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domingo, 8 de julho de 2012

AINDA NÃO ANDA?

Ai, posso falar, cansei dessa pergunta. Nuno completa (APENAS) 1 ano e 2 meses semana que vem, provavelmente até lá já estará andando sem estender sua mãozinha para nós e eu vou ficar morrendo de saudade desse breve tempo em que ele esteve a descobrir como é se equilibrar em dois apoios, como é ver o mundo mais de cima... Mas a pressão pra ele andar tá terrível, não tem uma pessoa que não faça essa pergunta ao encontrá-lo.

Andei pensando e, para mim, esta pergunta está no mesmo balaio de outra (que ouvi muito quando Caio tinha a idade de Nuno agora, e que ninguém mais tem coragem de me perguntar, por já saber a resposta), a fatídica: Ainda mama? Um mesmo sentimento de fundo as motivam: o de que os bebês de 1 ano já tem que ser independentes, não podem mais mamar, já tem que saber andar, dormir a noite inteira e por aí afora....  Sério, quase me enredei nesse caminho: quem pergunta não o faz por maldade, eu sei (ou espero), mas por vezes não imagina que possa causar um dano ao processo mãe-bebê. De tanto me perguntarem se ele já andava, ou, ao contrário, de tanto se espantarem porque ele "ainda não anda", comecei a encucar, a forçar a barra, a passar do ponto no estímulo. E - ainda bem - percebi a tempo que estava caindo na armadilha, mas... quantas mães não percebem e ficam achando que seu filho está "atrasado", ou tem algum "problema"? 

O fato é que Nuno, por ser segundo filho, é super espertinho desde bem pequeno, e todos que o conhecem (até o pai) ficavam apostando que ele engatinharia super rápido, que ele andaria super rápido e tals. Mas ele é sossegadão, é observador pra caramba e, a cada nova descoberta e aprendizado, ele ficava um bom tempo até passar para a próxima: primeiro se arrastando pelo chão feito minhoca até conseguir engatinhar, depois engatinhando até virar um ás veloz, depois se apoiando e andando de ladinho até descobrir que podia pedir nossas mãos e sair por aí, depois com uma mão só até ficar craque e quase correr e, nas últimas semanas, ganhar segurança pra dar uns passinhos conscientes aqui e ali, sempre se garantindo que teria onde se apoiar caso algo acontecesse (imagine o frio na barriga dos bebês, gente! é toda uma aventura aprender a andar!) ou, cautelosamente, interrompendo a caminhada e se sentando no chão. Agora ele já vai mais pimpão de um ponto a outro sem apoio nenhum, mas ainda não está totalmente seguro de si, e temos que respeitar isso.

Nós seguimos incentivando, comemorando cada conquista, o ajudando a avançar um pouquinho a cada dia, mas sem aquela nóinha que pairou por aqui por uns tempos de que "tínhamos que estimular mais", ou de que "ele está com preguiça de andar", ou de ficar comparando com Caio ou outras crianças nessa idade. É duro admitir que me peguei nesse erro, mas fico feliz também de que tenha durado pouco, que eu tenha percebido a tempo. Mas, depois de interrompido o ciclo do "vamos estimulá-lo a andar a todo momento", a tal perguntinha passou a me irritar ainda mais: será que é tão difícil respeitar o tempo dos bebês, das crianças? Porque de agora em diante, nesse raciocínio, será uma sucessão de perguntas: "já fala?", "já corre?", "já pula?", "já sabe as letras? os números?", já já já já............................ Pobres crianças e pobres pais. Eu saltei fora dessa barca, e espero sinceramente que ela não me pegue nunca mais (porque já estava me pegando também no quesito "letras" e "desenho" do Caio, mas esse papo fica pra uma próxima vez).

E, apenas pra ficar registrado, foi a mãe de primeira que me habita que puxou a orelha da mãe de segunda que vos fala, lembrando da magia que é acompanhar uma criança aprendendo a andar (porque mãe de segunda tem esse risco, por não ter mais aquele olhar de novidade pra tudo o que o filho faz, acabar perdendo a beleza desses momentos tão importantes).

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

VOCÊ SOFRE POR "EXCESSO DE COMPETÊNCIA"?

Domingo à noite, num breve minuto de descanso, resolvi ligar a tv (tenho pânico de tv aos domingos, ainda mais que só tenho tv aberta, afe!). No meio de toda a porcaria, dei sorte de achar, na Cultura, a exibição do Café Filosófico com o Fabrício Carpinejar, cujo tema era incrível: "Reinvenção dos vínculos". Peguei o bonde andando, mas o programa dialogou em cheio com o que venho pensando e sentindo sobre relações familiares, conjugais, filhos, trabalho e cia. 

Eu já conhecia o Carpinejar pelos textos que ele publica na Revista Crescer, depois pelo blog dele. E curti muito sua abordagem do tema, pelo pouco que pude assistir. (Hoje vi que, quem quiser assistir na íntegra - eu quero! - dá pra ver pelo blog dele: http://carpinejar.blogspot.com/2011/11/cafe-filosofico.html)

Bom, além da dica, queria registrar um ponto em que ele tocou que ficou martelando na minha cabeça, que tem tudo a ver com o que postei (e vocês comentaram) aqui. Não é uma transcrição literal, mas um rascunho que fiz durante a própria exibição do programa, pra não esquecer. E achei que valia compartilhar com vocês, pra ver o que pensam do assunto:

"As mulheres sofrem por excesso de competência. (...) eu tenho pena delas. Elas não conseguem lidar com a incompetência. (...) Isso é uma coisa que nós poderíamos ensinar a elas."
anotação livre da fala de fabrício carpinejar, dom 06/11, no café filosófico.

Quem concorda, quem discorda? Vamos debater?

domingo, 30 de outubro de 2011

INSPIRAÇÃO

Do alto dos seus três e poucos anos
me observa
e me conhece - talvez - melhor do que eu.
Me quer perto e longe ao mesmo tempo
(colo e asas, difícil equação!)
é carinhoso e ciumento
sabe rir e fazer rir
chora e faz chorar 
(de alegria e de culpa, porque não dizer?)
e me desafia - quase - o tempo todo.
Somos cúmplices de um jeito que nunca imaginei
parecidos em tantas coisas (algumas não tão boas)
e tão diferentes em tantas outras.
Um pedacinho de mim que virou pessoa
que não para de crescer e crescer e crescer
que a cada dia me surpreende e,
se eu me permito,
me ensina a não mais poder.
Me transformou em mãe
me modificou como filha
me melhorou como mulher
me chacoalhou como profissional.
E ainda tem apenas três e poucos anos
e temos tanto tanto tanto pela frente
que chega a doer se tento imaginar.
Melhor viver.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O PRIMEIRO COMENTÁRIO MAL-EDUCADO (OU, MISOGINIA, AQUI, NÃO!)


Então chegou o dia do blog receber comentários mal-educados. Sempre vi as pessoas falando sobre isso blogosfera afora, mas ainda não tinha rolado por aqui. Opiniões contrárias, sim, mas sempre respeitosas e produtivas. Mas foi a primeira vez que um comentário descambou um post meu e, pior, esculhambou os comentários alheios.

Enfim, assim é a blogosfera (e a vida) - infelizmente. Mas não é sobre o comentário em si que eu queria falar (até porque prefiro dar crédito pra quem se dispõe a dialogar de forma inteligente), mas sobre a ideia que ele traz. Quem quiser ler o comentário, aqui.

Eu sabia que as ilustrações da Naoli poderiam ferir suscetibilidades. São explícitas, e isso é raro quando se trata de material voltado à crianças (e mesmo aos adultos). Eu confesso que também não gosto tanto das ilustrações, mas  não pelo conteúdo - que acho bárbaro - e sim pelo tipo de desenho, pela estética mesmo. Mas acho muito legal que o livro tenha sido escrito e ilustrado por uma parteira fantástica - Naoli Vinaver - e acho que ele tem esse grande mérito de falar abertamente às crianças, de tratar com naturalidade um assunto  solenemente ignorado na educação infantil.

O que me cutucou no comentário tem a ver com o atual momento, a explicitação do preconceito em torno da amamentação em público, a palhaçada do cqc, enfim, a triste maneira da sociedade em geral encarar o parto, a amamentação, a sexualidade feminina, o corpo da mulher, a mulher em si. Então a visão - ilustrada, vejam bem! - de uma vagina é algo  "sujo, imundo, nojento, asqueroso, muito malfeito, sem um pingo de beleza / aliás, nojentésimo, dá asco ver essa vagina peluda aí / falta de higiene total" ??? Alguém me belisca?

São perspectivas como essa que levam à formação de mulheres e homens desconectados de seus próprios corpos, que levam ao domínio da técnica sobre esses corpos e, tanto pior, à proliferação da misoginia. Discordo completamente da colega (será possível que seja uma mulher, mesmo??), e deixo o debate - desde que educado e sadio - aberto a quem possa interessar.

(Infelizmente não estou com muito tempo para blogar - por motivos óbvios - e fiquei na dúvida se deveria gastar meus preciosos minutos com tal comentário. Maridón inclusive sugeriu deixar passar batido, pois, pelo tom do comentário, poderia virar bate-boca e tals... Mas não aguentei. O blog é meu, e não tinha como deixar passar batido algo que vai contra tudo o que eu acredito. Não vou me aprofundar no assunto - até porque ele esteve bem em pauta nos últimos tempos, em textos excelentes blogosfera afora - mas faço questão de reforçar minha opinião como autora do blog: MISOGINIA, AQUI, NÃO!!!)


quarta-feira, 15 de junho de 2011

AS CRIANÇAS E A TRANSMISSÃO DA CULTURA

Ontem, ao sair para a escola, Caio me pediu: "mamãe, o Nuno pode ir na minha escolinha hoje?" Combinamos que, se tudo desse certo, o irmão iria buscá-lo na escola à tarde.

Me organizei para isso e fui, com Nuno no sling. Nem preciso dizer o sucesso que fizemos com a turminha do Caio, né? A professora nos convidou pra entrar na sala, e todos vieram nos rodear, queriam ver o "nenê", queriam saber se era ele que estava na minha barriga e coisa e tal. Caio amou, ficou todo orgulhoso.

Aí, um dos amiguinhos do Caio, que acompanhou a evolução da minha barriga com curiosidade durante toda a gravidez, tascou a pergunta: "E como ele saiu da sua barriga?" E, enquanto eu tentava pensar rápido pra dar uma resposta minimamente didática (confesso que a pergunta me pegou de surpresa), uma menininha respondeu sem pestanejar: "minha mãe falou que sente uma dor muito grande, daí o médico corta a barriga e tira o nenê". Ui. Aí ficou mais difícil ainda. Me limitei a dizer: "Esse neném não saiu pela barriga, saiu aqui por baixo", a conversa seguiu outros rumos (ufa!) e Caio me chamou para irmos.

Mas depois, fiquei pensando naquilo. Em como a cultura se transmite cotidianamente para as crianças, em casa, na escola, no mundo. Em como questões vão sendo arraigadas desde cedo, podendo, em grande medida, direcionar escolhas (ou a falta delas) no futuro.

Não era meu papel ali falar sobre nenéns, barrigas, nascimentos para as crianças. Tampouco a professora estaria preparada para isso naquele momento. Mas acho que a escola poderia trabalhar esses temas com as crianças, ainda mais tendo em vista que entre 2 e 5 anos, em média, é a idade em que as crianças ganham irmãzinhas (os): porque não abordar isso pedagogicamente?

Na última semana de gravidez, quando estive na escola pra conversar com a psicóloga sobre o Caio, as transformações pelas quais ele estava passando - e as que iriam se iniciar após o nascimento, para contar que teríamos o parto em casa e ele possivelmente assitiria, aproveitei para falar sobre a relação da escola com uma mãe grávida, e com a criança que ganhará um irmão. Isso porque, nas últimas semanas da gravidez (mas com muita antecedência em relação à DPP, em função do tamanho da barriga), toda vez que eu entrava na escola ou saía dela, eram inúmeros os comentários: "nossa, que barrigão", "esse neném não vai nascer, não?", "você aqui, ainda?", "ih, acho que esse neném não quer nascer!" e por aí afora. Além disso, mais para o final, a cada dia que eu não aparecia na escola, todos ficavam achando que o bebê tinha nascido, muitas vezes perguntavam inclusive para o Caio, o que gerava grande ansiedade nele. Sei que a intenção era das melhores, e sempre levei na brincadeira, mas, quando senti que estava impactando o pequeno, resolvi conversar. E, durante a conversa, me ocorreu uma ideia, e todo esse parágrafo enrolado foi pra chegar nela: comentei com a psicóloga que, durante a gravidez, muitas crianças vinham me perguntar sobre a barriga, o que tinha dentro dela (um menininho inclusive me perguntou, seriamente, se tinha uma melancia na minha barriga!! rá!!), e coisa e tal. Vi, por mais de uma vez, as crianças perguntado pras mães porque a barriga delas não estava igual a minha, porque elas não tinham neném na barriga. Ou seja, o assunto despertava a curiosidade das crianças, e estava gerando conversas entre elas e com os pais. A escola não poderia ter aproveitado a ocasião? "Aproveitar" uma mãe grávida pra conversar com as crianças sobre o tema? 

Ela achou que podia ser interessante, mas realmente não tinham pensado no assunto. Mas ficou a dica. Não sei bem como poderia ser abordado, até hoje só vi dois livros que têm uma abordagem didática e ilustrada do assunto para crianças (esse e esse), mas acho que, se encarado com naturalidade e sem tabus, todo assunto pode ser trabalhado com as crianças, de acordo com as idades e os questionamentos de cada fase. 

E vocês, o que acham? Gostaria muito de pensar mais sobre o assunto com vocês!

imagem do livro de Naoli Vinaver linkado acima

sexta-feira, 1 de abril de 2011

POR UMA INFÂNCIA SEM RACISMO



Pois bem. Eu tô sempre meio atrasada nessa intensa blogosfera materna. A blogagem coletiva sobre infância e racismo, proposta pela Ceila, do Desabafo de Mãe acabou dia 28, e eu quase passei batido. Não porque o assunto não me toque: pelo contrário, como vai ficar claro nesse post. Mas por pura falta de tempo pra parar, refletir, escrever. Mas, como nada nessa vida é só acaso, foi justamente o Caio que me conectou tardiamente a essa blogagem. E aqui estou, escrevendo enquanto reflito, e refletindo enquanto escrevo, dedicando minutos que seriam do meu sono precioso pra entrar nessa roda também.

O fato é que ontem, enquanto nos preparávamos para dormir, Caio fala, do nada: Mamãe, minha cor não é branca, minha cor é preta! E eu, intrigada com aquilo, e achando graça, dou corda: ah, é filho, e porquê? Ele: Porque é bonito. Concordei com ele, e deixei a conversa fluir, sem querer muito extrair "ensinamentos" daquela espontaneidade bonita: se o assunto continuasse, eu embarcava na dele, senão, aproveitaria a pureza do olhar da criança de 3 anos, me sentindo feliz por ele perceber as coisas dessa forma e reafirmando internamente o necessário e cotidiano esforço por não transmitir a ele qualquer ranço de preconceito que em mim possa existir. E assim foi, ele terminou a conversa com: e a cor da mamãe também é preta. Eu gosto. E foi mudando de assunto, falando de super heróis e flautas, os assuntos do momento.

Existem muitas formas de se ensinar a diversidade a uma criança. Acredito nisso pessoal e profissionalmente. Mas, em se tratando de uma criança de quase 3 anos, como o Caio, creio que a vivência cotidiana, as práticas familiares e escolares são os principais elementos: não há como racionalizar ou verbalizar demais o assunto nessa idade. 

Caio convive com crianças e adultos diferentes dele e de nós desde sempre. Temos parentes e amigos índios, negros, descendentes de japoneses, loiros, de olhos azuis, verdes, castanhos, pretos, deficientes físicos. Em sua escolinha, há muitos filhos de imigrantes, em especial latinoamericanos e africanos. A avó de Dani é índia, e ele tem traços inconfundíveis dessa herança.

Recentemente, Caio começou a perceber certas diferenças entre as pessoas, de uma forma bem natural: começou pela cor dos olhos, percebendo que as tias (minhas irmãs) tinham olhos de cor diferente da do dele ou do meu. Falou nisso por muito tempo, sempre perguntando para reafirmar a diferença. Depois veio a percepção das diferentes cores de pele, mas ainda de forma sutil, através de um momento de pintura com lápis de cor em casa, e depois a constatação de que seu boneco preferido (o João, primo do Júlio, do Cocoricó) tinha uma cor diferente da dele.  Ele também já havia detectado a diferença física em um amigo nosso que tem uma deficiência em um dos braços, e em alguns livros em braile que minha irmã (ela trabalha na Fundação Dorina Nowill) deu pra ele e que tratam lindamente de temas como diversidade e diferença junto às crianças.

O interessante é notar como, para ele, o estranhamento da diferença não é acompanhado de juízo de valor: ele já tinha convivido com inúmeros negros quando se deu conta dessa diferença, brincando com cores e bonecos. Ele tem uma grande amiguinha e uma tia que são japonesas perfeitas (embora sejam já de uma segunda ou terceira geração de mestiçagem), mas essa diferença ainda não lhe chamou a atenção. Mas, ao perceber a diferença, seja da cor dos olhos, da cor da pele ou da deficiência física, ele expressou seu estranhamento, e eu procurei não reprimir, ou condenar. Deixei-o expressar essa estranheza, e tentei ajudá-lo a entender, apreender a novidade de percepção. E aí aquela descoberta passou a fazer parte do seu universo lúdico, e não causa mais estranhamento. Principalmente se, ao seu redor, elas estiverem de fato presentes, seja em brinquedos, livros, filmes e, principalmente, nas pessoas de seu convívio cotidiano.

Porque se a criança não convive com negros, para citar um exemplo, o estranhamento vai ser maior, certamente. Lembro que, há um tempo atrás, uma amiga comentou comigo que estava pensando em fazer algum trabalho social, para que as crianças dela convivessem mais com negros, pois estavam tendo um grande estranhamento cada vez que encontravam com um. Aquilo me cutucou: é fato que em nosso meio, de classe média, convivemos  com poucos negros, e a reação das crianças foi um escancaramento disso para aquela família.

Mas, aqui em casa isso é diferente, em especial por conta do meu marido. Embora eu sempre tenha convivido e tido amigos de diversas etnias e nacionalidades, posso contar nos dedos aqueles com os quais convivi em profundidade. Na infância, então, tive apenas uma única amiga negra. Nunca tive um amigo de origem indígena e, mesmo meu marido sendo descendente de índios, pouco conhecemos das suas raízes.

Dani, entretanto, se interessa pela cultura africana ou de matriz africana desde a adolescência, quando passou a praticar capoeira. Hoje, além de arquiteto e militante da cultura digital, ele é também professor de capoeira angola, praticante e produtor de cultura popular. Está envolvido em diversos projetos focados em educação para a diversidade, ligados à lei 10.639. Em nossa casa, desde sempre, temos tambores, berimbaus, imagens de capoeiristas negros, discos de samba, livros sobre escravidão e práticas culturais de origem africana, etc etc etc. Práticas e apresentações de capoeira, samba, jongo, coco, cacuriá, congada, maracatu são presentes na vida de Caio desde muito cedo e, por conta disso tudo, ele está crescendo em meio a referências culturais que carregam em si a diversidade, a diferença, o questionamento do preconceito, a luta por afirmação, coisa que nem eu, nem Dani tivemos em nossa infância (só para ter uma ideia, minha avó ficou horrorizada porque em minha festa de casamento tinham 2 negros... isso me entristece, mas é inevitável constatar que esse racismo está, de alguma forma, na pré-história de minha criação - mesmo que meus pais tenham me criado de forma bem diferente, eles foram criados sob essa perspectiva preconceituosa e discriminatória, e admiti-la, ainda que doa, é o primeiro passo para transformá-la, penso eu). 

Além disso, a escolinha dele também incorporou as diretrizes da Lei 10639 e, entre outras coisas, os alunos praticam capoeira na escola, o que claramente tem despertado o interesse do Caio pela cultura negra (africana, afro-brasileira, afrodescentente.... são tantas variáveis...), e, talvez por isso, aquela manifestação de ontem sobre ter a cor preta...

Enfim, eu poderia escrever muito ainda sobre o assunto, sei que não cheguei à conclusão nenhuma, mas o que vejo da nossa prática cotidiana e o que, de forma meio espontânea - já que nunca paramos efetivamente pra conversar: como vamos construir uma infância sem racismo para nossos filhos? - acredito de verdade que já estamos nesse caminho, e me alegro em poder dizer isso, pois vejo também em mim a tranformação.

[Esse post faz parte da Blogagem Coletiva iniciada a partir da Campanha da Unicef Por uma Infância sem Racismo]


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

VIVA A DIVERSIDADE (MATERNA)

A Camila, blogueira inteligente do Mamãe tá ocupada, escreveu um post essa semana que foi como um desabafo com algo que ela (e pelo jeito muitas mães internautas) consideram uma espécie de "bullying" materno. Mães que estariam contra mães, querendo impôr suas verdades e humilhando e diminuindo aquelas que seguem caminhos diferentes.

Eu, sinceramente, nunca senti isso nesses 2 anos e pouco de blog, nem durante o período da gestação, quando participei de algumas listas de discussão. Mas devo dizer que não é a primeira vez que vejo outras mães falando sobre isso, e parece que, com o 'advento' (bonito isso, não) do twitter e do facebook, as discussões maternas têm se tornado mais acaloradas. Como estou por fora dessas mídias (pelo menos por enquanto), não sei bem o que rola por lá, mas já vi outras blogueiras (como a Mari, do Viciados em Colo) também questionando a abordagem de algumas mães tuiteiras.

É fato que os temas da maternidade, em especial o parto e a amamentação, rendem muitas discussões, não apenas entre mães, mas também entre profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, etc). E isso, na minha opinião, é muito bom, pois novas pesquisas vão sendo feitas e debatidas, tabus vão sendo derrubados, outras práticas se tornam possíveis. Acho que o problema, como a Camila tentou apontar, é quando isso deixa de ser um debate saudável e vira um embate, com lados opostos que se atacam gratuitamente, sem procurar verdadeiramente dialogar. O conflito, na minha opinião, é saudável, enriquece a sociedade. O quebra-quebra aleatório, não.

A Camila parte do argumento de que hoje, com o excesso de informação proporcionada pela net, a maternidade teria virado um grande check list dos "TEM QUE": tem que fazer isso, tem que ter aquilo, tem que saber sobre aquilo outro. Ela cita itens desses "TEM QUE" como sendo parte de um "enxoval obrigatório" que estaria sendo imposto às mães em geral:

"Você TEM que amamentar no peito exclusivamente por 6, 8, 10 meses; você TEM que ter parto normal (humanizado?); você TEM que alimentar o seu filho apenas com alimentos orgânicos quando ele deixar de mamar no peito, você TEM que ouvir música clássica durante a gravidez; você TEM que manter o seu filho bem longe do açúcar até ele completar 2 anos; TEM que fazer muitas outras coisas, senão?? Senão o quê?"

Eu discordo da Camila em alguns aspectos, como comentei lá no post. E me animei a fazer esse post também, justamente porque concordo com ela no essencial do seu post: cada mãe e cada filho são únicos, e, portanto, cada forma de maternar também. E é justamente isso que faz, na minha opinião, a blogosfera e as trocas digitais entre mães valerem a pena, pois sempre temos algo a trocar, algo a aprender. Como eu falei lá no comment, e repito aqui: opiniões e experiências diferentes existem e sempre vão existir, a grande questão é: estamos dispostas a compartilhar, dialogar e respeitar as diferenças?

Vejamos meu caso, por exemplo: eu QUIS ter parto normal. Descobri as listas e sites sobre parto e me joguei de cabeça. Procurei uma médica com quem pudesse dialogar sobre isso aqui onde moro (foi difícil achar). Descobri as doulas, e, melhor, que havia uma na minha cidade. Em um ponto crucial da gestação, minha médica me afirmou o que eu já havia intuído: eu não conseguiria um parto como queria com a estrutura hospitalar da minha cidade. Propus irmos para uma cidade vizinha, mas ela não topou. Eu já conhecia o parto domiciliar, através dessas listas e sites, e ele passou a ser uma opção. Falei com pessoas que já tinham tido a experiência, conversei com médicos e enfermeiras que faziam o parto em casa, achei uma enfermeira obstetra aqui na minha cidade. E optei conscientemente e deliberadamente por este tipo de parto. Quanto à amamentação: até meu filho nascer, não sabia praticamente nada sobre o tema. Pensei tanto no parto, que deixei de pensar em outras coisas igualmente importantes da maternidade. Mas tive muito apoio, como já contei aqui. Optei, conscientemente e deliberadamente, pela livre demanda, inclusive com indicação da pediatra. Conheci o sling, e me apaixonei pela ideia, sem que ninguém me tivesse imposto. Optei por não dar mamadeira, chupeta, paninhos. Optei pela homeopatia. Optei....

Ou seja, eu busquei a informação que desejava, encontrei opções que se afinavam com meus valores e estilo de vida, e ESCOLHI, a partir de muita informação - claro! - o que EU achava melhor para mim, para meu filho, para minha família. Não fui pressionada a isso. As informações estão aí para isso, para nos guiar em nossas escolhas, em todos os aspectos da vida. Acontece que, na era digital, da mesma forma como se disponibiliza muita informação confiável, novas evidências científicas, experiências individuais e coletivas interessantes, existe também muita porcaria e muito fundamentalismo, e cabe a cada um selecionar o que ler, onde buscar informação, com quem se relacionar.

Eu, particularmente, gosto de conhecer as pessoas com quem dialogo e troco experiências, mesmo que digitalmente. Procuro saber mais sobre quem comenta no blog, sobre os seguidores, sobre os visitantes, e tenho feito boas amigas assim: nem todas compartilham dos mesmos valores e experiências que eu, mas estamos dispostas a dialogar e trocar experiências, e isso é o que importa. Acho que temos o poder de filtrar a informação e os relacionamentos "virtuais", e, dessa forma, não sermos atingidos por essa maré do "TEM QUE" que ela mencionou, e que ecoou em quase todos os comentários do post.

Assim como as várias mães com que me relaciono pessoalmente ou digitalmente, eu tenho sim minhas ideias, minhas opiniões sobre parto, sobre amamentação, sobre alimentação, sobre tudo que envolve a maternidade, porque somos mães pensantes, que nos preocupamos verdadeiramente com a criação dos filhos. Falamos sobre isso em nossos blogs, é inevitável. Ao expôr nossa opinião é que podemos dialogar, trocar experiências e nos enriquecer, e isso tem sido uma constante nesse meu curto tempo de blogosfera.

Há, obviamente, que se ter cuidado com a forma de expôr essas opiniões, na vida "digital" e na de carne-e-osso: essa semana mesmo, na natação do caio, surgiu um papo sobre parto entre as mães. Uma delas me perguntou se eu tinha tido parto normal, eu disse que sim, e ela disse que eu tinha "cara de parto normal"... Para mim isso é um elogio, mas, vejam bem se isso não é um pré-julgamento... Quando eu disse que tinha tido em casa, então, a moça disse que já imaginava, porque me achava bem "alternativa". Hein?? Por outro lado, uma outra mãe, que tinha tido cesárea por opção, mesmo estando em processo de dilatação, se interessou pelo meu parto, e eu pela escolha dela (apesar de discordar e deixar isso claro para ela), e tivemos um bom papo, super respeitoso e enriquecedor. Ou seja, tudo depende da disposição dos interlocutores, e nós temos o poder de ESCOLHER com quem queremos dialogar e trocar. Por isso eu não chamaria de bullying, porque nós, mães, adultas que somos, não somos obrigadas a conviver com alguém que supostamente nos humilha (os pequenos também não, mas o poder de percepção e decisão deles é bem mais limitado que o nosso): podemos simplesmente dar um fim na situação.

Sinceramente, o que mais me surpreendeu e me intrigou após ler o texto da Camila, é que, tanto o post quanto vários dos comentários mencionavam as cesáreas e as dificuldades com a amamentação - ou seja, as pessoas que tiveram essas experiências (seja por necessidade, por conveniência, por vontade, enfim, as motivações são diversas como são as pessoas) estão se sentindo "pressionadas" de alguma forma, muitas se sentiram inclusive "diminuídas", daí a Camila ter falado em Bullying. E isso é muito triste, muito cruel mesmo. Por outro lado, vi comentários lá que demonstraram que a apreensão da questão mais ampla que essa discussão toda traz nem sempre é compreendida: mães justamente JULGANDO E ACHINCALHANDO (estou inspirada, hein) quem opta por parto natural, por fralda de pano, por amamentação prolongada, por alimentação orgânica... Uma mãe (não vou citar nomes) falou até em um "novo método materno hippie"... Ou seja, não entenderam bem o que a Camila quis dizer, eu acho, demonstrando, como tão bem disse a super Lia no comentário do post (e de forma mais desenvolvida - e bem divertida - nesse post), que "sempre haverá alguém para dizer que é melhor que você, independente das escolhas que você faça".

Então, esse meu post, por um viés um pouco diferente da Camila, soma-se ao dela como um manifesto pela DIVERSIDADE MATERNA, pelo respeito às diferenças, pela liberdade de escolha (e liberdade pressupõe informação, não se engane) e, principalmente, pela liberdade de expressão e pela disposição ao diálogo e à troca de experiências entre as mães!

Beijo, abraço e aperto de mão, vou parando por aqui, pois o assunto dá o que falar e minha lombar já está doendo...

[EM TEMPO: Em uma incrível sintonia bloguística, eu e a Paloma falamos sobre o mesmo assunto, ao mesmo tempo!! O post dela, excelente, está AQUI. A Dani, outra blogueira "chegada", também já tinha falado sobre assunto parecido há um tempo atrás, AQUI.]



domingo, 13 de fevereiro de 2011

MULHER BARRIGUDA QUE VAI TER MENINO...

Então, há quinze dias é oficial: vou ser mãe de meninos! Outro homenzinho cresce (loucamente) dentro do barrigão, como o Caio foi o primeiro a prever (eu acredito em intuição infantil!!! rá!). Ficamos super felizes e ele mais ainda, já fala de bola, skate e tudo o mais com a barriga (sem estereótipos, é verdade!!).

E foi justamente essa reflexão que me bateu quando oficializei a descoberta: que responsa ser mãe de dois meninos! Não que ser mãe de meninas não seja, pelo contrário, mas pra uma mulher criada com duas irmãs, cachorra, primas e amigas em maioria absoluta, esse é um desafio e tanto. Sem contar que, vamos combinar, o mundo podia estar mais recheado de homens bacanas e bem resolvidos, né não? Estou encarando como uma verdadeira missão!

Devo dizer que eu suspeitava que fosse menino (mais pela insistência do Caio, já que eu não tenho intuição gravídica, não tive em nenhuma das duas gravidezes - ô pluralzinho triste!), mas, no fundinho, até ficava na expectativa se não seria uma menina, porque embora o Dani curta horrores ser pai de menino, eu pensava que seria legal pra ele ter uma menina já que ele, ao contrário de mim, cresceu num universo beeem masculino (3 irmãos, só pra começar - um salve à minha brava sogra que criou 4 HOMENS! sem falar nos cachorros e gatos...). Pensava que seria demais ele ter esse outro tipo contato com o universo feminino, em detalhes e profundidade que nenhum outro relacionamento poderia proporcionar. Mas, veio o meninão, ele ficou radiante, e eu até cheguei à conclusão que talvez ele não tivesse muita paciência pra aturar certas idiossincrasias do universo feminino tããão de perto, já que quatro mulheres berrando conversando animadamente do lado dele já são capazes de lhe tirar do sério... hohoho.

Mas o fato é que tenho pensado nisso. Ser mãe de menino tem sido uma descoberta maravilhosa (e por vezes difícil), e confesso que, até o momento, muito gratificante. Mas é um desafio cotidiano romper os estereótipos e lugares-comuns da nossa sociedade que quer nos ver criando "machinhos". E driblar nossos próprios preconceitos também, talvez aí resida o nó cego da coisa toda.

Caio segue livre pra curtir suas descobertas: de super-heróis a batons, de bolas e carrinhos a adereços de cabeça que ele tanto ama, de brincadeiras agitadas e até agressivas a carinhos delicados e gentilezas infinitas, de dirigir carros e motos e dar fim aos insetos a brincar de boneca,  de andar de skate a brincar de varrer a casa e de fazer comidinha. Mas sei que a base de uma formação de homens psicológica e afetivamente sadios vai muito além disso, e este é o grande desafio.

 mestre cuca corinthiano

Com certeza, nossa própria relação (minha e do Dani) com nossos maculinos/femininos será o principal guia desse processo. E nos trabalharmos, nos conhecermos, nos reconstruirmos como homem e mulher, pai e mãe será parte fundamental desse processo, já iniciado tão logo nos descobrimos grávidos de Caio e agora amplificado (pelo menos em mim, mulher barriguda e com hormônios à flor da pele), com a vinda de mais um meninão.

A Nau, blogueira querida que me inspira muito, falou lindamente em seus dois últimos posts, sobre ser mãe de meninas e sobre o se fazer cada vez mais mulher através das suas meninas. Por aqui os ventos são outros, mas o sentimento é o mesmo: nos fazermos mais inteiros pra formar homens - humanos - também inteiros, autênticos e felizes (outras reflexões sadiamente alimentadas pela Carol e pela Taís Vinha, que têm me cutucado deliciosamente). 

Mas que é inevitável  me imaginar entre uma pequena gangue de capoeiristas e corinthianos, lá isso é. Pero sin perder la ternura, jamás!

 meu menino, companheiro de todas as horas!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

AOS PAIS SEM NOÇÃO





Talvez vocês se assustem com o título e as imagens do post, mas é isso mesmo: hoje escrevo indignada com a falta de noção de alguns pais.

Fui ao cinema, neste fim de semana, assistir Tropa de Elite 2. O filme é bom, talvez ainda um pouco pesado pra uma grávida com emoções à flor da pele, como eu, mas não tem como não ser, ao tratar da complexa relação entre pobreza, violência e poder. Eu gostei.


Não vou dizer que foi fácil assistir ao filme, uma vez que, além de estar grávida, sou idealista, e trabalho justamente com pobreza e espaço urbano, ou seja, favelas, periferias e tudo o mais que elas representam (ou que nelas se estigmatizam). É sufocante assistir ao filme e ter a nítida sensação de que a solução está muito distante, se é que ela existe. Mas o pior não foi isso.


O pior foi assistir a todo o filme sabendo que, algumas fileiras à frente, uma criança bastante pequena também assistia a tudo aquilo. Isso sim foi uma tortura, durante toda a sessão. Meu marido viu a criança logo que chegamos, e comentou: "nossa, é uma criança ali, não é? Será que pode?" A criança estava acompanhada por três adultos. Fui me levantar para questionar os responsáveis pelo cinema, mas as luzes apagaram, e eu desisti.

A cada cena de violência, a cada tiro, a cada morte, eu procurava instintivamente a criança no escuro. A sensação angustiante do filme se multiplicava ao imaginar o que aquelas imagens estariam causando na cabeça - e nas emoções - daquele garotinho. Maridão tentava me consolar dizendo "pára de pensar nisso, Thaís, vai ver o menino até dormiu...". Pois é, porque além de tudo, a sessão era tarde, e o filme terminou mais de 10 da noite.

Mas não, o menino não tinha dormido. O filme acabou, e ele foi saindo de mãos dadas com o avô (imagino eu), seguidos da avó e do pai. Cruzei com eles na saída e não me contive: "Quantos anos ele tem?", ao que o avô respondeu, suposamente envergonhado: "3 anos... nem fala nada moça, já tô arrependido de ter trazido". Mas eu falo sim: "nossa, 3 anos! absurdo, né, porque esse filme é muito pesado! não é pra criança!" E ele, fugindo: "ai, nem fala, nem fala...".


Saí da sala e fui direto às responsáveis: "Vocês viram que tinha uma criança de 3 anos assistindo a este filme?" Elas, com caras de sonsa (e um pouco estupefatas pela minha reação), responderam: "A gente não pode fazer nada, ela tava acompanhada...". E eu, hormônios gravídicos a todo vapor: "Mas como assim, não tem censura de idade? Qual a classificação desse filme?" Elas: "Não tem censura, senhora, só classificação indicativa, que é de 16 anos para pessoas desacompanhadas. No caso, se estiver acompanhado dos pais ou responsáveis, não podemos barrar". Fiquei INDIGNADA, falei meia dúzia de impropérios pras moças e disse que queria um telefone de ouvidoria, para fazer uma reclamação formal. Elas, passadas, me deram um endereço de homepage, que seria o canal para o contato.


Dali, fui para o banheiro (aguentar um filme todo sem ir ao banheiro é tarefa ingrata para uma grávida) e lá desabei a chorar. Não somente pelo árduo do filme, mas por pensar naquela criança, e em tantas outras, VÍTIMAS DE PAIS E AVÓS SEM NOÇÃO. Porque, verdade seja dita, só adultos muito sem noção para levar uma criança para assistir um filme como esse, sem imaginar as consequências que isso pode ter. Eu mesma tive vários pesadelos aquela noite, que dirá essa criança.


E o pior é que isso vem se tornando corriqueiro. Não é difícil imaginar que, talvez, esse menino já tenha contato com violência significativa através de desenhos animados e jogos de videogame (outro absurdo, ao meu ver, tratado com naturalidade por PAIS SEM NOÇÃO: crianças pequenas, de 2 ou 3 anos, jogando videogame como se fosse a coisa mais inofensiva do universo).
Depois, ouvimos notícias de bullying, agressões gratuitas entre os jovens, violências físicas e simbólicas entre crianças cada vez menores, e a culpa vai para a escola, o professor, a TV, a propaganda. Mas não, a culpa é dos pais sem noção. Que são cada vez mais frequentes por aí, infelizmente.

[desculpem o tom agressivo do post, mas é mesmo um desabafo. e também uma tentativa de estabelecermos um diálogo franco sobre essas posturas que eu considero absurdas, concordem vocês ou não comigo]

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

EU SOU UMA MÃE DE VERDADE, E VOCÊ?


Sabe quando você passa o fim de semana inteiro grudadinha no filhote, curtindo em família? Então chega segunda-feira, e vocês acordam cedo, e brincam até o limite do horário de entrada na escolinha, e vão tomar um café da manhã especial juntos na padaria? E depois, na hora de deixar o filhote na escolinha, ele não quer ir, e chora, e você se despede dele assim mesmo, e se sente a pior das criaturas porque tem que deixar ele lá chorando e ir trabalhar? E aí você fica um trapo, e no caminho até o carro chora também, e chora ainda mais porque está naqueles dias? Pois é, hoje aconteceu isso comigo. Fiquei péssima.




Mas daí lembrei dessa linda campanha que conheci através da Flá e da Ombudsmãe e me confortei um pouco. Pensei que sou uma mãe de verdade, de carne e osso, e que nem tudo é perfeito e ideal como eu gostaria. E pensar na campanha me fez pensar na minha vida, na minha maneira de lidar com a maternidade, no que ando fazendo de bom e de ruim, no que ainda posso melhorar, no que tenho que aprender a lidar melhor... Essa campanha é bacana por isso, traz a realidade da maternidade, suas dores e delícias, para ser olhada de frente pela sociedade e por nós mesmas, mães. E as imagens são lindas, inspiradoras, nos põem pra pensar. Vale conhecer e assinar embaixo. Porque merecemos ser mães sem medo de ser feliz, e, acima de tudo, sem nos sentirmos culpadas e pressionadas por tudo o que fazemos ou deixamos de fazer. Embora, tenho certeza, vou chorar toda vez que tiver que deixar meu filho na escola chorando, porque tenho que trabalhar. Mas vou me sentir a melhor das mães quando puder deixar de ir trabalhar pra ficar brincando com ele, porque minha maternidade de verdade é essa, conciliar o filhote e o trabalho, em dias mais fáceis e flexíveis, e outros mais difíceis e rígidos. E vamo que vamo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

AS BIRRAS E OS AVESTRUZES



A primeira birra em público a gente nunca esquece. Pelo menos até vir a segunda, né não gente? Passei por isso há pouco tempo e digamos que foi inesquecível, para não usar adjetivos de baixo calão neste fofo blog de mãe. Enfim, vamos aos fatos.

Estávamos em Campinas e aproveitei para levar o filhote em um parquinho bem bacana (e suuuuper fino, diga-se de passagem) que fica perto da casa da minha sogra. Chegamos, Caio pirou na areia e nos brinquedinhos de todas as crianças ali presentes, mas ficou um pouco impactado com o brinquedão de última geração que une balanços, escorregadores, túneis, escadas e mais mil e uma atividades, que para falar a verdade nem eu saquei bem como funcionavam. Tudo ia bem, todos socializando brinquedinhos, mães, avós, tias e babás naquela interação compulsória, enfim, nada que não aconteça em parquinhos do mundo todo por séculos e séculos amém. Até que uma garotinha chegou em um super carrinho com direção hidráulica e câmbio automático, o sonho de consumo do Caio. Ele ficou vidrado. Foi que nem zumbi em direção ao tal carrinho, mas com jeitinho consegui demovê-lo da idéia fixa de entrar no "bibi".

Até aí tudo ótimo, brincamos mais um pouco, comeu frutinha, bebeu água, jogou bola, se acabou no balanço. Mas eis que chega outro coleguinha causando no parquinho, agora numa super baby-bike (que para falar a verdade eu nem sabia que existia): todas as crianças (TO-DAS, juro!) foram em direção à tal bicicletinha, feito moscas na lâmpada, e ficaram paradas olhando a dita cuja. Até que a babá do baby biker liberou geral: 'ai gente, deixa elas montarem um pouquinho, senão vão ficar com vontade'. Foi a senha para todas se divertirem na bike, e estenderem a liberação também para o carrinho: Caio nem se ligou muito na bicicleta, foi direto no carrinho, mas uma menininha mais rápida já estava se jogando lá dentro, quase de ponta cabeça. Ajudei a pobrezinha, Caio ficou indignado, mas até que se controlou, pulando para dentro do carrinho apenas quando a pequena saiu de lá. Daí, foi só alegria, buzina daqui, gira a chavinha de lá, e eu só me preparando para o que me esperava: sabia que não ia ser fácil tirá-lo dali, já que os "bibis" são a obsessão do momento do meu pequeno ariano. E assim foi até que uma garotinha entrou na "fila", e iniciei o movimento retirada: "filho, já tá bom, né, a amiguinha quer brincar". E ele: "Não". "Filhote, vamos brincar de outra coisa, já ficou bastante aí". "Não té", e resmunga, com cara feia. Decido exercer meu papel com mais convicção:"Caio, esse carrinho não é seu, e tem outra amiguinha querendo brincar, vamos sair". E o retiro de lá.

Aí começa o show. Choro, contorcionismo, se joga para cá, se joga para lá. Tentei colocá-lo no chão e foi pior, voltou para o colo. Minha vontade era enfiar a cabeça na areia, feito avestruz, e só sair quando ele paresse de chorar. Mas, como isso não é permitido às mães humanas, tive que enfrentar a situação que nem gente grande: antes que a tensão me dominasse, me concentro nele, esqueço de todas as mães-tias-avós-babás que estão nos assistindo e começo a andar com ele no colo pelo parquinho, tentando conversar calmamente. Só que os chiliques prosseguiam, até aumentavam. Fui até o outro canto do parquinho, já pensando que teria que ir embora dali com ele aos berros, mas de repente me veio uma luz e no meio do caos fui capaz de lembrar das preciosas dicas da Flávia e da Letícia, pensei rápido e busquei algo para distraí-lo: em poucos segundos estávamos sentados brincando de enterrar e encontrar uma linda flor roxa que estava caída na areia, e Caio aos poucos foi se esquecendo do tal "bibi". Logo estávamos rindo juntos de novo. Com ele mais calmo, convidei-o para balançar, e tudo voltou ao normal. Na hora de sair do balanço mais uma breve ceninha, agora por conta do soninho que chegava, mas rapidamente contornada.

Apesar de ter ficado feliz comigo mesma por ter dado conta da situação de uma forma bacana e relativamente rápida, sem chegar a extremos como elevar a voz, deixá-lo sozinho fazendo a birra ou retirá-lo aos berros do parquinho, a situação me deixou meio mal, um pouco por ver meu pequeno agindo daquela forma, um pouco por me perceber inconscientemente tensa por estar em público, um pouco por não saber exatamente ainda como lidar com a situação. Acabei dizendo mais de uma vez para o Caio que não tinha gostado da atitude dele, mas depois, refletindo um pouco, e lendo esse post da Flávia, que eu gostei demais, percebi que não adianta ficar remoendo a situação, que o melhor teria sido, talvez, depois de cessada a birra, compartilhar com ele do sentimento de frustração que ele experimentou, aproveitando a ocasião para ensiná-lo a lidar com ele. Ok, ninguém é perfeito, muito menos numa primeira vez (como em tudo na vida, né): acho até que nos saímos bem, e eu nem precisei virar avestruz...


Imagem retirada daqui.


domingo, 18 de outubro de 2009

EMPODERAMENTO INDIVIDUAL E COLETIVO


A Flávia falou aqui sobre o poder que nossa rede materna na net tem. A Roberta mandou uma Carta ao Prefeito do Rio que está circulando na blogosfera materna e ganhando força pra fazer algo acontecer. As Mamíferas estão sempre contando histórias de empoderamento de gestantes e mães, e das transformações promovidas por elas mundo afora. E eu queria compartilhar com vocês um pedacinho da minha própria história de empoderamento, e das consequências mais amplas que ela tem tido, copiando aqui um email que recebi esta semana da obstetra que acompanhou toda minha gravidez, e que, ao final das contas (como eu conto no meu relato de parto que está quase pronto, mas não acaba nunca) não realizou o parto do Caio, que foi feito em casa com uma enfermeira parteira muito querida, inclusive amiga dela (quem quiser saber um pouquinho do meu parto, minha doula fez um relato AQUI).

A decisão de parir em casa foi tomada quase de última hora, mas de forma bem tranquila e, de certa forma, compartilhada com a obstetra, que concluiu, em uma das últimas consultas antes do nascimento do Caio, que os limites dela, como médica, e do que ela podia fazer na estrutura da maternidade em São Carlos, estavam muito aquém das minhas expectativas em relação ao parto, e que ela não queria me frustrar. Mas se colocou à minha total disposição caso fosse necessário irmos para o hospital, o que me deu ainda mais segurança na minha decisão.

Estou contando tudo isso porque, há uma semana, minha doula, minha parteira, minha obstetra e uma outra doula iniciaram o Grupo de Apoio ao Parto Natural de São Carlos. Dá para imaginar como fiquei radiante, né? Minha doula havia comentado comigo que estava trabalhando bastante em conjunto com minha obstetra, que ela estava bem mudada, e que ela dizia que tinha mudado depois de acompanhar uma gestante que havia questionado alguns procedimentos considerados "padrão" (no caso, euzinha aqui!!). Fiquei super feliz com a notícia, claro, mas nada comparado ao que senti quando recebi esse email dela, que compartilho aqui por dois motivos: para registrá-lo nesse meu cantinho de memórias da gravidez, do parto e dos aprendizados como mãe, e, principalmente, para atestar que nosso poder de transformação do mundo que nos cerca é enorme, e às vezes não nos damos conta. E que se, sozinhos, eu e Dani pudemos mexer alguma coisa dentro dela que a estimulou a mobilizar-se pela humanização do parto numa cidade em que o índice de cesárias chega a 98% na rede privada, imagine nós, mais todos os outros casais que têm buscado essa mudança por aqui, somados a esse Grupo que acaba de se iniciar... A transformação será certeira, não tenho dúvidas. E isso me empodera ainda mais.

Thais

Bom ouvir notícias suas!
Vc talvez não saiba, mas o acompanhamento da sua gestação foi um "turning point" para mim. Todas as coisas desagradáveis que aconteceram com vc (desencontro de informações, atendimento inadequado na maternidade, procedimentos desnecessários...) foram responsáveis pela minha reflexão sobre a prática profissional e minha entrada no mundo da humanização.
Sua gestação foi, para mim, um grande aprendizado.

Nossos encontros serão quinzenais, já vou colocar vc na minha lista de email para encaminhar as datas. Sua experiência com certeza motivará outras mulheres.

Um beijo grande


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

CRIANÇAS E TV: QUAL O LIMITE?


"Canais especiais para bebês? O que virá depois?..."
"Benvindo à TV ÚTERO!"



Sábado passado, pela primeira vez, Caio pediu pra assistir TV: ficou apontando para o aparelho, falando qualquer coisa que eu não entendia direito (acho que ele falava "cacó", querendo dizer "cocoricó") e eu perguntei: você quer assistir filho? E ele: "té assiti". Hã!?!?!?!?!?!?

Recobrada do espanto (afinal, ele não juntava palavras nem pedia para assistir TV até outro dia...), liguei na Cultura, estava passando um desenho bonitinho, de uma família de insetos (não sei o nome, ainda não adentrei completamente o mundo televisivo infantil...) e, pela primeira vez ele assistiu mesmo, bem mais do que o de costume: ficou deitadinho do meu lado, assistindo e 'comentando' em 'bebenês' tudo que se passava no desenho, não parou de tagarelar um minuto! Isso durou uns dez minutos, no máximo. Logo ele se desinteressou da TV e partiu para suas brincadeiras habituais, com bola, carrinhos, fantoches, livrinhos, e em seguida foi para o quintal, brincar com a cachorra e detonar mexer nos meus vasinhos de suculentas...

Resolvi escrever sobre isso aqui, porque foi uma novidade que me marcou bastante, afinal, ele não tinha se interessado muito pela TV até agora (exceto pelo seu fascínio com os controles da dita cuja!), e eu ficava me perguntando em que momento isso aconteceria. De fato, nós nunca o estimulamos a assistir TV (e, inclusive, evitamos conscientemente durante seu primeiro ano): ele ganhou o primeiro dvd do Cocoricó de um casal de amigos no aniversário de 1 ano, e depois ganhou, de outra amiga nossa, um volume do dvd Bebê Mais. Algumas vezes até colocamos para ele assistir, mas ele simplesmente não demonstrava grande interesse, e a gente desligava e ia brincar de outra coisa.

Não que sejamos radicais em relação ao uso da TV; eu mesma já tive minhas fases noveleiras (a última se foi - thanks god - com o término de 'A Favorita'), o Dani curte bem aqueles programas insuportáveis e barulhentos de futebol, e ambos gostamos de ver um seriadozinho aqui outro ali, além de sermos viciados em filmes (e, já que ir ao cinema virou programa raro, o dvd tem resolvido muito bem nosso problema).

Mas, em relação ao Caio, concordávamos que quanto mais tarde ele fosse "introduzido" a essa maquininha simultanamente podre e fascinante, tanto melhor, já que havia tantas outras coisas no mundo, tão ou mais bacanas - mas certamente mais saudáveis - para um bebê menor de 1 ano fazer na sua vidinha que estava apenas começando. Então, simplesmente evitamos, não estimulamos. E ele também não demonstrava interesse, até agora. Claro que algumas vezes colocamos desenhinhos para ele assistir, para ver sua reação; na casa de amiguinhos, também tentamos deixá-lo com as crianças que assistiam; houve até uma fatídica vez, em que, no auge do meu desespero maternal (alguém conhece essa sensação, hein, hein???), coloquei o cadeirão na frente da TV para ver se ele comia alguma coisa (pronto-falei... mas foi só uma, eu juro! pelo menos até agora... rá!): mas ele sempre dispersava, até ficava uns minutinhos encantado, mas logo virava abóbora e mudava de assunto.

Confesso que achava bom. Ele tem tanto tempo pela frente, ainda, para descobrir a TV e tudo de bom e de ruim que ela pode trazer... não há por que apressar. Não acho legal usar a TV de "babá", deixando as crianças horas a fio sob o comando do aparelho - eventualmente, e por pouco tempo, vá lá, pode ser realmente necessário (como registrou a Flá, aqui), para dar um tempinho para as mamis respirarem ou exercerem 'funções domésticas' inadiáveis, desde que seja um programinha escolhido a dedo, e não qualquer porcaria, simplesmente para matar o tempo.

Temos vários amigos (e também li algumas mães blogueiras falando sobre isso, como a Paloma, mãe da Ciça) que optaram por não deixar as crianças, até certa idade, assistirem TV, mas apenas dvds com alguns desenhos e programas mais bacanas, fugindo, dessa forma, da invasiva e abusiva publicidade destinada ao público infantil. Uma outra amiga (aê Ju, meu exemplo!!), que tem um filhote hoje com 7 anos, sempre limitou a quantidade de TV diária que ele assistia, e isso passou a incluir, mais recentemente, o uso do computador - ela e o pai definiam horários mais adequados e uma quantidade limite de TV que o pequeno podia assistir ao longo do dia e, dessa forma, foram construindo nele, também, um entendimento e uma responsabilidade com suas atitudes: às vezes ele pedia para trocar um horário pelo outro, pois sabia que ia passar algo que ele gostaria de assistir mais tarde, ou trocava o horário que ele poderia ver TV por mais um tempinho no computador. Não sei como isso está agora, com o filho na pré-pré adolescência (rá!), mas até bem pouco tempo atrás parecia funcionar, e bem.

Acho que não há uma fórmula, e cabe a cada família encontrar a melhor forma de lidar com a - praticamente inevitável - presença da TV em nossas vidas e de nossos filhos (até um mestre de capoeira que admiro muito, que pratica o rastafarismo e radicalizava na proibição do contato de suas crianças com a TV, se viu obrigado a render-se a ela quando seus filhos passaram a frequentar a escola...). O desafio é encontrar o limite, a medida para evitar a super-exposição dos filhotes a apelos consumistas e mensagens duvidosas (e muitas vezes ideológicas, sim!) que podem estar presentes em certos canais e programas destinados ao público infantil.

Essa minha reflexão talvez seja um pouco precoce - meu filho não tem nem 1 ano e meio - mas foi inevitável: fiquei pensando em tudo isso desde o momento em que o pequeno pronunciou a terceira ou quarta expressão de sentido de sua vida, aquele "té assisti" tão bonitinho e inocente. É isso que dá botar filho nesse mundão-de-meu-deus... agora aguenta!!!

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(e, mais uma vez, a Taís, do Ombudsmãe, que é mãe escolada de três meninões, contribuiu lindamente para minhas reflexões de aprendiz de mãe, com um post sobre as "Crianças eternamente plugadas" , publicado há dois dias atrás, seguido desse outro, fresquinho, com uma dica de filme sobre o assunto e afins. Recomendo.)

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imagem retirada desse post da Marcia, do blog Ser Mãe na América, em que ela comenta os resultados de uma pesquisa americana sobre a influência da TV no desenvolvimento de bebês.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

DESMAME COMO PROCESSO



Tudo bem que mal acabamos de sair da SMAM e de infinitos posts sobre amamentação, e que eu ia dar um tempinho nesse assunto, mas não consegui... Rá! É que o assunto amamentação-desmame está bem em pauta no meu cotidiano (sabe o fatídico "ainda mama???"... então.), e tenho pensado nisso quase diariamente. Além do mais, estou me inspirando pra contar do desmame noturno do Caio, e achei que esse post faria uma boa introdução ao papo.

É que li
um artigo de uma pediatra** da Sociedade Brasileira de Pediatria e o trecho abaixo me tocou muito, nem preciso dizer o quanto me identifiquei, né? Sei que sou mãe de primeira viagem, aprendiz confessa, mas tem algumas opções que me parecem boas meio que instintivamente, e essa idéia do desmame como um processo, e não uma ruptura radical, é uma delas... É assim que tenho levado com o Caio: deixando fluir, prestando atenção nos sinais dele, incentivando-o quando percebo que os sinais estão lá, dando o peito sempre que ele quer. Enfim, por enquanto tem sido assim. Mas pode ser que eu mude de idéia, só a experiência vai me dizer. No segundo filho acho que vou poder falar com mais propriedade: por hora, apenas aprendizados, tentativas, erros, acertos. E sou toda ouvidos para as experiências de desmame de vocês, se quiserem compartilhar comigo, para ajudar a clarear as idéias e os sentimentos...

Então lá vai (os grifos são meus). O artigo tem alguns pontos que poderão ser considerados mais polêmicos, mas vale a pena ler na íntegra,
AQUI.

Atualmente, em especial nas sociedades ocidentais, a amamentação é vista primordialmente como uma forma de alimentar a criança, sob o controle total dos adultos. Assim, perdeu-se a percepção da amamentação como um processo mais amplo, complexo, envolvendo intimamente duas pessoas e com repercussão na saúde física e no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança, além de repercussões para a saúde física e psíquica da mãe. Hoje, em muitas culturas “modernas”, a amamentação prolongada (cujo conceito varia de acordo com a “convenção” da época e do local) freqüentemente é vista como um distúrbio inter-relacional entre mãe e bebê. Perdeu-se a noção de que o desmame não é um evento e sim um processo, que faz parte da evolução da mulher como mãe e do desenvolvimento da criança, assim como sentar, andar, correr, falar. Nesta lógica, assim como nenhuma criança começa a andar antes de estar pronta, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir a maturidade para tal. Em harmonia com esta linha de pensamento, Dr. William Sears, um antigo pediatra, recomendava “Não limite a duração da amamentação a um período pré-determinado. Siga os sinais do bebê. A vida é uma série de desmames, do útero, do seio, de casa para a escola, da escola para o trabalho. Quando uma criança é forçada a entrar em um estágio antes de estar pronta, corre o risco de afetar o seu desenvolvimento emocional”.


**
Elsa Regina Justo Giugliani - Pediatra, professora da Faculdade de Medicina da UFRGS, presidente do Departamento de Aleitamento Materno da SBP, Especialista em Aleitamento Materno pelo IBLCE (International Board of Lactation Consultant Examiners).

imagem - linda! - achada aqui.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A MATERNIDADE E A PATERNIDADE 2



Há um bom tempo li um post num blog paterno**, o Pai de Menina, um post que me marcou muito, chamado DA ARTE DE SABER COMPARTILHAR A MATERNIDADE. Li pouco tempo depois de escrever isso aqui, e caiu como uma luva para mim. Daí que, escrevendo o post anterior, em homenagem ao super papai do Caio, me lembrei do tal post... E resolvi colar um trechinho aqui no blog, para que de vez em quando eu leia e funcione como um puxão de orelha... Rá!

Quanto a ajudar em casa, principalmente com os pequenos, fica a dica: mesmo as mulheres bem resolvidas eventualmente pintam as tarefas com tintas dramáticas. São tantas as dicas e cuidados e vontade de manter o controle que os homens que não são naturalmente devotados aos deveres domésticos se assustam.

Vale deixar rolar e não reclamar do jeito que fazemos as coisas. Como coloquei num dos últimos e mal-criados posts do meu blog, algumas vezes temos mais discernimento do que as mães para resolvermos certos problemas com os filhos e nas tarefas diárias. O motivo? Simplesmente porque percebemos as coisas de forma diferente, quebrando alguns paradigmas de puericultura e educação infantil.

Se quiserem ter o(a) companheiro(a) ajudando, deixem ele (ela) livre para tomar decisões. Funciona melhor e evita que se sintam "sob comando".

** Para conhecer mais blogs paternos, veja este post bem bacana da Roberta.

imagem: www.gettyimages.com.br

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

AMAMENTAR É UM ATO DE AMOR?

A SMAM está acabando, mas a atenção ao tema do aleitamento materno deve ser contínua. Muitas mulheres enfrentam dificuldades, e nem sempre isso é enfocado em campanhas e meios de comunicação. Muitas vezes, a forma como a amamentação é apresentada resulta em ainda mais traumas, culpas e recalcamentos em mães que, por algum motivo, não conseguiram, não puderam, não quiseram amamentar. A amamentação (pelo menos aqui no Brasil), infelizmente, não é algo tão simples e natural como as campanhas fazem parecer. É necessário muito apoio, informação, persistência, aprendizado... Para muitas mulheres, conquistar uma amamentação tranquila e prazeirosa é quase uma operaçao de guerra, como também acontece com o parto natural. Pensando que são ambos atos fisiológicos, que o corpo da mulher está supostamente preparado para isso, parece óbvio que não precisaria ser assim. Mas é.

Um claro demonstrativo dessa situação são os inúmeros relatos que a Flávia, do Astronauta, recebeu, de mulheres que enfrentaram dificuldades as mais diversas durante a amamentação. E, aparentemente, muitas delas sofreram com isso. Não pretendo julgar os variados motivos que levaram a essas dificuldades, muito menos culpabilizar as mães que não conseguiram amamentar. Mas sempre fica aquela dúvida: poderia ter sido diferente? Não sei, mas creio que em muitos casos poderia. O fato é que existe uma mistificação muito grande em torno da amamentação, que em nada contribui para mudar esse quadro.

Pensando nisso, me lembrei de um post muito instigante da Taís Vinha, a Ombudsmãe, cujo título não poderia ser mais polêmico: AMAMENTAR NÃO É UM ATO DE AMOR. E achei que seria bem pertinente aproveitar que a SMAM está terminando para divulgar esse post e lançar uma reflexão sobre os perigos da mistificação de um ato que, mais do que natural e fisiológico, é também cultural, algo que deveria ser incorporado, corporificado, absorvido pela sociedade como um todo, e não apenas pelas mulheres. Deveria se tornar um hábito, um costume, uma rotina, que, de tão comum e cotidiana, pudesse tornar-se novamente, quem sabe um dia, natural.

E você, o que pensa sobre isso? Vamos refletir juntas?

[Nessa mesma linha de reflexão, vale também a leitura desse outro post da Taís e desse post da Sam Shiraishi, sobre o que ela chama de "divinização do leite materno"]


terça-feira, 7 de julho de 2009

A PERGUNTA



O Dani, meu marido, recebeu um email que achei bem pertinente, e resolvi postar aqui. Segundo consta, seria uma pergunta vencedora em um congresso sobre vida sustentável... Não sei bem de onde vem, mas achei uma boa pergunta para nosotros - mães, mamíferas, pais, tias, amigos, avós e companhia ilimitada... Então, lá vai:


"Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos filhos... Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"


Ilustração de Pol Leurs, premiada com o 1º lugar no Concurso Internacional de Ilustração organizado em Atenas com o tema “As crianças do futuro“.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

DUAS DICAS... E ALGUMAS REFLEXÕES


: : 1

Bom... aqui vou eu falar de novo da minha "cabacice" na blogosfera (ok, sei que a palavra é estranha, talvez nem exista, e não condiz muito com um blog de mãe... mas é a que melhor define esse meu momento virtual). Não bastasse o tal do
bug, no mesmo dia fui convidada por uma agência de comunicação para conhecer uma linha de produtos da Johnson's e, caso gostasse, comentar sobre ela aqui no blog. Não foi a primeira proposta que recebi desde que virei "blogueira" (rá! tô me achando!), mas foi a primeira que propôs algum tipo de divulgação aqui. Por um lado (o do ego, hoho!), achei bacana, porque dá a sensação de que o blog tá agradando (seja lá a quem for). Por outro, entrei em uma mini-crise (prontofalei): será que eu quero abrir o blog para divulgação de produtos e marcas?

Antes de aceitar a proposta (muito simpática e feita com muito tato pela equipe da agência), resolvi dar uma sondada: além de assuntar com a
'cumádi' virtual fundadora da "confraria das mamas", que já tinha um pouco mais de experiência no assunto, entrei no site da linha de produtos em questão (Linha Hora do Sono - Johnson's Baby), para ver se tinha a ver comigo, com meu filhote, com o blog. Fui fisgada (e olha que não sou fácil): achei bem bacana o site, os produtos, a forma de apresentá-los e topei receber o kit em casa para conhecer mais de perto.

Daí, que o kit chegou - todo fofo -, eu estou testando os produtos, mas já posso dizer que gostei: Caio parou de chorar quando eu lavo a cabeça dele, o cheiro é uma delícia, o hidratante é suave na medida para fazer uma massaginha relaxante. E o Caio simplesmente AMOU o Dr. Carneiro, bonequinho promocional que veio junto com os produtos, e que é o mote do envio dos kits para algumas blogueiras como eu: a linha está com a "Promoção Hora do Sono" em São Paulo e Porto Alegre, através da qual é possível adquirir o gracioso carneirinho de pelúcia (quem quiser saber mais, passa
aqui).



Pois bem. Quando saquei que tinha gostado dos produtos, que o bonequinho era lindo e divertia o Caio, veio a dúvida: escrever ou não o post? Divulgar ou não um produto no blog? E, enquanto eu meditava sobre o assunto (é gente, eu sou assim, penso penso penso, não gosto de fazer coisas que fujam dos meus princípios... é o meu jeitinho... rá!), coincidência ou não,
um dos blogs que acompanho levantou uma discussão sobre a questão da publicidade nos blogs, e de lá fui chegando a outros e outros posts sobre o mesmo assunto, e reafirmei algo que já vinha confabulando comigo mesmo: esse blog é um espaço, entre vááárias coisas (como já falei aqui), para trocar experiências com outras mães sobre as dores e delícias da maternidade. E, no mundo real das mães e filhotes, usamos produtos de todo o tipo o tempo todo - uns agradam mais que outros, uns se comunicam melhor que os outros, uns atendem mais às nossas expectativas que outros, uns se preocupam mais com o meio ambiente do que outros... e por aí vai. Então, porque não compartilhar esse tipo de experiência também, desde que esteja dentro dos meus princípios, que eu realmente conheça o produto e, principalmente, QUEIRA dar a dica para outras mães? (porque meu blog NÃO vai virar cena de novela em que uma personagem fala casualmente para outra: nossa, que batom incrível! e a outra saca da bolsa uma caixinha do batom xdw - close na caixinha, onde se vê a marca -, e elas voltam a fazer a cena como se nada tivesse acontecido).

Então, nessa primeira parte do post, toda metalinguística, tem pra todo gosto: quem quiser, pode aproveitar a dica sobre os produtos da linha "Hora do Sono" e a "Promoção Hora do Sono", da Johnson's Baby, que são bem bacanas; quem quiser ir mais além, fica aqui uma breve reflexão sobre os blogs e a publicidade. E 'bora trocar mais dicas e figurinhas! (desde que realmente valham a pena!)

Em tempo: depois que recebi o kit, testei, gostei, aprovei e fiquei com vontade de fazer um sorteio dele aqui no blog. Até tentei conseguir mais um kit para isso (porque eu sou do tipo - chato? - de pessoa que só consegue indicar ou dar para alguém uma coisa que conheça e aprove, então, eu precisava primeiro receber o kit, ver o bichinho de pelúcia, usar os produtos...), mas não rolou. Nesse meio tempo, a Mari, que tá com tudo e não tá prosa, e mora em Paris, e não ia poder testar o kit, decidiu fazer um sorteio, o que resolveu meu problema: mulheres, corram que ainda dá tempo de participar, e vocês vão gostar!


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Agora que já "descabacei" (ooops... essa palavra existe, pega ainda mais mal que a outra em blog de mãe, mas agora já foi...), vamos à segunda dica, mais no estilo "consumidora ativa". O fato é o seguinte: eu ganhei pencas de fraldas no meu chá de bebê. Como eu não conhecia nada de fraldas até então, segui a dica de uma amiga que, seguindo a dica de outras amigas-mães que tinham feito chá de bebê e ganhado fraldas de marcas variadas e qualidades duvidosas, resolveu especificar uma marca de fralda que preferia ganhar. E pedimos (eu e ela) fraldas da marca Pampers (hoje, depois de virar mãe, não faria isso NUNCA JAMAIS EM TEMPO ALGUM - nem tanto pela marca, mas pelo desagradável da postura, mesmo). Ainda assim, ganhei fraldas de marcas diversas, mas as Pampers dominaram absolutas nos primeiros meses do Caio. E algumas delas (as G), só vieram a ser usadas agora, um ano após o tal do chá.

Daí, que o último pacote que eu abri, um daqueles pacotões intitulados hiper-extra-plus econômicos, começou a dar problema. Virava e mexia, depois de todo o trabalho para conseguir manter o Caio parado, limpar a bundinha dele e colocar a fralda no lugar, no momento em que íamos colar as fitas adesivas, as tiras laterais onde elas são presas rasgavam da fralda... e a gente praguejava contra a Pampers, e reiniciava todo o árduo processo (!) novamente. Depois que a quarta fralda rasgou (e outras fraldas já tinham apresentado um probleminha com o material absorvente), resolvi guardar um exemplar da fralda rasgada e congelar o uso do pacote. E entrei em contato com o Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) da Pampers, através do
site da marca.

Escrevi uma mensagem contando o que tinha acontecido e, no dia seguinte, já tive um retorno bastante atencioso, solicitando mais alguns detalhes sobre o problema ocorrido, bem como alguns dados pessoais. Respondi e, novamente com bastante agilidade, uma funcionária do SAC me retornou, pedindo desculpas em nome da Pampers pelo ocorrido, explicando como funcionava o controle de qualidade da marca, e valorizando minha atitude de entrar em contato com eles, pois poderiam tentar identificar o problema com o produto. Um dos dados que eles me pediram foi o número de fraldas do pacote em questão que eu já tinha usado. Menos de uma semana depois, recebi em minha casa o mesmo número de fraldas, do mesmo tipo (Total Confort), mas na nova versão, que é beeeem melhor. Ponto para a Pampers.

Então, fica aqui mais uma dica: vale a pena botar a boca no trombone quando um produto não cumpre o que prometeu, ou não faz o que deveria fazer, ou estraga antes da hora. Já que vivemos em tempos de consumo (e atire a primeira pedra quem não sente prazer comprando algo que lhe agrada ou lhe vai ser útil), que seja ao menos um consumo ativo e crítico, porque de passividade o mundo tá cheio... (e, quem sabe um dia, eu me torne uma consumidora mais consciente e passe a usar
fraldas de pano... quem sabe...)