. Buscamos nos informar também sobre hospitais da região – Araraquara, Rio Claro e mesmo Ribeirão. Sobre esta última cidade, ficamos sabendo que a situação era pior que aqui; em Araraquara, a Gota de Leite, maternidade que desenvolvia um projeto minimamente “humanizado”, havia sido fechada. Mas, através de uma amiga grávida soubemos que o hospital da Unimed em Rio Claro tinha um quarto próximo a um PPP, inclusive com uma cama que permitia partos na vertical. Sondamos a possibilidade de termos nosso filho lá, atendidos pela Dra. Carla, mas isso não era possível devido a burocracias da Unimed. Ou seja, o cerco estava se fechando, o terceiro trimestre avançava e eu ainda não sabia onde parir.

Nesse meio tempo, um casal de amigos teve um parto domiciliar em Campinas e o maravilhamento deles quando fomos visitá-los, o desejo de falar do parto, de compartilhar o que tinham vivenciado conosco nos tocou profundamente. Era muito diferente de tudo que havíamos acompanhado nos partos de amigos até então, nunca ninguém tinha nos falado da experiência do parto daquela forma. Depois, tivemos a oportunidade de assistir ao vídeo do parto desse casal, e ficamos encantados. Era daquela forma que queríamos que nosso filho nascesse, com certeza, e aquilo já não parecia tão distante e absurdo, não era coisa de filme gringo, tinha acontecido com “gente como a gente”.

Além disso, eu, viciada que estava em relatos de parto, comecei a buscar mais e mais relatos de partos domiciliares (sempre eram os que mais me emocionavam!), até que encontrei um que foi decisivo na nossa escolha: o relato da médica GO Cátia Chuba, de seu VBAC domiciliar. Nesse relato ela enfatizava muito o processo de tomada de decisão dela e, principalmente, do marido: foi a gota d´água para que Dani embarcasse na ideia comigo, e começássemos a pensar mais seriamente na possibilidade de ter nosso bebê em casa.

Assim, a reta final foi se aproximando e o desejo de ter nosso filho em casa foi crescendo. Mas ainda tínhamos dois problemas para resolver: com quem fazer o parto, já que havíamos sondado a Dra Carla e ela disse que não toparia fazer em casa (hoje em dia ela faz!), e como viabilizar recursos para isso, já que nossa grana estava bem curta e as notícias dos custos do parto domiciliar daquele casal de amigos estava totalmente fora do nosso alcance (eles fizeram com GO e neonato, além da doula). A Vânia foi fundamental nesse momento: ela nos encorajou, dizendo que com uma parteira o custo seria menor e que certamente seria possível negociar valores e condições de pagamento, nos passando contatos e nos informando também sobre a Jamile, enfermeira obstetra da cidade que, ao que tudo indicava, começaria a fazer partos domiciliares na região.

Fiz um primeiro contato com a Dra. Betina, médica que tinha realizado o parto daquele casal de amigos, e ela foi super receptiva, mas teríamos que fazer algumas consultas em SP e, com a barriga que eu estava, me desanimei um pouco. Também fiz contato com a pediatra Ana Paula Caldas, pra saber sobre o parto domiciliar dela e obter o contato da parteira Vilma Nishi, e ela também me encorajou muito. Por fim, entrei em contato com Vilma, que também foi muito atenciosa, mas disse que estava com muitos partos no mesmo período do meu, e não gostaria de arriscar. Mas aí ela me disse que estava sabendo de uma parteira daqui, que estava decidida a fazer partos domiciliares, a Jamile! Falamos com Vânia, que confirmou a notícia, dizendo inclusive que Jamile já estava com um PD programado em Ribeirão Preto. Foi a melhor notícia do dia!

Assim, nossos contatos com Jamile começaram na segunda quinzena de fevereiro. Apesar dela ainda não ter realizado nenhum parto domiciliar até então (o primeiro estava previsto para pouco antes do meu), ela tinha uma vasta experiência em acompanhamento de partos normais (tinha sido enfermeira-chefe da maternidade), nós tivemos muita empatia com ela logo de cara, os valores cabiam no nosso bolso (e ela foi super maleável conosco) e, o melhor, ela era de São Carlos, poderíamos nos encontrar com tranquilidade até a data do parto. Alguns encontros depois e estávamos definitivamente decididos pelo Parto Domiciliar.

Essa decisão só se reforçou quando ocorreu o segundo episódio que poderia ter me tirado do caminho do parto que eu desejava. Eu estava com a defesa do mestrado marcada para 26 de março (quando eu completaria 37 semanas!), e teria uma consulta com Dra. Carla no dia 28. Entretanto, uma paciente havia parido e, com isso, um horário havia liberado no dia 25 de manhã, e minha consulta foi reagendada. Mal sabia eu o que me esperava para aquele dia!

Durante o exame de rotina, Dra. Carla fez um exame de toque e, sem me consultar, realizou um descolamento de membranas, para “incentivar” o trabalho de parto, dando início à dilatação. Na hora fiquei meio passada, não entendi o que tinha acontecido, mas depois, conversando com Dani e com Vânia, fiquei muito brava, pois, além de ser uma intervenção desnecessária, comecei a sentir contrações diferentes das que vinha tendo até então, um pouco mais doloridas, e eu estava às vésperas da minha defesa de mestrado! Além disso, achei um absurdo ela ter feito isso sem me consultar, sem nem sequer perguntar se eu queria, sem nem sequer me informar que ia fazer. Simplesmente foi lá, e fez.

Em seguida, ao auscultar os batimentos do bebê, ela percebeu alguma alteração e ficou um pouco apreensiva. Como eu estava às voltas com a apresentação para a defesa, e fui para a consulta com o estômago um pouco vazio (era perto da hora do almoço), ela me pediu para comer algo e ir até a maternidade para realizar uma cardiotocografia, para termos certeza de que tudo estava bem. Fiquei muito angustiada, em primeiro lugar pelo bebê e, em segundo, pois diversas amigas que pretendiam ter parto normal acabaram em cesáreas justamente após esse bendito exame. “Sofrimento fetal”, o diagnóstico fatal.

Eu e Dani saímos tensos do consultório, passamos numa lanchonete pra comer algo e seguimos pra maternidade. Fui encaminhada para um quarto, e uma enfermeira me conectou ao cardiotoco. Três pessoas diferentes (2 enfermeiras e um médico) vieram monitorar o aparelho, e cada uma delas falava uma coisa sobre os resultados. Após um tempo, uma das enfermeiras veio e deu aquela terrível buzinada na minha barriga. Depois de um tempo, o médico veio e, não confiando no exame da enfermeira, deu mais uma buzinada e, depois, outra ainda. Meu bebê, coitado, imagine o susto que não levou... 3 buzinadas de uma vez!!!

Mas o pior ainda estava por vir: o médico olhou o exame, disse que o bebê tinha tido uma leve alteração nos batimentos, mas nada significativo. Fiquei bem aliviada. Só que a enfermeira que veio me liberar e entrar em contato com a Dra. Carla, já tinha uma opinião diferente, de que as coisas não estavam tão bem. Ela me disse que tinha falado com a Dra., e que era pra eu ficar internada pra fazer um ultrassom. Entrei em pânico: me internar naquele hospital, sem falar diretamente com minha médica, com 37 semanas de gravidez, às vésperas da minha defesa? Olhei para o Dani, e nem precisei dizer nada: ele, até que elegantemente para os seus padrões (rá!), disse à enfermeira que não iríamos internar, que iríamos sair, almoçar, falar com nossa médica e, se fosse o caso, voltaríamos após o almoço (até porque ninguém merece almoço de hospital!!).

Dani foi fundamental nesse momento, me acalmou demais. Eu liguei para a doula, que também foi perfeita, ao me dizer: “Thaís, o que você está sentindo? O bebê está mexendo? Você está se sentindo bem? Você sente que o bebê está bem? Vai almoçar, se acalme, e tente falar com a Jamile, ela sim pode fazer uma avaliação profissional da situação”. Foi exatamente o que fiz. Almoçamos num lugar legal, me acalmei, liguei pra Jamile, que foi incrível: se dispôs a ir até minha casa olhar o resultado do exame, para me dar um parecer mais concreto. A essa altura a preparação da apresentação para a defesa do mestrado já tinha ido pro saco, e eu já começava a ter a dimensão da transformação que a maternidade traria para minha vida. Primeiro o bem estar do meu filho, depois todo o resto.

Logo depois do almoço Jamile foi até minha casa, me examinou, analisou o resultado do exame e me tranquilizou, dizendo que o cardiotoco é um equipamento muito controverso, que dá muito falso positivo. E, mais: feito da forma que foi, com 3 buzinadas consecutivas, o resultado se tornava menos confiável ainda. Ela interpretou o pedido de internação da Dra. Carla como uma tentativa de averiguar rapidamente a situação, através de um ultrassom, já que, se eu fosse realizar fora da maternidade, dificilmente conseguiria agendar para o mesmo dia, a menos que a Dra Carla conversasse em alguma clínica.

Ela estava certa: quando finalmente consegui falar com a Dra. Carla, ela confirmou que a ideia era essa, que sem o pedido de internação eu não conseguiria realizar a ultra. Perguntei se ela não poderia interceder em alguma clínica e ela disse que não, mas que ela considerava imprescindível que eu realizasse um ultrassom naquele dia, fosse na clínica ou na maternidade. Liguei na maternidade pra saber se eu ainda conseguiria fazer lá, caso me internasse, e soube que eu teria que passar a noite lá, para fazer a ultra no dia seguinte. Nas clínicas, nenhum horário.

E mais uma vez Jamile entrou em cena: disse que, apesar de considerar que estava tudo bem, eu deveria fazer o ultrassom para poder ir tranquila para a defesa. Ela ligou pessoalmente numa clínica, intercedendo por mim, e acabou conseguindo a consulta para o fim daquele dia. Bom, pra encurtar a história, já que esse relato tá parecendo um livro, desencanei da apresentação pra defesa (decidi fazer na cara e na coragem, sem powerpoint e o escambau), fiz a ultra quase nove horas da noite e, CLARO, estava tudo ÓTIMO comigo e com o bebê. Tudo na mais santa paz. UFA, de novo.

Mestrado defendido com louvor, contrações e piadinhas da banca (que, thanks god, era toda composta de mulheres e todas mães!), e no fim da semana fizemos aquela que seria a última consulta com a Dra. Carla. Logo de cara coloquei minhas questões quanto àquela intervenção e ela, super atenciosa como sempre, me ouviu atentamente, disse que nunca havia ocorrido a ela perguntar à paciente antes, já que ela considerava aquilo uma “intervenção de rotina” para a parturiente que desejava parto normal, pois “aceleraria” o TP, e se desculpou ao final. Além disso, nessa consulta ela me perguntou se eu queria que fizesse um novo toque, para verificar a dilatação, eu disse que não, e ela respeitou.

Também conversamos sobre a confusão do cardiotoco e, ao ver o exame (que até então ela não tinha visto, só ouvido falar pela enfermeira da maternidade) ela chegou à mesma conclusão que a Jamile, com um adendo de que eu tinha “dado azar” de pegar uma equipe ruim na maternidade, porque existiriam outros profissionais melhores lá, e ela tinha ficado desconfiada do resultado também por conta disso (já pensou parir lá e dar esse “azar”? Nem morta). Mas, novamente, me fazendo rever todos os meus conceitos sobre a suposta onipotência médica, ela me pediu desculpas, disse que estava numa semana atribulada, e que tinha havido uma falha em nossa comunicação, que ela poderia ter deixado as coisas mais claras para mim, de modo que eu não me assustasse com o pedido de internação, e mesmo pudesse optar por ir fazer a ultra em outro lugar. Achei essa atitude dela fantástica.        
                                                                                                         
Nessa mesma consulta, ela ainda ponderou, dizendo que nossas expectativas em relação ao parto eram altas, e que ela sabia das limitações da maternidade daqui (e que todo esse ocorrido era apenas uma amostra da situação). Disse também que ela, como médica, nessas condições, não conseguiria nos dar o parto que tanto desejávamos, e sugeriu que devíamos fazer mesmo com a Jamile, que ela confiava nela de olhos fechados, que certamente não teríamos problema. Mas, pra fechar com chave de ouro, ainda se colocou à disposição para ficar na retaguarda, caso precisássemos ir para a maternidade. Fiquei muito feliz com esse desfecho, e tive certeza de que tinha escolhido a médica certa, apesar dos percalços que tivemos no caminho.

Depois dessa história toda, eu já estava entrando na 38ª semana, me encontrando e/ou conversando por telefone frequentemente com Jamile e com Vânia, continuando minhas práticas de yoga e hidroginástica, e finalizando todos os preparativos para a chegada do bebê. Nessa reta final, fizemos - eu, Dani e Vânia - uma oficina com Katrina, minha professora de yoga, para conhecer e experimentar posições de alívio para o TP, e isso foi bem legal para irmos “entrando no clima” (em especial para Dani sacar a importância do seu papel na hora do TP) e também para nos sintonizarmos ainda mais com a doula.

Desde que havíamos tomado a decisão, vínhamos tentando conversar sobre parto domiciliar com pessoas de nossas famílias e com amigos, mas a receptividade sempre era muito ruim, e acabamos decidindo não contar a ninguém sobre nossa escolha: somente quem sabia, além dos envolvidos diretamente, eram nossa GO, minha homeopata (que já havia me receitado gotinhas PPP – rá! -  que foram fundamentais!!), a Rosa (minha amiga e prima do Dani) e a Ana, a amiga que tinha tido o PD em Campinas. Se, por um lado, isso era um pouco angustiante, por outro, não queríamos interferências indesejadas, palpites e energia negativa sobre nossa decisão.

A partir de então, passei a ter aquela sensação de que o trabalho de parto poderia se iniciar a qualquer momento, mas nem tive tempo de ficar ansiosa com isso...

sexta-feira, 11 de março de 2011

O FIM CÔMICO DE UM DIA DIFÍCIL

Cinco dias de carnaval, chuvosos, praticamente o tempo todo dentro de casa (com raras saídas pra cineminha, casa da vó, casa de amigos). Tempo cinza, frio, quase mofamos. Imunidade caiu, do filhote e da mãe barriguda. Mas até que nos viramos, sacudimos a poeira, nos divertimos como deu, driblando febrinhas e tals.

Feriado acabou, o filhote ainda tava assim-assim e decidi ficar com ele hoje o dia todo, porque na escolinha, né? Todo mundo de nariz escorrendo e a coisa não sara nunca. E tem a homeopatia. E tem a vontade de esticar mais um pouco esse tempo integral juntinho. E então ele ficou.

Mas a casa tava uma bagunça, pilhas de louças, roupas pra lavar e aproveitar o solzinho que resolveu aparecer pós-feriado, almoço pra fazer. Da metade da manhã em diante eu e Caio nos separamos: ele ficou brincando sozinho, eu fui pra forca cuidar da casa.

Almoço saiu tarde, filhote com sono, muito stress e poucas garfadas.

Fome+sono+doencinha: combinação explosiva. Caio dormiu quase a tarde toda, mas acordou péssimo. Chilicou, fugiu de mim, tentou me bater, usou todo o repertório punk dessa fase. Consegui que comesse algo, e a coisa foi melhorando. Pero no mucho.

Pai chegou com colega de trabalho, ajudaram a distrair bem, conseguiram que ele comesse mais um pouco. Humor ainda instável, mas brevemente domado pela atenção de 3 (ufa!). Homeopatia em ação. Mãe barriguda esbagaçada - física e psicologicamente.

Bem na hora do banho, depois de todo o árduo processo de convencimento (né, mães?), quis fazer cocô. Maravilha. Antes de limpar, um minuto de distração e o danado saiu pela casa. Sentou no chão. Mais tarde descobri que tinha passado também pelo sofá (Rá!).

Não aceita tomar banho, chilique monster. Dirige toda sua raiva a mim. Quer o pai.

Sou obrigada a ouvir que "ele devia ter ido pra escola, você não tá dando conta dele assim". A culpa é sempre da mãe (né não, Dani?).

Tomo meu banho e vamos todos assistir um filminho. Sento ao lado do pequeno, puxo um papo: "tá de bem da mamãe?" Ele dá uma risadinha marota. Logo o pai sai e ficamos só nós. Dali a pouco ele está todo dengo-dengo de novo, deita no meu colo, vai ficando sonolento. O filme termina e a mãe aqui está chorando. Mas não, não pelo dia difícil, nem pela 'reconciliação' (!), mas de emoção com o filme mesmo... Toy Story 3!!!

Que tipo de pessoa, senão uma grávida, pra chorar assistindo uma animação com o filho, depois de um dia desses? (estão na minha lista de choros recentes também os filmes Carros, Nemo, Monsters e Toy Story 1).

Ponho o pequeno na cama com a certeza de que amanhã ele fica comigo de novo. E não, eu não sou louca. Sou uma grávida de 30 semanas, com todas as oscilações de humor que vêm no pacote, com um filho beirando os 3 anos, no auge das birras, falando feito gato e futucando o meu umbigo o dia todo (é uma delícia, mas tudo em excesso cansa, afe!), doentinho e irritadiço, mas que é de longe minha melhor companhia (desculpa aí, amor!). E amanhã terá minha atenção integral, que nossa ajudante semanal estará aqui pra cuidar do resto.

E, não digo nada se não terminar o dia chorando ao assistir Os Incríveis ou A Fuga das Galinhas, indo dormir de alma lavada como agora. Amanhã vai ser outro dia (assim espero...).

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

VIVA A DIVERSIDADE (MATERNA)

A Camila, blogueira inteligente do Mamãe tá ocupada, escreveu um post essa semana que foi como um desabafo com algo que ela (e pelo jeito muitas mães internautas) consideram uma espécie de "bullying" materno. Mães que estariam contra mães, querendo impôr suas verdades e humilhando e diminuindo aquelas que seguem caminhos diferentes.

Eu, sinceramente, nunca senti isso nesses 2 anos e pouco de blog, nem durante o período da gestação, quando participei de algumas listas de discussão. Mas devo dizer que não é a primeira vez que vejo outras mães falando sobre isso, e parece que, com o 'advento' (bonito isso, não) do twitter e do facebook, as discussões maternas têm se tornado mais acaloradas. Como estou por fora dessas mídias (pelo menos por enquanto), não sei bem o que rola por lá, mas já vi outras blogueiras (como a Mari, do Viciados em Colo) também questionando a abordagem de algumas mães tuiteiras.

É fato que os temas da maternidade, em especial o parto e a amamentação, rendem muitas discussões, não apenas entre mães, mas também entre profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, etc). E isso, na minha opinião, é muito bom, pois novas pesquisas vão sendo feitas e debatidas, tabus vão sendo derrubados, outras práticas se tornam possíveis. Acho que o problema, como a Camila tentou apontar, é quando isso deixa de ser um debate saudável e vira um embate, com lados opostos que se atacam gratuitamente, sem procurar verdadeiramente dialogar. O conflito, na minha opinião, é saudável, enriquece a sociedade. O quebra-quebra aleatório, não.

A Camila parte do argumento de que hoje, com o excesso de informação proporcionada pela net, a maternidade teria virado um grande check list dos "TEM QUE": tem que fazer isso, tem que ter aquilo, tem que saber sobre aquilo outro. Ela cita itens desses "TEM QUE" como sendo parte de um "enxoval obrigatório" que estaria sendo imposto às mães em geral:

"Você TEM que amamentar no peito exclusivamente por 6, 8, 10 meses; você TEM que ter parto normal (humanizado?); você TEM que alimentar o seu filho apenas com alimentos orgânicos quando ele deixar de mamar no peito, você TEM que ouvir música clássica durante a gravidez; você TEM que manter o seu filho bem longe do açúcar até ele completar 2 anos; TEM que fazer muitas outras coisas, senão?? Senão o quê?"

Eu discordo da Camila em alguns aspectos, como comentei lá no post. E me animei a fazer esse post também, justamente porque concordo com ela no essencial do seu post: cada mãe e cada filho são únicos, e, portanto, cada forma de maternar também. E é justamente isso que faz, na minha opinião, a blogosfera e as trocas digitais entre mães valerem a pena, pois sempre temos algo a trocar, algo a aprender. Como eu falei lá no comment, e repito aqui: opiniões e experiências diferentes existem e sempre vão existir, a grande questão é: estamos dispostas a compartilhar, dialogar e respeitar as diferenças?

Vejamos meu caso, por exemplo: eu QUIS ter parto normal. Descobri as listas e sites sobre parto e me joguei de cabeça. Procurei uma médica com quem pudesse dialogar sobre isso aqui onde moro (foi difícil achar). Descobri as doulas, e, melhor, que havia uma na minha cidade. Em um ponto crucial da gestação, minha médica me afirmou o que eu já havia intuído: eu não conseguiria um parto como queria com a estrutura hospitalar da minha cidade. Propus irmos para uma cidade vizinha, mas ela não topou. Eu já conhecia o parto domiciliar, através dessas listas e sites, e ele passou a ser uma opção. Falei com pessoas que já tinham tido a experiência, conversei com médicos e enfermeiras que faziam o parto em casa, achei uma enfermeira obstetra aqui na minha cidade. E optei conscientemente e deliberadamente por este tipo de parto. Quanto à amamentação: até meu filho nascer, não sabia praticamente nada sobre o tema. Pensei tanto no parto, que deixei de pensar em outras coisas igualmente importantes da maternidade. Mas tive muito apoio, como já contei aqui. Optei, conscientemente e deliberadamente, pela livre demanda, inclusive com indicação da pediatra. Conheci o sling, e me apaixonei pela ideia, sem que ninguém me tivesse imposto. Optei por não dar mamadeira, chupeta, paninhos. Optei pela homeopatia. Optei....

Ou seja, eu busquei a informação que desejava, encontrei opções que se afinavam com meus valores e estilo de vida, e ESCOLHI, a partir de muita informação - claro! - o que EU achava melhor para mim, para meu filho, para minha família. Não fui pressionada a isso. As informações estão aí para isso, para nos guiar em nossas escolhas, em todos os aspectos da vida. Acontece que, na era digital, da mesma forma como se disponibiliza muita informação confiável, novas evidências científicas, experiências individuais e coletivas interessantes, existe também muita porcaria e muito fundamentalismo, e cabe a cada um selecionar o que ler, onde buscar informação, com quem se relacionar.

Eu, particularmente, gosto de conhecer as pessoas com quem dialogo e troco experiências, mesmo que digitalmente. Procuro saber mais sobre quem comenta no blog, sobre os seguidores, sobre os visitantes, e tenho feito boas amigas assim: nem todas compartilham dos mesmos valores e experiências que eu, mas estamos dispostas a dialogar e trocar experiências, e isso é o que importa. Acho que temos o poder de filtrar a informação e os relacionamentos "virtuais", e, dessa forma, não sermos atingidos por essa maré do "TEM QUE" que ela mencionou, e que ecoou em quase todos os comentários do post.

Assim como as várias mães com que me relaciono pessoalmente ou digitalmente, eu tenho sim minhas ideias, minhas opiniões sobre parto, sobre amamentação, sobre alimentação, sobre tudo que envolve a maternidade, porque somos mães pensantes, que nos preocupamos verdadeiramente com a criação dos filhos. Falamos sobre isso em nossos blogs, é inevitável. Ao expôr nossa opinião é que podemos dialogar, trocar experiências e nos enriquecer, e isso tem sido uma constante nesse meu curto tempo de blogosfera.

Há, obviamente, que se ter cuidado com a forma de expôr essas opiniões, na vida "digital" e na de carne-e-osso: essa semana mesmo, na natação do caio, surgiu um papo sobre parto entre as mães. Uma delas me perguntou se eu tinha tido parto normal, eu disse que sim, e ela disse que eu tinha "cara de parto normal"... Para mim isso é um elogio, mas, vejam bem se isso não é um pré-julgamento... Quando eu disse que tinha tido em casa, então, a moça disse que já imaginava, porque me achava bem "alternativa". Hein?? Por outro lado, uma outra mãe, que tinha tido cesárea por opção, mesmo estando em processo de dilatação, se interessou pelo meu parto, e eu pela escolha dela (apesar de discordar e deixar isso claro para ela), e tivemos um bom papo, super respeitoso e enriquecedor. Ou seja, tudo depende da disposição dos interlocutores, e nós temos o poder de ESCOLHER com quem queremos dialogar e trocar. Por isso eu não chamaria de bullying, porque nós, mães, adultas que somos, não somos obrigadas a conviver com alguém que supostamente nos humilha (os pequenos também não, mas o poder de percepção e decisão deles é bem mais limitado que o nosso): podemos simplesmente dar um fim na situação.

Sinceramente, o que mais me surpreendeu e me intrigou após ler o texto da Camila, é que, tanto o post quanto vários dos comentários mencionavam as cesáreas e as dificuldades com a amamentação - ou seja, as pessoas que tiveram essas experiências (seja por necessidade, por conveniência, por vontade, enfim, as motivações são diversas como são as pessoas) estão se sentindo "pressionadas" de alguma forma, muitas se sentiram inclusive "diminuídas", daí a Camila ter falado em Bullying. E isso é muito triste, muito cruel mesmo. Por outro lado, vi comentários lá que demonstraram que a apreensão da questão mais ampla que essa discussão toda traz nem sempre é compreendida: mães justamente JULGANDO E ACHINCALHANDO (estou inspirada, hein) quem opta por parto natural, por fralda de pano, por amamentação prolongada, por alimentação orgânica... Uma mãe (não vou citar nomes) falou até em um "novo método materno hippie"... Ou seja, não entenderam bem o que a Camila quis dizer, eu acho, demonstrando, como tão bem disse a super Lia no comentário do post (e de forma mais desenvolvida - e bem divertida - nesse post), que "sempre haverá alguém para dizer que é melhor que você, independente das escolhas que você faça".

Então, esse meu post, por um viés um pouco diferente da Camila, soma-se ao dela como um manifesto pela DIVERSIDADE MATERNA, pelo respeito às diferenças, pela liberdade de escolha (e liberdade pressupõe informação, não se engane) e, principalmente, pela liberdade de expressão e pela disposição ao diálogo e à troca de experiências entre as mães!

Beijo, abraço e aperto de mão, vou parando por aqui, pois o assunto dá o que falar e minha lombar já está doendo...

[EM TEMPO: Em uma incrível sintonia bloguística, eu e a Paloma falamos sobre o mesmo assunto, ao mesmo tempo!! O post dela, excelente, está AQUI. A Dani, outra blogueira "chegada", também já tinha falado sobre assunto parecido há um tempo atrás, AQUI.]