quarta-feira, 15 de junho de 2011

AS CRIANÇAS E A TRANSMISSÃO DA CULTURA

Ontem, ao sair para a escola, Caio me pediu: "mamãe, o Nuno pode ir na minha escolinha hoje?" Combinamos que, se tudo desse certo, o irmão iria buscá-lo na escola à tarde.

Me organizei para isso e fui, com Nuno no sling. Nem preciso dizer o sucesso que fizemos com a turminha do Caio, né? A professora nos convidou pra entrar na sala, e todos vieram nos rodear, queriam ver o "nenê", queriam saber se era ele que estava na minha barriga e coisa e tal. Caio amou, ficou todo orgulhoso.

Aí, um dos amiguinhos do Caio, que acompanhou a evolução da minha barriga com curiosidade durante toda a gravidez, tascou a pergunta: "E como ele saiu da sua barriga?" E, enquanto eu tentava pensar rápido pra dar uma resposta minimamente didática (confesso que a pergunta me pegou de surpresa), uma menininha respondeu sem pestanejar: "minha mãe falou que sente uma dor muito grande, daí o médico corta a barriga e tira o nenê". Ui. Aí ficou mais difícil ainda. Me limitei a dizer: "Esse neném não saiu pela barriga, saiu aqui por baixo", a conversa seguiu outros rumos (ufa!) e Caio me chamou para irmos.

Mas depois, fiquei pensando naquilo. Em como a cultura se transmite cotidianamente para as crianças, em casa, na escola, no mundo. Em como questões vão sendo arraigadas desde cedo, podendo, em grande medida, direcionar escolhas (ou a falta delas) no futuro.

Não era meu papel ali falar sobre nenéns, barrigas, nascimentos para as crianças. Tampouco a professora estaria preparada para isso naquele momento. Mas acho que a escola poderia trabalhar esses temas com as crianças, ainda mais tendo em vista que entre 2 e 5 anos, em média, é a idade em que as crianças ganham irmãzinhas (os): porque não abordar isso pedagogicamente?

Na última semana de gravidez, quando estive na escola pra conversar com a psicóloga sobre o Caio, as transformações pelas quais ele estava passando - e as que iriam se iniciar após o nascimento, para contar que teríamos o parto em casa e ele possivelmente assitiria, aproveitei para falar sobre a relação da escola com uma mãe grávida, e com a criança que ganhará um irmão. Isso porque, nas últimas semanas da gravidez (mas com muita antecedência em relação à DPP, em função do tamanho da barriga), toda vez que eu entrava na escola ou saía dela, eram inúmeros os comentários: "nossa, que barrigão", "esse neném não vai nascer, não?", "você aqui, ainda?", "ih, acho que esse neném não quer nascer!" e por aí afora. Além disso, mais para o final, a cada dia que eu não aparecia na escola, todos ficavam achando que o bebê tinha nascido, muitas vezes perguntavam inclusive para o Caio, o que gerava grande ansiedade nele. Sei que a intenção era das melhores, e sempre levei na brincadeira, mas, quando senti que estava impactando o pequeno, resolvi conversar. E, durante a conversa, me ocorreu uma ideia, e todo esse parágrafo enrolado foi pra chegar nela: comentei com a psicóloga que, durante a gravidez, muitas crianças vinham me perguntar sobre a barriga, o que tinha dentro dela (um menininho inclusive me perguntou, seriamente, se tinha uma melancia na minha barriga!! rá!!), e coisa e tal. Vi, por mais de uma vez, as crianças perguntado pras mães porque a barriga delas não estava igual a minha, porque elas não tinham neném na barriga. Ou seja, o assunto despertava a curiosidade das crianças, e estava gerando conversas entre elas e com os pais. A escola não poderia ter aproveitado a ocasião? "Aproveitar" uma mãe grávida pra conversar com as crianças sobre o tema? 

Ela achou que podia ser interessante, mas realmente não tinham pensado no assunto. Mas ficou a dica. Não sei bem como poderia ser abordado, até hoje só vi dois livros que têm uma abordagem didática e ilustrada do assunto para crianças (esse e esse), mas acho que, se encarado com naturalidade e sem tabus, todo assunto pode ser trabalhado com as crianças, de acordo com as idades e os questionamentos de cada fase. 

E vocês, o que acham? Gostaria muito de pensar mais sobre o assunto com vocês!

imagem do livro de Naoli Vinaver linkado acima

18 comentários - clique aqui para comentar:

Lia disse...

Thá, AMEI sua reflexão. É isso mesmo. As crianças ou não são educadas ou são deseducadas em relação a tudo o que envolve o nascimento. É um grande tabu, que tem a ver com a sexualidade e com a morte - daí a forma desengonçada como os adultos tratam esse assunto com as crianças. Parto é dor, é sofrimento, é perigo. E é asséptico, estéril, controlado pelos médicos.
Para verem toda a poesia desse milagre, temos de nos reeducar já como adultos, jogando fora toda a parafernália negativa que ouvimos durante a vida inteira.
Sua iniciativa é maravilhosa. Infelizmente, a maior parte dos profissionais de pedagogia também traz uma bagagem cultural negativa em relação à gestação e ao parto, então é difícil pra eles tratar do assunto de maneira sadia. Mas acho que temos, sim, que ir criando esses espaços no nosso meio. Essas crianças não merecem crescer achando que a forma natural de os bebês nascerem é por um corte que o médico faz na barriga.
P.S.: Estou esperando o livro, hem? ;)

Nine disse...

Oi Thais! Que bom receber notícias de vcs, estava com saudades!

E esse texto vem bem de encontro a fase que estamos vivendo aqui em casa.


Culturalmente a cesariana é tão aceita como parto, e como melhor parto, que apesar de ter tido um parto normal hospitalar com todas as intervenções possíveis e protocolares, eu me sinto uma vencedora, uma heroína. O espanto é geral quando digo que a Ísis nasceu de parto normal.

Para esse segundo parto quero ir mais além, agora sou mais bem informada, mais segura, e quero muito um parto natural domiciliar, que não vai ser fácil de conseguir tendo em vista que não moro num grande centro.

O primeiro preconceito que preciso quebrar é o do marido. Para ele parto normal é o hospitalar, cheio de intervenções necessárias para a "saúde" da mãe e do bebê.

Agora você imagina, ele, cuja mãe teve 5 filhos de parto normal, em hospital, sem analgesia, mas com enema e episio, tem essa visão do parto, imagina essas crianças filhas de gerações de cesariana?

Vou dar uma olhada nos livros que vc indicou para a Ísis!

Beijos,
Nine

Pati Alves disse...

Acho bem interessante abordar esse assunto com as crianças ainda mais quanto elas estão curiosas sobre isso, devemos sim aproveitar a curiosidade e não deixar as crianças com dúvidas pois elas podem fantasiar coisas impossíveis (como ter uma melancia dentro da bariga) ou ainda podem ter uma orientação erada por parte de uma pessoa despreparada que tente responder suas perguntinas. Foi bem legal vc ter dado esta sugestão para a escola.

Susan disse...

Oi Thais, que bacana ler seu post, acho essa sua idéia genial. Vivemos em meio á tabus e falta de informação, eu mesma, tive meu filho de cesariana, a minha bolsa rompeu no dia que completei 36 semanas, não tive dilatação alguma, e partimos para cesária, mais era também a minha preferência, morria de medo do parto normal, talvez pelo fato de minha avó e minha mãe terem tido complicações e muitos sofrimentos, inclusive minha avó perdeu o bebê e ficou desenganada. Com todo esse histórico familiar mais uma gravidez que aconteceu sem eu estar esperando, e outros fatores que me abalaram emocionalmente durante a minha gestação não tive um preparo, só sabia que o parto normal doía muito, e tinha a imagem de ficar em uma cama de hospital sendo checada de tempo em tempo por uma enfermeira mal humorada que não daria á mínima pelas ansiedades e medos que eu estaria naquele momento, e se estivesse demorando muito, me colocaria num sorinho, o que faria eu sentir mais dor... filme de terror né. Parto domiciliar? Doula? Fui descobrir que existia isso não faz tanto tempo. Mais hoje vejo que se aconteceu o que aconteceu com minha avó, mãe, não quer dizer que aconteceria comigo também. Hoje talvez com a intensidade que vivo a maternidade, vejo a beleza de um parto normal. Medos? Sim ainda tenho, mais não aquele pânico todo que tinha. E é aí que quero chegar, se tivermos um esclarecimento desde crianças assim como você falou, de acordo com os questionamentos de cada idade seria maravilhoso,
provavelmente teríamos menos mães “neuras” como eu por aí, rs! Sei que preciso ainda derrubar muitos tabus, e não é fácil.
Desculpe o comentário longo, mais esse assunto me aperta o coração, assim como a amamentação que por outras decorrências não foi bem sucedido, mais aí é um assunto pra outro post né, rsrs.
Um beijo grande.

Anne disse...

Acho que podemos estender a questão para todo o universo "bonecário"... não ha bonecas que amamentam. Todas tem chupetas, mamadeiras, tomam injeções e têm febre.

Lançaram uma boneca que mama (na criança) que tem que colocar um paninho que imita um seio no colo. Foi o maior fuá, e querem proibir a tal boneca. Pois não seria adequado que a menina usasse um seio.

Mas é adequado então que ela tenha uma Barbie num conversível. Tudo ao contrário.

Acho que a palavra de ordem é a naturalidade, e ai, sinto que esse comentário vai me render um post, se me permite pegar emprestado sua reflexão (sem pretensões de blogagem coletiva nem nada #mecansa, mas a gente podia combinar de postar sobre isso)

Estou nomeando as partes íntimas do Joaquim, e às vezes me pego num dilema (sou contra apelidos sonsos, mas falo pênis, pinto?

Não seria natural dizer "lave a vagina filha"? Será que colocamos as pombinhas, potoquinhas, xerequinhas ou whatever na frente exatamente porque não conseguimos tratar a sexualidade humana (nossa, do filho) como algo natural?

Fui longe!
bjo amei o post!

Neural disse...

Oi Thaís,
que enrascada hein.
acho as questões que vc levantou super válidas, eu acabaria respondendo estilo "pai do calvin", ou usando um material didático tipo http://diariogravido.blogspot.com/2008/09/de-onde-vieram-os-alemes.html

em tempo, eu tenho usado "periquita" com a Lucia. sei lá!

Anônimo disse...

eu vivi esse movimento maravilhosamente com uma classe de 3 anos gravida da maria flor, teve at'e 3 maes que engravidaram por influencia das criancas e da "tia fer" foi lindo e magico at'e hj as criancas me encontram e agente tem muita ligacao, mas sabe as escolas estao me entristessendo infelizmente estao muito ligadas em conteudo esquecendo que somos seres humanos helloooo somos todos iguais bracos dados ou nao...
viva nossos filhos bons dias pra vcs beijao em vcs familia linda fer e flor

Paloma, a mãe disse...

Excelente reflexão, Thais, e excelentes dicas de livros, já devidamente anotadas. Adoro a Naoli! Quando eu estava grávida, também era super assediada pelas crianças da escola, sempre me perguntavam algo. Mas obviamente a escola nunca pensou em abordar o assunto - nem me ocorreu, é verdade. Aproveitei, é claro, para abordá-lo diversas vezes com a Ciça, que achou graça quando soube o bebê nascia pela 'perereca', mas nada demais. É uma pergunta simples respondida de forma simples. A gente não precisa elaborar demais, só deixar o assunti vir à tona e responder às perguntas. Mas, mais do que isso, dar o exemplo. A boneca pode até ter uma mamadeira acoplada, mas, se a criança vir a mãe amamentando o irmãozinho, vai colocá-la no peito. E isso não é teoria não, vejo na prática, com a Ciça, vide meu post de hoje.
Beijos

Ivana - coisademae disse...

thais, excelente reflexão e concordo demais com você! Sinto falta sim desses temas serem abordados na escola e também aproveitei todas as oportunidades que tive para conversar com as meninas sobre o nascimentos de João, até porque elas já estavam na idade em que as perguntas afloravam toda hora. Expliquei tudinho, inclusive que João nasceu pela "popoca", de parto normal, sem anestesia...fiz o que eu pude, tentando simplificar, e acho que deu certo...

bjos..

Sarah disse...

Thais, sensacional sua ideia. Com certeza seria uma ótima oportunidade para tratar o assunto com as crianças - que vão perguntar sobre isso inevitavelmente um dia. Sabe que já pensei nisso quando Bento me perguntar... vou ter que usar a resposta da menininha (o médico cortou a barriga da mamãe) pois não quero mentir pra ele, mas ao mesmo tempo quero falar da forma natural da coisa... ai que difícil! Vale mesmo a dicussão!
bjos!

Cátia Moraes disse...

Eu não menti pro meu filho...o parto foi normal e contei a ele por onde tinha nascido, ele diz que foi pela "pilica". Toda vez que passamos pelo hospital onde ele nasceu naturalmente comentamos.

amanda amorim silva almeida disse...

ah vá, q coisa mais ridícula, post tosco mesmo, fala sério hein?
olha o papo de outras aí: potoca, pombinha, pilica
gente, fala sério!!!!!!!!!
ridículo isso
pq não falar o nome real?
agora vem cá, q ilustrações ridículas são essas? isso é pra assustar crianças, só pode
odiei
jamais deixaria meus filhos verem esse desenhos horrorosos
JAMAIS!
sujo, imundo, nojento, asqueroso, muito malfeito, sem um pingo de beleza
aliás, nojentésimo, dá asco ver essa vagina peluda aí
falta de higiene total
sou totalmente contra
resumindo: detestei mesmo

Amanda Amorim Silva Almeida

Dani Garbellini disse...

Thaís, parto é tabu, assim como sexo, assim como genitália.
Eu luto por um mundo diferente, em que tudo isso seja natural, bonito, bom e não feio, pecado, imoral.
Não quero que meu filho pense que somos assexuados e bebês nascem trazidos por cegonha. E acho pior ainda a cultura da cesárea ser transmitida como natural.
Ter a escola como aliada seria ótimo, mas seria uma batalha difícil, como você pode ver pelo comentário acima.
Vamos que vamos!

Patrícia Boudakian disse...

Oi, querida.
Concordo que é uma ótima reflexão e que temos que ter naturalidade para lidar com esse assunto. Que deveria sim ser explicado na escola.
Não concordo com essa mãe que disse que cortaram a barriga e tiraram. É uma inversão doida e não faz muito sentido.
As crianças têm que crescer sabendo do rumo natural que as coisas devem tomar. Eu vou conversar desde cedo com Alice e tentar passar os valores convincentes para torna-la uma mãe capaz de parir seus filhos e entendendo desde sempre como deve ser. (vamos ver, né?)
Provavelmente ela já entenderá um pouco quando eu providenciar o segundinho, que deve nascer em casa e é muito provável que ela tb assista!
Tenho dois sobrinhos que acompanharam minha gravidez. Eu sempre comentava que Alice estava dentro da barriga, eles davam beijos e faziam carinho. E quando questionaram por onde sairia, explicamos e eles entenderam, sem maior alarde!
Sobre o comentário aí em cima, não liga não, eu acredito que os bons são maioria. Pessoas ridículas como essa são a doença da humanidade. Porque me desculpe, pensar assim com tanto nojo é no mínimo insanidade das mais bravas!

Beijo!

BLOG DA BIA disse...

É ISSO MESMO: SOMOS PARTE DA NATUREZA!!!
Thaís, agradeço por partilhar suas 'inquietações', abrindo um democrático espaço para outras colocações!
Com os alunos eu costumo desmitificar o "nascer da barriga" como única alternativa. Depois achamos que o Brasil tem muitas cesáreas... aprendemos que era assim, em tenra idade!
As crianças entendem que o gato, o cachorro e outros mamíferos saiam de suas mães por algum lugar, sem irem ao hospital terem suas barrigas cortadas por médicos. A gente também pode ser assim!
As crianças só nunca pararam para pensar nisso, mas se perguntamos a elas como nasce um leãozinho lá no meio da floresta, ela chega ao raciocínio que queremos.
Lidar com o assunto de maneira natural é fundamental. O adulto precisa se sentir à vontade para dizer, pois as crianças percebem nossas sensações.
Passar informações simples, de maneira simples.
É tão simples! Sei que estou fazendo jogo de palavras, mas quero mesmo reforçar essa ideia.
Ah, podemos também complicar algo simples, criar situações não totalmente verdadeiras, inventar novas palavras e záz, e... - uma mentira leva à outra, e cada lar cria a seu modo...
Para mim, retomo, parece muito mais simples ensinarmos o real. Ah! E podemos dizer que isso faz parte da Ciência, e que nesse momento (do aprendizado) somos todos cientistas, estudando sobre o corpo humano. Cientistas não ficam rindo enquanto estudam...
Os pequenos adoram se sentir cientistas. =) (E estão sendo, de fato.)
Estive grávida o ano passado, e a turminha fez perguntas durante a gestação toda... e era tão interessante como cada um foi 'amadurecendo'a ideia a seu tempo.
O assunto do nascimento, para eles, ficou natural. No meio do ano, ninguém ria (no sentido de tirar sarro) mais de nada o que aprendia em Ciências.
Mais uma vez, obrigada e parabéns pelo espaço!
Abimara - luardabia.blogspot.com

Pães Seven Boys disse...

Oi Thais,

Muito bem colocado seu ponto de vista.
A escola deve realmente, nos auxiliar na condução da educação dos filhos e abordar temas universais.
É fato que para as crianças, a gravidez, o nascimento e a forma como um bebê é concebido, gera muita curiosidade. Mas todo este mistério pode ser desvendado e contado aos pequenos, de uma forma fantástica e lúdica.


No blog paessevenboys.blogspot.com, você encontra dicas de uma vida saudável e boa alimentação para você e seus filhos. Passa lá para uma visita, estamos aguardando.

@Paes_SevenBoys

Patrícia Gomes disse...

Olá!
Dá uma vista nesta notícia http://agoraquesoumae.blogspot.com/2011/07/conar-perde-etica-e-debocha-das.html
Ela mostra o tanto que a ignorância pode (des)fazer pelas nossas crianças!
Bjus

Marusia disse...

Thaís,
gostei tanto do seu post que fiz um link em meu blog:
http://maeperfeita.wordpress.com/2011/07/09/falando-de-sexualidade/
Admiro sua delicadeza e também sua coragem!
Um beijo,
Marusia