terça-feira, 2 de novembro de 2010

AOS PAIS SEM NOÇÃO





Talvez vocês se assustem com o título e as imagens do post, mas é isso mesmo: hoje escrevo indignada com a falta de noção de alguns pais.

Fui ao cinema, neste fim de semana, assistir Tropa de Elite 2. O filme é bom, talvez ainda um pouco pesado pra uma grávida com emoções à flor da pele, como eu, mas não tem como não ser, ao tratar da complexa relação entre pobreza, violência e poder. Eu gostei.


Não vou dizer que foi fácil assistir ao filme, uma vez que, além de estar grávida, sou idealista, e trabalho justamente com pobreza e espaço urbano, ou seja, favelas, periferias e tudo o mais que elas representam (ou que nelas se estigmatizam). É sufocante assistir ao filme e ter a nítida sensação de que a solução está muito distante, se é que ela existe. Mas o pior não foi isso.


O pior foi assistir a todo o filme sabendo que, algumas fileiras à frente, uma criança bastante pequena também assistia a tudo aquilo. Isso sim foi uma tortura, durante toda a sessão. Meu marido viu a criança logo que chegamos, e comentou: "nossa, é uma criança ali, não é? Será que pode?" A criança estava acompanhada por três adultos. Fui me levantar para questionar os responsáveis pelo cinema, mas as luzes apagaram, e eu desisti.

A cada cena de violência, a cada tiro, a cada morte, eu procurava instintivamente a criança no escuro. A sensação angustiante do filme se multiplicava ao imaginar o que aquelas imagens estariam causando na cabeça - e nas emoções - daquele garotinho. Maridão tentava me consolar dizendo "pára de pensar nisso, Thaís, vai ver o menino até dormiu...". Pois é, porque além de tudo, a sessão era tarde, e o filme terminou mais de 10 da noite.

Mas não, o menino não tinha dormido. O filme acabou, e ele foi saindo de mãos dadas com o avô (imagino eu), seguidos da avó e do pai. Cruzei com eles na saída e não me contive: "Quantos anos ele tem?", ao que o avô respondeu, suposamente envergonhado: "3 anos... nem fala nada moça, já tô arrependido de ter trazido". Mas eu falo sim: "nossa, 3 anos! absurdo, né, porque esse filme é muito pesado! não é pra criança!" E ele, fugindo: "ai, nem fala, nem fala...".


Saí da sala e fui direto às responsáveis: "Vocês viram que tinha uma criança de 3 anos assistindo a este filme?" Elas, com caras de sonsa (e um pouco estupefatas pela minha reação), responderam: "A gente não pode fazer nada, ela tava acompanhada...". E eu, hormônios gravídicos a todo vapor: "Mas como assim, não tem censura de idade? Qual a classificação desse filme?" Elas: "Não tem censura, senhora, só classificação indicativa, que é de 16 anos para pessoas desacompanhadas. No caso, se estiver acompanhado dos pais ou responsáveis, não podemos barrar". Fiquei INDIGNADA, falei meia dúzia de impropérios pras moças e disse que queria um telefone de ouvidoria, para fazer uma reclamação formal. Elas, passadas, me deram um endereço de homepage, que seria o canal para o contato.


Dali, fui para o banheiro (aguentar um filme todo sem ir ao banheiro é tarefa ingrata para uma grávida) e lá desabei a chorar. Não somente pelo árduo do filme, mas por pensar naquela criança, e em tantas outras, VÍTIMAS DE PAIS E AVÓS SEM NOÇÃO. Porque, verdade seja dita, só adultos muito sem noção para levar uma criança para assistir um filme como esse, sem imaginar as consequências que isso pode ter. Eu mesma tive vários pesadelos aquela noite, que dirá essa criança.


E o pior é que isso vem se tornando corriqueiro. Não é difícil imaginar que, talvez, esse menino já tenha contato com violência significativa através de desenhos animados e jogos de videogame (outro absurdo, ao meu ver, tratado com naturalidade por PAIS SEM NOÇÃO: crianças pequenas, de 2 ou 3 anos, jogando videogame como se fosse a coisa mais inofensiva do universo).
Depois, ouvimos notícias de bullying, agressões gratuitas entre os jovens, violências físicas e simbólicas entre crianças cada vez menores, e a culpa vai para a escola, o professor, a TV, a propaganda. Mas não, a culpa é dos pais sem noção. Que são cada vez mais frequentes por aí, infelizmente.

[desculpem o tom agressivo do post, mas é mesmo um desabafo. e também uma tentativa de estabelecermos um diálogo franco sobre essas posturas que eu considero absurdas, concordem vocês ou não comigo]

31 comentários - clique aqui para comentar:

Fabiana disse...

Estas coisas revoltam mesmo.

E o pior é que tem muita gente acha que isto é problema só dos pais da criança, que provavelmente terão que lidar com os pesadelos do pequeno.

Mas na verdade o problema é da sociedade que, como você bem disse, pode ter que conviver num futuro próximo, com um deliquentezinho, que aprendeu a ser violento, de mãos dadas com os pais.

Classificação indicativa...hã! Pra que serve esta tranqueira?

Dani Garbellini disse...

Thaís, é realmente revoltante!
Eu já escrevi sobre isso, não com tanta ênfase, talvez pela falta dos hormônios gravídicos (rs):

http://danielices.blogspot.com/2010/01/documentos-da-crianca-por-favor.html

E sabe, fico cansada depois de papinho que a gente ouve por ai como se fosse pecado mortal ou crime hediondo de censura que a classificação etária fosse obrigatória e não indicativa.


Ah! Obrigada pelas visitinhas lá no Danielices.

Beijos!

Giovana disse...

Thais não foi agressiva em nenhum momento, nem precisa se desculpar,na verdade gostaria que esses "irresponsaveis" pela criança lessem o que vc escreveu. É realmente lamentavel que ainda (quem sabe até a maioria) existam "pais" assim.

Fica aqui tambem minha indignação.
Bjs

Paloma disse...

nossa, que absurdo!!! Tem muita gente sem noção no mundo!!!! fez muito bem em falar. quem sabe, pelo menos estes avós, não refletem um pouco? bjos
Paloma e Isa

Luiza Novaes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiza Novaes disse...

É realmente um absurdo isso! Você não foi nem um pouco agressiva, não mesmo, até um pouco educada eu diria...
É tão facil reclamar de bulling, de violencia, de menores no trafico... Eles só esquecem de fazer a parte deles ;/ é realmente DEPRIMENTE!

Patrícia Boudakian disse...

Sem noção é pouco, Thais. Que absurdo. Eu que estou gravida tb ainda não tive coragem de assistir porque imagino que deve ser super pesado. E eu ando mega sensível. Concordo com vc e adorei o tom do post.

Beijão.

Igor disse...

Com tom de desabafo ou não, com hormônios gravídicos ou não, você está certíssima!

Fico p. da vida com esse tipo de coisa! O que será que passa na cabeça desse povo? Nem Jornal Nacional, ou melhor, nada fora do Discovery Kids minha filha assiste por conta da violência e um mané leva um menino de 3 anos para assistir Tropa de Elite 2 no cinema? Só pode ser mentira!

É querer DEMAIS que tudo na vida do menino seja precoce. Não é possível!

Que nem comentei esses dias com um casal de amigos: fala sério, acham bonitinho a menininha de 2 anos rebolando com o Rebolation e depois aos 12 não querem vê-la de micro-saia, salto alto e uma lista de ex-namorados?

Thais, estou contigo e não abro!

Elisabeth disse...

Concordo com sua indignação!
E quando me perguntam sobre um capítulo X da novela ou um filme, digo: Não sei, a Sofia estava acordada, ficamos assistindo Backyardigans... DVD, etc. E as pessoas acham engraçado, como se cenas fortes não ficassem registradas na memória da criançada, como se não entendessem nada que ocorre ao seu redor. Eu trabalho na periferia e vejo o quanto o contato com a violência real ou televisiva contribui para uma ' dessensibilização', para que as crianças achem que é normal agredir, tomar o que é do outro e até matar... É de se lamentar!
Bjs e façamos nossa parte!

Rodrigo Rocha disse...

Thaís passei para conhecer seu blog ele é not°10, show, fantástico muito maneiro com excelente conteúdo você fez um ótimo trabalho desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família
Um grande abraço e tudo de bom

Ana Paula disse...

Concordo com tudo que você escreveu!

Meu filho tem 04 anos, e até pra assistir filme infantil no cinema eu me informo antes, pra saber se o filme é realmente adequado à idade dele (porque, realmente, "infantil" é muito abrangente, né? e tem muita diferença em um desenho adequado para uma criança de 3, 4 anos, e outra de 7, 8...).

Mas, "Tropa de Elite"? Totalmente sem noção!

Ilana disse...

Apoiada Thais!
Nem tô acreditando num absurdo desses...

GIGI disse...

Assinado embaixo!
É fácil, depois, colocar a culpa somente nos outros; reclamar da educação em nossas escolas, da qualidade de nossos professores, da política de ensino em nosso País...

Izabel disse...

Oi,
Achei seu blog e gostei muito do jeito como você escreve, vou te linkar e acompanhar.
Sou mãe de uma pré-adolescente e estou tentando o segundo filho!
Também acho um absurdo o que alguns pais fazem, esse seres não pensam em criar seus filhos, devem achar que são seu amiguinhos! E depois seremos todos nós que termos que lidar com pequenos ditadores ou coisa pior que não foram preparados para o mundo!
Beijinhos

Nine disse...

Adorei o post! Concordo plenamente! Pior é que a maioria não entende quando quero trocar o canal da TV quando está passando aquele programa de debate sobre futebol, sabe? Naquele tom de voz super tranquilo e com aquele palavreado super educado...ninguém entende que as crianças repetem o que ouvem, ainda mais na televisão...

Eu tb não sou entendida quando não deixo minha filha assistir cenas que considero impróprias (não do ponto de vista da sexualidade somente), mas violentas, com imagens um tanto assustadoras...dizem que ela não entende...e eu repito que entende sim!

Tinha pesadelos terríveis qdo assistia alguma cena assustadora na TV quando pequena. Uma que muito me marcou foi na novela Mandala...(nova, eu!)lembro daquela cena até hj.

Beijos!
Nine

Flavia disse...

é realmente revoltante!
Por coincidencia li um post da Mari (do blog Viciados em colo) que fala exatamente a mesma coisa, (no caso dela a criança era maiorzinha) mas mesmo assim, puta-que-pariu... o que tem na cabeça desses adultos, hein?

Estou esperando teu e-mail pra gente fazer aquela mudança... lembra? risos!

No mais tamu indo pro Brasil em dezembro. Você por acaso não tem umas férias programadas na Bahia por essas datas??

Beijo grande queridona!

Quase uma alema disse...

Menina, estou chocada....

Outro dia até escrevi sobre isso, como pais incentivam a violência, sem nem mesmo pensar muito sobre o assunto.

http://quaseumaalema.blogspot.com/

Lua Ugalde disse...

Muito bom Thais, alguém tem que tocar nesse assunto mesmo!
Cada dia mais as crianças são expostas à exemplos de violência. Não somente através do cinema e do videogame, mas tbm através das relações interpessoais entre seus responsaveis, que hoje se tratam de forma muito feia, como uma simples brincadeira. Chamando uns aos outros de "Cachorra!", "Veado" e outras coisas do gênero...

Pat disse...

Nossa, parece que eu vivenciei o que você sentiu.... Tá certo que também estou com hormônios gravídicos no máximo...

Mais do que me indignar com pais sem noção, me sinto impotente quando constato a falta de noção de instituições que não se sentem responsáveis pela formação de futuros cidadãos, como este cinema por exemplo. O que acontece com um futuro adulto um dia afetará mais gente, portanto, responsabilidade é de todo mundo, caceta!!

piscardeolhos disse...

excelente atitude, tem que perseguir os sem-noção até a saída do cinema SIM.
oras.
absurdo, absurdo, coitada dessa criança (e coitados de nós, que vivemos em um país com classificação indicativa???)
beijos na barrigota!

Dany disse...

Thaís, minha querida, fui ao cinema assistir Tropa de Elite e, infelizmente, vi muitas crianças por lá.
Isso deveria dar cadeia para os pais, né??? aff...

Chris Pessoa disse...

Você viu que o Cinematerna está promovendo sessões de cinema com mamães e bebês com o filme Tropa de Elite?! Estou chocada.
Falei no twitter sobre isso, o Cinematerna não se manisfestou até agora, mas apareceram várias mães os defendendo, dizendo que o filme é escolhido por votacao e que quem nao gosta do filme, nao vá... Eu acho que nao é assim! O Cinematerna, sendo uma instituicao séria (pelo menos eu achava que era), deveria orientar estes pais e zelar pelo bem das criancas, ao invés de favorecer e facilitar um absurdo como estes.
Olha, eu era super fã do Cinematerna, mas agora estou realmente muito decepcionada...
Mesmo que me digam que bebês não têm nocao do que está se passando, etc... eu nao concordo. E depende da idade, né? Um pouquinhos mais velhos eu acho que entendem sim, já que se assistem um desenho, sorriem ou batem palmas com algo que gostam. Acho que assistir um filme como este assim tão cedo pode causar traumas ou mudancas de comportamento irreparáveis. Nao sou especialista, apenas mãe... e esta é a minha opinião.
Enfim, vim aqui desabafar com alguém que sei que vai concordar comigo. :-)))
Bjs!

Priscila Sant'Anna: disse...

Um absurdo mesmo esses pais sem noção! E tu estás coberta de razão! onde já se viu uma criança de três anos assistindo Tropa de Elite? O que eles deveriam ter feito é tirado a criança do cinema assim que começou o filme....papo furado esse do avó: já tô arrependido! Ele poderia ter tomado uma atitude se quisesse, não é? Levar a criança já foi absurdo, ainda mais permanecer com ela na sala.
Tropa de Elite 1 assisti quando estava grávida da Bia e me senti muito mal, fechava os olhos várias vezes durante o filme..e saí do cinema totalmente arrependida.

Bjs
Priscila e Beatriz

micheliny verunschk disse...

Flor, tem selinho pra você lá no meu blog.

bjs!

Dani disse...

Concordo!!

Muitos pais estão mesmo sem noção... para suprir a falta deles em casa, não colocam limites nos filhos, é a geração pode tudo.

Aí vejo crianças de 11 anos xingando professores, namorando, enfim...

Que eu tenha sanidade prá educar meu filho no meio disso tudo, porque a gente vai escutar: Pq fulano pode e eu não?

Bjinhos

Lia disse...

E se o avô estava tão arrependido de ter levado a criança, por que não saiu no meio do filme? Certamente porque estava interessado demais pra perder o final e o dinheiro do ingresso. Muito triste. Mas se não me engano rolou por aí uma ação do MP que proibiu menores de 16 de assistir a esse filme, mesmo acompanhados.

Letícia Volponi disse...

Thais, estou passada como você. O que será que passa pela cabeça dessas pessoas expondo às crianças a tanta violência gratuita? Eu fico louca da vida pq meu enteado de nove anos só quer saber de jogar videogame e, de preferência, aquela porcaria daquele GTA. Por mais que eu tente repreender, não sou eu que vou conseguir corrigir esse comportamento. Vejo ele apenas a cada 15 dias e, por não ser mãe dele, nem me dá ouvidos.

Andrea Nunes disse...

Thais, absurdo mesmo. Olha eu sou advogada e te digo não são um nem dois os casos que eu soube no escritório de pais(?) que colocam seus filhos ainda crianças para assistirem filmes eróticos e pornos, para verem fotos para "virar homem"... revoltante demais!!! Te entendo completamente.

beijoca

Anônimo disse...

Como estou desatualizada! Não sabia que você está grávida! Que ótimo!!! Parabéns! Bjs.
Chris
(Coisa de mãe)

JULIANA disse...

Thais,
eu relutei tanto antes de ir... e eu me arrependí... pq fiquei mal assim como no primeiro..

e achei de um absurdo esse menino na sala assim como fquei revoltada de saber que a seção do Cinematerna que exibiu o tropa estava LOTADA....


PS: Meu marido é um pouco sem noção rsrs! meu enteado tá numa mega crise depois do assalto que a mãe sofreu, cheguei do trabalho e eles tavam vendo Transormers. Reclamei e ele disse, mas é 10 anos!!! E eu, é mas ele tem 7 dãaa!

Mimos da Leila disse...

Dani acabei de conhecer o seu trabalho e adorei..mas infelizmente é uma triste realidade mas não para de classe social e sim de classe cultural..hoje tudo que uma criança quer parece ser lei e nós não sabemos lidar com liberdade e bom senso. Presencie em um clube de renome em Alphaville os pais dando cerveja para uma criança de uns 3 anos , o que fazer, . Você teve uma postura maravilhosa neste triste episódio ..mas..ainda bem que vc enfrentou pessoas perdidas com a liberdade e nenhum louco que poderia causar uma tragédia..parabéns!!