terça-feira, 19 de junho de 2012

EU PARI EM CASA: COM CONSCIÊNCIA E MUITA SEGURANÇA

Já está mais que difundida na net a mais nova (e grave) polêmica referente ao parto domiciliar, desencadeada a partir da reportagem no Fantástico e da absurda denúncia feita pelo CREMERJ contra o obstetra Jorge Kuhn. Mas não posso deixar de registrar aqui minha indignação e, também, reforçar minha opinião e minha experiência.

Como quem acompanha este blog sabe, tive dois partos domiciliares: ao primeiro, posso dizer que cheguei quase que por falta de escolha - as "opções" oferecidas então, onde vivo, pela medicina, eram um parto cheio de intervenções (e olhe lá) ou uma cesária, e ponto. Digo isso pois, na época, se houvesse a possibilidade de parir da forma como eu desejava em um hospital, talvez essa tivesse sido a nossa escolha, talvez eu nem descobrisse o parto domiciliar... Nunca saberei. Ao segundo, porque, depois de experimentar (toda a beleza e intensidade de) um parto domiciliar, apenas um risco verdadeiro - ou algum sentimento insondável e inconsciente - me levaria a parir em outro lugar. Mas isso não aconteceu, e meus dois filhos nasceram em casa, cercados não apenas de amor, aconchego e familiaridade mas, também, de muita segurança.

Porque, ao contrário do que muita gente pensa (e é nisso em que o CREMERJ se apoia, lastimavelmente), o parto domiciliar não é nenhuma aventura inconsequente, muito pelo contrário: o casal, ao invés de delegar a terceiros tudo o que diria respeito ao nascimento de seus filhos, tem de se informar, tem de buscar profissionais capacitados, tem de guardar dinheiro, tem de preparar todo o necessário para que o bebê seja recebido com todo o cuidado e segurança que merece (e, ainda que não sejam necessárias grandes adaptações à vida cotidiana de um lar, há que se pensar em coisas práticas como lençóis, toalhas, aquecimento, comidinhas, etc), para falar apenas de alguns aspectos mais "logísticos" que envolvem os preparativos concretos sob responsabilidade dos pais. E os profissionais que dão assistência ao parto domiciliar, além de serem extremamente capacitados em suas áreas (parteiras, doulas, médicas e médicos), são equipados com todo o necessário para acompanhar o trabalho de parto, avaliar continuamente seu andamento, monitorar as condições (físicas e, também emocionais - aí uma grande diferença) da gestante, do casal, do bebê e têm, de acordo com sua formação, com o histórico de acompanhamento das gestações e com as condicionantes dos locais onde atendem, seus limites de segurança, a partir dos quais as técnicas e tecnologias médico-hospitalares poderão se fazer necessárias. 

foto tirada por meu marido, após o parto do Nuno, para mostrar para o pai dele, que é médico...
(o equipamento não foi usado, mas estava lá)

Enfim, não é coisa de "bicho grilo" ou de pessoas "alternativas": é uma escolha extremamente consciente feita antes de mais nada pela mulher, preferencialmente em diálogo com seu companheiro e envolve decisões e balanços por vezes muito difíceis, doloridos até (como no meu caso, no primeiro parto, a decisão de não contar para as pessoas mais queridas que teríamos nosso filho em casa), justamente em função dos mitos e inverdades que cercam o tema do parto domiciliar no senso comum.

Nesse ponto, uma pausa pra indicar um dos posts mais explicativos e esclarecedores que já li sobre o tema, um "informe técnico" produzido pela querida Lia, que trata justamente de desmistificar o parto domiciliar, permitindo às pessoas se informarem sobre o assunto (lembrando que informação de qualidade é essencial para uma escolha efetivamente consciente). Recomendo também os artigos desmistificadores e cientificamente embasados da Dra Melania Amorim, disponíveis em diversos locais na net, mas alguns bem didáticos estão aqui e aqui.

Mas, como "técnico" é o termo que menos define um parto domiciliar, há muitos (muitos!!) outros fatores ligados à escolha do lar como local de parto, e aí sim, acima de tudo, trata-se de uma escolha: eu tenho amigas que desejam fortemente um parto natural, humanizado e digno, mas não gostariam de parir em casa, muitas vezes pelo simples motivo de que não se sentiriam confortáveis com a situação. Simples assim, como deveria ser se efetivamente houvesse o direito dessa escolha. 

Só que, infelizmente, o que deveria ser um direito continua sendo tratado como privilégio de algumas, como eu. E é a naturalização dessa falta de escolha, em meio à sociedade, que forma o solo sobre o qual posturas autoritárias como a do CREMERJ podem brotar. Mas, felizmente, existem muitas mulheres nadando contra essa corrente, e essa arbitrariedade acabou tendo o papel de "gota d´água": foi empolgante acompanhar, mesmo que tardiamente (já que estou meio "desconectada") a ágil mobilização de mães e mulheres de todo o Brasil, que culminou na que foi denominada "Marcha do Parto em Casa". A Marcha ganhou esse nome a partir do contexto que originou a mobilização, mas o que estava em jogo nas manifestações é muito mais do que o nome pode expressar: é o direito à escolha consciente, o que pressupõe informação (como bem disse a gravidíssima Dani: liberdade de escolha consciente e cientificamente fundamentada) e, acima de tudo, a viabilização concreta dessa escolha, que pressupõe uma transformação radical em termos de saúde pública, em última instância.

Bom, eu tô desconectada, mas não podia deixar de me manifestar aqui no meu espaço. Tô com pouco tempo pra grandes elaborações, mas fica registrada minha opinião e minha presença na Marcha aqui em São  Carlos, organizada por grupos e pessoas que vêm mudando a realidade dessa escolha por aqui:





Nós fomos! 
Fotos da Marcha em São Carlos, por João Moura
(extraídas do portal K3)

Recomendo, pra quem quiser saber mais sobre a Marcha, os dois belos posts da Ligia Sena, a Cientista que virou Mãe  e um post com alguns dados gerais sobre a Marcha e sua repercussão no país, no blog interiorano Mater - maternidade responsável e consciente. E ainda o belo vídeo, postado pela CáEntreNós produções:


E, para apoiar ainda mais a causa: PETIÇÃO PÚBLICA POR UM DEBATE CIENTIFICAMENTE FUNDAMENTADO SOBRE LOCAL DE PARTO - assine!!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

TEMPOS DE NOSTALGIA


Agora há pouco, pra rebater uma gripe, acabei com o último pacotinho de pau de canela que tinha sobrado das vésperas do parto do Nuno. Foi a chave de ouro dos tempos nostálgicos que tenho vivido desde o feriado, quando resolvi arrumar os armários dos meninos para o frio, retirando calças curtas, camisetas com barriga de fora e bodies que, para fechar, ficam com a gola no umbigo (quem nunca?): foi demais para mim pôr em uso, para o Nuno, roupinhas e sapatinhos que, na minha cabeça louca de mãe, o Caio usou até outro dia... 

Somada a essa empreita, uma outra, de produzir fotolivros que comprei numa promoção e deixei para a última hora, me fez passar dias e dias vendo fotos de todos os meses do Nuno, lembrando de cada caretinha, cada novo aprendizado, cada descoberta como mãe de dois. Fiquei nostálgica demais, meio descrente que meu filho já iria completar um ano. Desde então, comecei a me preparar psicologicamente, porque internamente eu não tava aceitando, olha o nível da loucura! Comecei até a pirar pensando como eu vou ficar insuportavelmente nostálgica quando ficar mais velha, com filhos na faculdade e tals... e que tenho que me preparar desde djá! Afe.

Agora, o dia chegou. Amanhã filhote completa um ano (e me dá um alívio pensar que só às dez da noite, rá!) e, desde a hora em que fui colocá-lo para dormir, meus pensamentos são pura nostalgia: as vésperas do parto, o dia do parto, os primeiros meses. E eu que pensava que, como mãe de segunda, não passaria por toda essa nostalgia de novo... Mas a verdade é que, no segundo filho, perdoem-me o clichê, tudo passa rápido demais, e, pra mim, uma canceriana chorona, constatar isso dói um tantinho, e a nostalgia parece que está até maior que da primeira vez... mesmo porque ela vem em dobro, pelo primeiro e pelo segundo filho! Mas, por outro lado, como toda fase é sempre mais deliciosa que a outra, estamos numa curtição só por aqui, entre gargalhadinhas contagiantes, adoráveis conversinhas em bebenês, interações cada vez mais intensas (e tensas, hehe) entre irmãos, muitos carinhos, muitas artes, uma idolatria com o papai e um grude intenso com a mamãe. Mas isso é assunto pra outro post.

Enfim, preciso aprender a lidar melhor com o tempo, mano velho, para poder segurar minhas pontas com as passagens de ciclos. Mas por enquanto, me permito curtir a nostalgia.




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(enquanto escrevia esse post, li esse aqui da Carol, e me senti bem menos doidja. Valeu, querida.)


segunda-feira, 16 de abril de 2012

DA SÉRIE: COISAS DE QUE NÃO ME ORGULHO COMO MÃE (1 de infinitas)

Neste sábado, Caio cantou parabéns contra sua vontade. As pessoas já estavam todas em volta do bolo, esperando. Ele não queria, chorou e tudo, eu e o pai o "convencemos" com aquelas voltas que só os pais sabem dar em seus próprios filhos. Cantamos, ele deu poucos sorrisos, apagou a vela com uma bexiga (perigo!), chorou quando o tio quis abraçá-lo (e estourou suas esculturas de bexiga), mas em pouco tempo estava novamente brincando animado pela festa. 

Depois, me arrependi. Teria sido tranquilo dizer às pessoas que não haveria parabéns, cortaríamos o bolo e tudo bem. Pra que "convencê-lo" de algo que ele não queria - e não precisaria - fazer? Já era tarde demais para este aniversário, mas não para os próximos. No dia seguinte, na deliciosa curtição pós festa, perguntei porque ele não queria cantar parabéns. Ele disse: "Ah, porque não gosto, mamãe". Eu ainda tentei: "Mas é legal, todo mundo feliz em volta de você... Porque você não gosta?" Ele: "Ah, porque não. Prefiro o bexigão". Rá! (pra quem não sabe, é aquela bexigona cheia de tranqueira que estoura na cabeça da criançada, que sai desesperada catando o que vê pela frente...).

Fiquei lembrando dos meus próprios aniversários, e da vergonha que eu sentia na hora do parabéns (sinto até hoje, ainda bem que há muito tempo não passo por isso): nunca gostei daquele povo todo concentrado em mim, é uma das coisas para a qual sou tímida. Daí conversei com marido, e ficou decidido: não quer cantar parabéns, não vai cantar. Simples, como deveria ter sido no sábado. A decisão amenizou minha culpa por tê-lo feito passar por aquilo sem estar a fim, mas a situação continua encabeçando minha lista das (milhares de) coisas de que não me orgulho como mãe, e tá aqui esse post pra não me deixar esquecer.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

4 anos


 

Há quatro anos atrás, nesse exato momento, eu tinha acabado de ter uma crise de choro insana e um mega piti com o marido, após um dia todo lavando roupinhas de bebê e arrumando a casa. E contava para a única pessoa da minha família (minha irmã do meio) que teria meu filho em casa, liberando um peso do meu coração. Poucas horas depois, entrava em trabalho de parto, como já contei aqui, e no dia 07 de abril nascíamos todos: mãe, pai e filho.

Quatro anos depois, estou aqui curtindo um relax com o meu menininho crescido, que já tem dores de crescimento e acaba de me perguntar coisas como "o que é uma iguana" ou "onde fica a França". E, enquanto me distraio no computador, apronta artes de se lambuzar com minha maquiagem. O tempo voa, meu povo. E daqui há pouco é o meu bebezico que vai fazer um ano...

segunda-feira, 26 de março de 2012

MÉ MÉ


Esse fim de semana Nuno disse, pela primeira vez com perceptível intencionalidade,  algo que se aproximou de mamãe. Ele já vinha esboçando uns pa pa pae (sempre o pai, humpf) e até um ca caua (pro irmão, que dá de dez a zero até no mamá). E nesse finde veio o tão esperado... MÉ MÉ.

Por um momento, fiquei em dúvida: seria o mamá, a mamãe, ou... a marvada? Afinal, essa proeza ocorreu dias após o pequeno ter se apegado a uma garrafa de cachaça do vovô, insistido até conseguir derrubá-la, quebrá-la (e viva o anjo da guarda dos bebês arteiros) e se lambrecar na dita cuja, enquanto o papai assistia o futebol (rá!).

Mas a dúvida durou pouco, considerando que após dois ou três MÉ MÉ o danado se jogou em cima de mim, se enfiando no meu peito. Mais uma vez, já tô mais que acostumada, ponto pro mamá.