sexta-feira, 23 de setembro de 2011

RELATO DO PARTO DE CAIO - PARTE I


[Valeu meninas, pelo estímulo no post anterior. A ideia não era fazer um suspense, mas apenas introduzir uma sequência de posts que talvez não sejam dos mais atraentes... Aproveitando a deixa, esclareço que esse relato foi escrito ao longo desses anos, boa parte no primeiro ano do nascimento do Caio, e outra boa parte agora. Pode conter visões contraditórias, por isso, mas tá valendo. Mas chega de preâmbulos, vamos à primeira parte do relato: ] 

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Não me lembro bem quando “descobri” o parto normal. Cesáreas sempre fizeram parte da minha vida. Desde pequena via, a cada verão na praia, minha mãe se preocupando em esconder a cicatriz de meu nascimento e de minhas duas irmãs. Quando minhas primeiras amigas engravidaram, o tema do parto normal tornou-se recorrente para mim, pois era a maneira que quase todas pretendiam ter seus filhos. Todas, sem exceção, tiveram seus filhos através de cesáreas. Alguns anos depois, pouco antes de eu engravidar, duas amigas mais próximas tiveram seus filhos por parto normal: era a primeira vez que acompanhava mais de perto nascimentos que não fossem por cesáreas, e um deles havia sido na França... Então engravidei: e desde o início eu sabia que queria e teria um parto normal. Mas não sabia o caminho que teria que percorrer para conquistá-lo da forma como desejava...

A descoberta da gravidez e do vasto universo do parto humanizado

2007 foi um ano especial. Ano em que completei 30 anos, em que eu e Dani passamos a conversar mais seriamente sobre ter um filho. Eu prorroguei a ideia por um tempo, pois estava fazendo mestrado e meu prazo se esgotava em março de 2008. Fizemos uma linda viagem pela América Latina em maio, e a vontade começou a se tornar mais concreta: este ano engravidaríamos, mas não poderia nascer antes do mestrado... Tempo vai, tempo vem, e tudo acontece no seu devido tempo: em setembro me descubro grávida... e eu achando que estava com problemas no fígado, pois havia tomado uma cervejinha e passado mal... Poucos dias antes de descobrir eu havia ido ao ginecologista, porque estava com dores nas mamas, e ele me pediu uma mamografia... não deu nem tempo de fazer, logo descobri que as tais dores eram um bebê a caminho!!! (belo médico esse...)

Pois bem, descoberta a gravidez, alegria total, fomos, eu e Dani, nos consultar com o tal médico, afinal, ele era meu médico há tantos anos... A única coisa que combinamos de conversar com ele: dizer que pretendíamos ter parto normal, pois eu já sabia que ele não era dos mais “adeptos”. Na consulta, além da objetividade médica que impõe uma cortina de gelo entre o médico e seu paciente, algumas gracinhas pra dar um tom de bacana e uma resposta: “o tipo de parto só dá pra decidir no final da gravidez, na hora h, não adianta você ficar se preocupando com isso agora”... Dani olhou para mim e não precisamos falar mais nada. Estava decidido, procuraríamos outros médicos.

Através de Rosa, uma grande amiga (prima de Dani) que não estava grávida, mas envolvida com círculos de mulheres, “tendas vermelhas” e coisa e tal, eu já havia tomado contato com o site amigasdoparto.org e através dele fui rapidamente descobrindo o universo do “parto humanizado”, as doulas e etc, que até então eu só tinha ouvido falar através de uma ou duas amigas que haviam pretendido um parto humanizado e acabaram tendo cesáreas.  Mas esse universo me parecia tão distante, concentrado em capitais como São Paulo, Rio e BH... Se já me parecia quase impossível que eu tivesse um parto normal em São Carlos (dado o histórico de cesáreas de amigas e conhecidas), que dirá humanizado... Doulas por aqui? Nunca tinha ouvido falar.

Mas como o “universo conspira a nosso favor”, através daquele primeiro site cheguei ao amigasdoparto.com.br e de lá para os sites do Gama, do Doulas do Brasil e da Parto do Princípio foi um pulo. E então, uma surpresa incrível: este site indicava um grupo de apoio em São Carlos, coordenado pela psicóloga Vânia Bezerra (que na época ainda não tinha esse blog que eu adoro)!! Nem acreditei...

Em setembro mesmo comecei a fazer contato com ela e, paralelamente, “mergulhei” no mundo virtual do parto humanizado, entrando nas listas partonosso e abcdoparto. Descobri termos como tricotomia, enema, episiotomia, ocitocina, cardiotoco, seus significados e o que representavam em um parto. Descobri os relatos de parto, planos de parto e as inúmeras variações do parto normal, do mais medicalizado ao mais natural. Descobri que era possível ter um parto em casa, algo que eu nem sonhava. Essa ideia me tocou desde o início, mas me parecia loucura demais para um primeiro parto. Além disso, Dani, filho e irmão de médicos, de cara achou bastante estranha a ideia.

[Aqui, uma pausa. Nesse momento, cerca de um mês após ter descoberto a gravidez, enviei à lista partonosso um email intitulado “os maridos e o pd” que gerou um bom debate, e me cutucou para não desistir de cara da ideia. Reproduzo abaixo o email e a resposta da Ana Cris – que foi uma das que mais me cutucou. Quem estiver sem saco, pula essa parte! Rá!]

Vendo essa mensagem [mensagem enviada por outra mulher sobre parto domiciliar] percebi que não é só o meu marido que encana com o parto domiciliar... parece que acontece com mais frequência que eu pensava... Eu estou apenas na 14 semana de gestação, quero MUITO ter um parto normal, encontrei uma médica muito boa na minha cidade (São carlos), a maternidade da Santa Casa parece que vai ser reformada em novembro com instalação de banheiras para parto na água, mas eu também tenho pensado bastante no PD, ainda mais depois de descobrir um caso aqui na minha cidade, algo bem raro, eu acho... Mas ao mesmo tempo a maioria dos relatos de parto domiciliar que li sempre são no segundo ou terceiro parto, ou ainda depois de uma cesária... Me sinto também um pouco insegura de investir em parto domiciliar na primeira gravidez...
Podemos trocar umas idéias sobre isso??
bjocas
thaís

Thais, porque é que você imagina que tem tantos casos de parto normal depois de cesárea no domicílio? Afinal essas mulheres são ainda mais "perigosas" do que uma primigesta. Elas não só não pariram anteriormente, como tiveram uma cesariana e portanto têm o risco de ruptura uterina.
Porque será que justamente essas mulheres são as que acabam fugindo do hospital e indo parir em casa?
Bjs
Ana Cris

[Despausa]

Enquanto isso, eu também buscava informações sobre os obstetras da cidade, para iniciar o acompanhamento. Através da Vânia descobri a Dra. Carla, que segundo ela era uma das que mais faziam partos normais em São Carlos. Marcamos uma consulta com ela e com mais dois outros médicos da cidade, também conhecidos por realizarem alguns partos normais. Logo na primeira consulta com ela, o centro da conversa foi o parto normal, as perspectivas na cidade, as opiniões dela sobre o assunto. De cara ela nos falou sobre seu projeto de implantar um quarto PPP na maternidade, que provavelmente estaria pronto na época do meu parto! Saí maravilhada e convencida que tinha encontrado a médica que eu tanto procurava. Acabei cancelando as consultas que tinha marcado com outros médicos, pois preferia ser acompanhada por uma mulher, e isso se repetiu ao longo de toda a gravidez, quando fui cada vez mais me cercando de cuidados femininos...

Como meu ciclo menstrual estava bem desregulado antes de engravidar, e não fazíamos ideia de quando nosso filhote havia sido concebido, Dra. Carla pediu um primeiro ultrassom, para calcular melhor a idade gestacional. Pela data da última menstruação, eu estaria grávida de cerca de 7 semanas, não veríamos nada na ultra, apenas os batimentos do coração. Entretanto, ao começar o exame, um susto, e uma grande emoção: já podíamos ver o bebê!!! Nossa, que incrível foi esse momento, eu e Dani parecíamos duas crianças, tamanha nossa alegria, nosso abestalhamento... Foi inesquecível. Na verdade eu estava mais grávida do que pensava, com cerca de 11 semanas... Demoramos a descobrir a gravidez porque eu cheguei a menstruar já grávida, e tudo o que eu sentia nesse início eram dores no seio, sono, emotividade aflorada e muita vontade de fazer xixi, “sintomas” que, como marinheiros de primeira viagem, não tinham para nós ligação entre si e, muito menos, com gravidez...

Na verdade, fomos percebendo cada uma dessas características aos poucos, e foi o Dani que intuiu minha gravidez: “você está tão manhosa, tão chorona... tô achando que você está grávida... vamos fazer o teste?” E eu: “não, tem que esperar atrasar a menstruação pelo menos uma semana para fazer o teste, e como meu ciclo está todo desregulado, temos que esperar mais um pouco”. Mas, nesse momento, eu já sabia que estava grávida. Ele tinha matado a charada. Era uma sexta-feira. À noite, ele foi para a capoeira e eu fiquei sozinha em casa, e não aguentei: “acho que tem algum teste que dá pra fazer antes de uma semana de atraso...” Fui pra farmácia, e comprei o teste mais baratinho, que teoricamente já daria resultado com apenas um dia de atraso da menstruação. Voltei pra casa, fiquei em dúvida se fazia o teste antes do Dani chegar, mas resolvi fazer: duas listrinhas cor de rosa, não acredito, é verdade!!! Tô grávida mesmo, será que dá pra confiar nesses testes?? Mal eu acabei de fazer o teste, e Dani chegou, olhou minha cara que misturava dúvida, espanto e felicidade, já ficou desconfiado, e não conteve a emoção quando eu mostrei o teste positivo... Me abraçava, e eu ainda não estava acreditando, fomos à farmácia e compramos outro, do mais caro (rá!) - foi uma sensação tão engraçada, chegamos até a comentar no dia, nós dois indo juntos, de mãos dadas, até a farmácia, comprar um teste para confirmar o que os dois já tinham certeza, cheios de uma alegria tão leve... - e, batata, positivo!!!! Comemoramos, embasbacados, mas nesse dia não contamos a ninguém: queríamos a confirmação definitiva. No dia seguinte, logo cedo, fomos fazer o exame de sangue, e aí sim nos “liberamos” para gritar, chorar, pular, e contar pra todo mundo: estamos grávidos!!!!!!!!!!!!!

A gravidez: uma espera muito ativa e bem acompanhada

Trabalhei muuuuuito durante a gravidez, já que, além do mestrado, estava envolvida em vários projetos profissionais. No último trimestre, desacelerei o ritmo dos projetos para me concentrar em finalizar o mestrado a tempo (meu prazo era março, e o bebê estava previsto para abril, imaginem a tensão!). Fiz uma bela viagem para Salvador com Dani e mais um casal de amigos no início de janeiro, aproveitei pra relaxar muito, pois sabia que em seguida seriam dias e dias de bunda na cadeira pra terminar de escrever a dissertação. Lá percebi o quanto a água me fazia bem, e na volta entrei na hidroginástica. As aulas de hidro, as práticas de yoga e os banhos eram meu momento maior de conexão com o bebê. No resto do tempo, a corrida pra dar conta de tudo, já que, entregue a dissertação, teríamos cerca de um mês e meio (se o bebê nascesse na DPP) pra transformar o escritório em quarto de bebê e acabar todos os preparativos para recebê-lo. Sinceramente, olhando hoje não sei como dei conta!

Apesar dessa loucura toda, minha gravidez correu muito tranquila do início ao fim, meu corpo correspondendo às minhas expectativas e eu me dedicando muito para mantê-lo ativo, para que as transformações nele fossem sendo vivenciadas etapa a etapa, tentando controlar a ansiedade, as inseguranças e os medos que permeiam o imaginário das grávidas. A prática da yoga foi fundamental nesse sentido, bem como a leitura do livro Parto Ativo, recomendado pela minha doula, o acompanhamento quase diário no livro A Bíblia da Gravidez, que ganhei de minha cunhada e a participação (mais como ouvinte) nas listas de discussão.

A única coisa que não correspondia em nada às minhas expectativas eram minhas emoções. Afe! Ao longo de toda a gestação meu grande desafio era conciliar todas as transformações e descobertas da gravidez com meu trabalho, meu mestrado, minha vida conjugal. Por inúmeras vezes me via perdida entre tudo isso, sem foco, com vontade de parar tudo e só curtir a gravidez, mas era impossível. Dani quase surtava com minhas alterações de humor, crises de choro e pitis inesperados. Mas o fato de termos uma doula ajudou muito nesse sentido: com ela eu conversava, desabafava, tirava minhas dúvidas.

Durante a gravidez eu e Dani nos encontrávamos com ela para conversar e, na maioria das vezes, assistir a filmes sobre parto, fundamentais para que pudéssemos formar nossa ideia de parto, pensar sobre o que queríamos para o nascimento do nosso filho, questionar o padrão que já conhecíamos tão bem. Assistimos com ela os filmes Nascendo no Brasil, BirthDay, O Sagrado, Birth as we know it, entre outros... Uma enxurrada de novas informações e realidades de parto que foram fundamentais em nossas escolhas. Hoje sei que foi a Vânia, através da apresentação do filme Birthday, que fez brotar em mim a semente do parto domiciliar, quase como uma picada da mosca azul. Mas marido ainda era muito reticente. Fui deixando a história pra lá.

As conversas com nossa médica também eram ótimas para nos tranquilizar e, ao contrário do que faz a maioria dos médicos, ela nos acolhia muito bem em nossos questionamentos sobre parto, sempre franca e objetiva. Entretanto, apesar de já estar com um pezinho na humanização, Dra. Carla ainda não tinha mergulhado de cabeça, e nossos desejos começaram a se chocar com seus limites, como ela mesma nos disse em uma consulta. Em nossos questionamentos sobre as intervenções, ela sempre deixou muito claro que dispensava o enema e a tricotomia, mas fazia episio, considerava o cardiotoco um equipamento indispensável – o que eliminava a possibilidade de parirmos na casa de saúde, um ambiente mais acolhedor - e só fazia partos na posição deitada, várias limitações para o parto ocorrer como eu gostaria. Além disso, com o passar dos meses ficou evidente que o projeto de implantação do quarto PPP na maternidade não aconteceria a tempo para o meu parto, o que me desanimou bastante.

Vale dizer que, apesar de ter tido um atendimento que considero diferenciado pro que havia na cidade naquele período, dois episódios poderiam ter posto à prova minha vontade de ter o parto normal. Um deles ocorreu logo nas primeiras consultas, quando, ao medir minha pressão, Dra. Carla constatou que ela estava alta e, somando isso à informação que eu já havia passado a ela de que minha mãe tinha pressão alta, e que tinha descoberto durante o período em que esteve grávida de mim (a indicação da primeira cesárea dela foi essa), ela ficou bastante apreensiva, e me deixou também. Registrou na minha carteira de pré-natal: “hipertensão crônica”, me pediu que passasse uma semana indo uma ou duas vezes por dia, em horários variados, medir minha pressão na maternidade ou na unimed e me receitou um remédio para pressão. Imaginem meu pânico. Mas fiz a medição direitinho (um saco) e agendei uma consulta com minha homeopata, pois não iria tomar nenhum remédio sem antes falar com ela, que me tranquilizou dizendo que eu não tinha histórico de pressão alta (ela já me acompanhava há quase três anos), que poderia ter sido um episódio isolado. Descobri também que muitas grávidas tinham a “síndrome do jaleco branco” e achei que poderia ter sido o meu caso naquele dia. Enfim, todas as medições indicaram pressão normal, não tomei o remédio e, após mais algumas consultas, Dra. Carla riscou o diagnóstico de minha carteira. Ufa.


8 comentários - clique aqui para comentar:

Flavia disse...

ai...

que emoção!
quero acompanhar com carinho toda essa história, que sempre quis conhecer.

só nessa introdução já vi tantas semelhanças...

aguardando os próximos capítulos.


beijo grande

Lia disse...

eba! ansiosa pra ler o resto

Nine disse...

Que delícia poder conhecer um pouquinho mais de você e desse início do Caio, que já te disse, foi um dos meus primeiros sobrinhos virtuais!

Eu me lembro de ter lido alguma coisa sobre o teu parto no blog da Vânia (ela fala sobre os partos que acompanhou), mas com certeza a sua visão, as suas descobertas fazem de tudo algo novo a se conhecer.

Não há nada de semelhante com minha primeira gravidez, salvi a vontade de ter parto normal e do primeiros contato com a Parto Nosso e Prato do Princípio.

Com essa minha segunda a insegurança do marido em relação ao PD é a mesma...

Beijos,
Nine

Paloma, a mãe disse...

Thaís, admiro muito quem segue este caminho já na primeira gravidez, sei que os percalços são muitos e a gente se sente muito fragilizada. E vc foi além!
Aguardando os próximos capítulos...
Beijos

Sarah disse...

Menina, que emoção (2)! Também estou ansiosa por ler o restante. E também admiro vc por ter conseguido trilhar seu caminho já na primeira gravidez... Me identifiquei totalmente com a resposta da Ana Cris, fez todo o sentido.
O que gostei tb foi vc ter relatado sua busca fora dos grandes centros. Tive Bento em minha cidade natal, Presidente Prudente (tb interior de SP), e tenho certeza que lá as dificuldades para PD são as mesmas. Até porque nunca tinha ouvido falar em PD, doula e tantos outros termos até conhecer a blogosfera...
Mais, mais!!
bjos!

Rô! - @robertarez disse...

Eeee, não foi preciso esperar até amanhã! (E o medo de você não postar hoje? rsrs)

Esperando o próximo capítulo!

PS: Acho que foi só eu e a Nine que reclamamos do suspense, né? As duas grávidas ansiosas rsrsrs....

Dani Garbellini disse...

Thaís, são tantas, mas tantas semelhanças na minha história e na sua! E aconteceram ao mesmo tempo. Adoro isso!

Você é uma linda em contar a história com tanta riqueza de detalhes.

Também esperando a continuação. E já prevendo novas semelhanças. O que é muito gostoso, porque quando comecei neste caminho, parecia que eu estava tão sozinha! rs

Beijos!

Sara disse...

Acho que poucas experiências na vida são tão bonito como este. Talvez para alguns, é doloroso, mas é um ritual de videira belas rendas não pode deixá-lo ir, se temos a possibilidade Eu tive sorte que unimed bh me ofereceu todas as facilidades para fazê-lo da melhor maneira.